MUTANTS – Não existe certo e errado, existe o que é certo pra você

O que um filme de zumbis precisa para ser considerado bom? Sobreviventes enclausurados em um lugar (casa, prédio, shopping) cercado por uma horda de canibais famintos? Maquiagem caprichada para os mortos-vivos? Atuação convincente? Uma mísera luz de esperança que incentive os remanescentes a lutarem até as últimas forças?

Mutants (Мутанты), filme francês de 2009, dirigido por David Morlet, tem tudo isso. Não chega a ser o melhor do gênero nos últimos anos, mas é obrigatório para qualquer fã de zumbis, embora não tenhamos necessariamente zumbis por aqui.
 
Nos primeiros minutos e assim como outros filmes já o fizeram, Mutants nos lembra que, para sobreviver ao apocalipse zumbi, é melhor não se apegar a nada nem ninguém. É muito fácil dizer; o difícil é colocar a teoria em prática. A dificuldade de enfrentar zumbis - além do fato de serem incansáveis - é que eles não são apenas alvos em uma terra onde a prática de tiro é liberada. Olhe para eles. Olhe bem! Percebeu? Sim, são seus entes queridos.

Estar em uma rua deserta e atirar aleatoriamente contra os zumbis pode se tornar fácil com o treino, mas assim que você reconhecer rostos conhecidos, como seus pais, filhos, amantes e/ou amigos, a tarefa ganha 100 pontos de dificuldade. E não vale dizer que “se acontecesse, eu teria sangue frio”. Teoria e prática estão em extremidades mais distantes do que são pintadas.

Após uma abertura rápida e chocante, onde infectados atacam alguns infelizes que cruzaram seu caminho, somos apresentados aos ocupantes desesperados de uma ambulância: Sonia, uma médica, Marco, seu marido, uma militar (que levei um bom tempo para distinguir se era homem ou mulher) e um moribundo na maca. Ao constatarem que o abdome do ferido apresenta várias mordidas, a militar manda que Marco pare o carro e fica sozinha com o cara da maca do lado de fora. O sangue frio para acabar com o sofrimento do indivíduo chega a se misturar à paisagem. Inóspito, e não pelo desastre que não se explica d’onde veio nem como ou quando começou, o cenário se limita a uma estrada deserta em meio a uma cadeia de montanhas forradas por neve. Nenhuma cidade é visível nos arredores. A trilha sonora ajuda a construir o clima tenso.
 

Descobrimos que eles estão indo para uma base chamada Noé, o último refúgio. A tal luz de esperança para se agarrarem. Embora a militar confirme sua existência, não é uma verdade absoluta.

O que geralmente acontece neste tipo de filme é a questão da confiança. Em quem confiar? O risco de virar isca para que o mais esperto fuja é iminente em tal situação. Você confiaria em um desconhecido, por mais que ele pudesse te ajudar, no fim do mundo? Sonia e Marco não confiam na militar, que nem se esforça para parecer confiável, ainda que o afirme ser por duas ou três vezes.

Adiante, o trio encontra um garoto com problemas mentais. Nesse ponto, você se pergunta qual seria sua decisão. Cuidar do garoto seria o certo, correto? De acordo com o que é certo e errado, sim. Leve o garoto e garanta um lugar no céu... Mais rápido. Por mais errado que pareça abandonar alguém tão indefeso sozinho, caso você queira sobreviver, é o certo. Desculpem-me os falsos moralistas, mas é a inumanidade natural vindo à tona em situações limite.

É essa falta de concordância, de confiança, que põe um fim às chances de sobrevivência de todo o grupo. Isso nos primeiros minutos do filme, hein! Mutants é bem cruel. Como não há mais lei, apenas instinto, os tiros gratuitos dão fim ao autista, à militar, e um balaço no abdome de Marco. Agora resta a Sônia tomar as rédeas, cuidar do marido e continuar a busca pela mítica Noé.
 

