Conheça a doentia série Crossed

Uma noite como outra qualquer em uma lanchonete. Alguns poucos clientes tomam seus cafés, quando um rapaz, com as roupas rasgadas e cobertas de sangue, entra calmamente e joga sobre o balcão algo parecido com costela bovina. De início, pensam tratar-se de uma brincadeira (de muito mau gosto!), o rapaz com um sorriso assustadoramente insano. Tudo muda quando o proprietário do estabelecimento pede que ele se retire e, em resposta, leva uma violenta mordida no nariz, a qual o desfigura para sempre. Cindy, a garçonete, tenta defendê-lo arrebentando uma garrafa de café quente na cabeça do louco, enquanto todos, chocados, se dirigem à rua. Uma viatura se aproximando poderia deixá-los mais calmos, mas quando o veículo bate em um poste e o policial arrebentado sobre o capô mantem um sorriso firme na face, percebem que há algo pior chegando. 

É assim que se dá o início de Crossed, a HQ mais doentia que tive o prazer de ler. Concebida pelo roteirista Garth Ennis (Preacher) e o desenhista Jacen Burrows (Ultimate Spider-Man Special #1), foi lançada originalmente em dez capítulos nos EUA pela editora Avatar Press, em agosto de 2008.
Sou fã de zumbis, e quando descobri Crossed, acreditava que leria uma boa história de mortos-vivos. Feliz engano! Aqui não há mortos ambulantes, sem memória, vagando a esmo até encontrar carne humana. Os Crossed (do inglês, Cruzado), pelas palavras de Garth Ennis:

“São pessoas que se tornaram más, totalmente dedicadas a explorar qualquer pensamento sujo que lhes ocorra. Assassinato, estupro, carnificina – quanto mais criativo e devastador, melhor para os infectados. Assim, eles usarão cada recurso físico e mental disponível, sem pensar nas consequências. Até mesmo uma menininha de cinco anos será perigosa, visto que ela não se importa com o que pode lhe acontecer, enquanto mastiga as pálpebras de uma vítima.”

Fugir de zumbis seria fácil. Eles são burros, agem por instinto, alguns são atraídos apenas pelo cheiro ou som. Os Crossed não. São inteligentes. Preparam armadilhas, seguem pegadas, usam armas dos mais variados tipos, tamanhos e formas. Podem chegar ao extremo de usar partes de corpos dilacerados para golpear novas vítimas. Basta o contato com o mínimo resquício de fluído corporal dos infectados – e não é preciso que seja em corrente sanguínea ou mucosas -, até mesmo uma cuspida, e basta para que um novo Cruzado seja criado.

Devido a essa inteligência sádica os poucos sobreviventes não se dão ao luxo de realizar feitos heróicos ou se arriscarem por qualquer coisa ou pessoa. Como os infectados andam em bandos, ser avistado por qualquer um deles é morte na certa. E não espere uma morte lenta e dolorosa por mordidas. É pior do que isso! Em uma das cenas mais comentadas da primeira edição (lançada em outubro de 2008), pai, mãe e filha são sodomizados e desmembrados por um grupo. Até mesmo em forma de desenho é algo chocante de se ver. E dá vontade de ver muito mais! É impossível ler uma edição e não querer ir logo para a próxima, e a próxima, até não restar mais nada. Apesar da violência extrema, a HQ prende atenção pela alta qualidade, tanto do texto como dos traços. O trabalho é impecável.

Mas por que Crossed?, vocês perguntam. Assim que é infectada, a vítima rapidamente tem o rosto marcado por uma erupção cutânea em forma de cruz vermelha. Uma vez infectado, usam a própria saliva, sangue, esperma, urina ou merda com grande efeito, tratando suas armas com os fluídos e infectando outras pessoas à distância, sem precisarem se dar ao trabalho de alcança-las.

No elenco principal do primeiro arco estão Cindy, Stan, Thomas e Kelly, um grupo de pessoas normais que se reuniram quando a devastação começou. São pessoas comuns, sem treinamento de combate, embora tenham adquirido experiência ao longo do tempo. A mais capaz de todas é a garçonete.

Cindy é durona, muito capaz e adaptável”, diz Ennis. “Embora isso seja mais um reflexo de sua vida pregressa e de sua determinação em proteger o filho do que resultado de treino ou preparação”.

As origens da infecção são um mistério durante a maior parte da história. Ennis diz que o foco da trama é no pequeno grupo de pessoas tentando sobreviver, não em heróis ou cientistas com um grande plano para encontrar a cura.

Até a última edição lançada, sendo a nº3 da terceira série, não houve explicação sobre como ou onde surgiu o vírus. E, cá entre nós, não faz a mínima diferença, pois há tanta tensão nas páginas que você só torce para que os personagens se escondam o mais rápido possível. Contraditoriamente, assim que surge uma vista panorâmica mostrando a carnificina - pessoas sendo torturadas, estupradas ou mesmo espetadas lentamente por garfos enferrujados ou tomando um banho de gasolina enquanto assistem um isqueiro acender na mão do carrasco – você perde minutos admirando cada detalhe sórdido. O estômago talvez fique um tanto embrulhado, mas a curiosidade é maior.


Como cada arco é uma trama distinta, o segundo, “Valores Familiares”, concretizado em sete edições, foca no ataque ao rancho da família Pratt, onde são obrigados a fugir para um lugar isolado para se protegerem. Dessa vez, os Crossed não são o único mal que os ameaçam. O patriarca da família continua a abusar de suas filhas usando sempre o pretexto da vontade de Deus, resultando na revolta da filha mais velha, Addy, que planeja tomar satisfações e acabar com os estupros, custe o que custar. Voltado aos dilemas humanos, esse arco mantem a qualidade pelas mãos do roteirista David Lapham e pelo desenhista Javier Barreno.
O terceiro arco, “Psicopata”, foi lançado em fevereiro de 2011 e abusa ainda mais da violência. Como? As atrocidades são realizadas pelas mãos de um humano, não um Crossed. Há algo mais cruel do que alguém que faz a maldade e sabe o que está fazendo?


Extremamente recomendada, os fãs de boas histórias com muito sangue, tensão e sem um pingo de humor não podem deixar de conferir. Houve até uma notícia, no início de 2010, dizendo que alguns produtores estavam atrás de financiamento independente para rodar a adaptação. Seria muito bom, se não fosse completamente improvável. Não que a história não possa ser rodada, mas seria tão picada e editada e reeditada que teríamos mais um filme de psicopatas arquitetando planos para dizimar a humanidade. A essência de Crossed seria perdida de tal maneira que nem poderia carregar o título original. Se duvidam do que estou falando, procurem e confiram. Duvido muito que qualquer produtora, por mais poderosa que seja, daria conta de transmitir na tela a mesma sensação dos quadrinhos.

Depois de vomitarem, terem pesadelos e chorarem muito voltem aqui e digam o que acharam.


NEW: A Avatar Press esteve em Toronto, Ontario, para o FanExpo Canada 2011. Confira a arte de capa de CROSSED: PSICOPATA # 4 Edição Exclusiva disponibilizada no evento sob a bagatela de $ 5,99.

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