Os infectados não aparecem às pencas. Por grande parte do filme não se vê um único canibal. Os “zumbis” oferecidos em Mutants são mutantes virais similares aos de Extermínio (28 Days Later), de Danny Boyle. Porém, enquanto Boyle nos dava uma transformação quase simultânea após a infecção, Mutants oferece algo mais cruel. A vítima sofre por aproximadamente quatro dias até estar totalmente transformada. A crueldade de uma transformação longa e dolorosa está na ilusão de que a cura é possível. Neste caso, a personagem principal, Sonia. Como médica, é natural a crença de que qualquer doença pode ser curada.

Embora Marco não tenha sido mordido, ele começa a apresentar os primeiros sintomas da infecção. Sua degradação é angustiante. Os cabelos caem, ele fica agressivo, mija sangue, e até ameaça matar Sonia. Como último recurso, Sonia improvisa uma transfusão, por ser doadora universal e, aparentemente, imune ao vírus, o que revela para convencê-lo a continuar lutando. Esta é uma heresia para aficcionados por zumbis. Geralmente, o mais próximo de uma cura é a amputação imediata, mas por flertar com a heresia, Mutants lança algumas perguntas interessantes, como o dilema moral da eutanásia.
 

Em que ponto o tratamento médico é mais cruel do que a morte? Em que ponto a pessoa amada foi tão consumida pela doença que não há o mínimo resquício do que ela foi ou poderia ter sido? Onde termina a humanidade e começa a morte? David Morlet foi eficiente ao nos mostrar que o apocalipse zumbi não é apenas sobre os zumbis, mas o apocalipse em si – o fim de tudo. O fim do transporte, da comunicação, das relações, do gás, do conforto, da civilização, das regras. É o fim do amor e da confiança.

O filme não é perfeito. Há algumas características na mutação que não fazem muito sentido. Uma doença desse tipo até poderia fazer o cabelo da vítima cair, até aí tudo bem. Mas perder os dentes? A principal arma dos zumbis está nos dentes. Assim que Marco perde alguns, não consegui tirar da cabeça um zumbi banguela. Dá a entender que os dentes caem para dar lugar a outros mais pontiagudos, ao melhor estilo Demons, mas ainda assim não fica claro.
 

Há também as burrices que uma pessoa não pensa duas vezes antes de cometer, acreditando ser a melhor coisa. A primeira é sair sozinho por um lugar escuro e desconhecido para se certificar de que a área está limpa. A segunda é ligar a energia da instalação, o que pode atrair visitantes indesejados. Na verdade, assim que as luzes ligam, os rugidos ecoam pela floresta ao redor. Outro detalhe que existe apenas para causar impacto. Os rugidos dos infectados. Mesmo que tente levar a trama por um caminho mais sério, nisso Morlet cagou. Sim, dá medo ouvi-los na noite (até mesmo no dia), mas pelo modo como as coisas andavam, seria mais verossímil que berrassem como os infectados de Danny Boyle. Pelo contrário, parecem leões.
 

O desfecho é, de certo modo, interessante. Como a doença aqui não é aquela que traz os mortos de volta à vida, sem emoções, e sim algo que te transforma fisicamente em um monstro que ainda pode ter emoções em meio à fúria dominante, é aceitável a reação do mutante diante de alguém que lhe foi tão querido. As lembranças são fracas, mas ainda existem, submersas em sangue e saliva.

A característica mais marcante em Mutants é a confiança. Na maior parte das vezes, seu lado corrompido. Em quem confiar? Vale a pena confiar apenas para ter uma chance maior, ou é melhor continuar em seu caminho por conta própria?
 

Mutants nos lembra que, com a chegada do fim, que pode ser ao mesmo tempo belo e doloroso, a barreira que separa vida e morte, amor e ódio, civilização e caos não é algo que pode ser atravessado num piscar de olhos. A transição é lenta o bastante para você sentir os cabelos caindo, o sangue e outros fluídos inevitavelmente esvaindo de seu corpo. O que antes era considerado certo agora tem um novo significado. Na verdade, o significado que sempre teve, mas que diante dos olhos julgadores de humanidade era considerado errado. O certo pra você. Sobreviver em Mutants, ou mesmo em um eventual apocalipse, é quebrar paradigmas e fazer o que for preciso. E, após tomar a decisão, é tarde demais pra voltar.

0 mordidas:

Postar um comentário