The Walking Dead – A Ascensão do Governador

Acompanho The Walking Dead desde meados de 2006. Foi amor à primeira vista. Tudo o que eu gostava em uma estória estava naquelas páginas em preto e branco. Tudo, inclusive zumbis. Criei grande carinho por alguns personagens, e nutri verdadeiro ódio por outros – Phillip Blake era o mais odiado.
Sonhava em ver TWD nas telas, e imaginava que um filme, por mais longo que fosse, não conseguiria transportar toda a atmosfera da HQ com fidelidade. Duas horas de duração não seriam suficiente para fazer o telespectador se importar com os sobreviventes, tampouco curtir os zumbis criados por Robert Kirkman, em toda sua evolução: da criação ao apodrecimento. Particularmente, TWD só seria bom se fosse em formato de seriado.

Qual não foi minha surpresa diante da notícia de que isso aconteceria! De começo, achei que era apenas um boato, até que foi confirmado. E eu vibrava com cada imagem vazada dos zumbis, a maquiagem impecável. Babei! Tudo bem que não me agradou a escolha de alguns personagens, as mudanças que não seguiam fielmente a trama da HQ, entre outros detalhes, mas em suma, me tornei fã da série. É uma adaptação, oras! Pra que ser fiel ao extremo, se pode ter o melhor da HQ e o melhor que a equipe da série pode nos dar?

Quando fiquei sabendo que seria lançado um livro contando a origem de Phillip Blake, o déspota que comanda a destruída cidade de Woodbury em The Walking Dead (a série original, em quadrinhos), fiquei com um pé atrás. Caça-níquel? Era uma hipótese forte. Tanto que nem me interessei pelo lançamento.


Quando descobri o livro em pré-venda por um preço muito camarada, não hesitei. Por pior que fosse, não seria um dinheiro tão mal gasto. Ao pegar o livro nas mãos, o que primeiro me chamou atenção foi a capa. De uma qualidade incrível. O título, na frente e lateral, em verniz, combina com a imagem (muito bem) escolhida. Três vultos – dois homens e uma criança – avistando, ao longe, a cidade de Atlanta. As cores padrão caíram como uma luva. Preto e um verde gasto, como a pele de um zumbi apodrecido. A sensação ao admirar a arte é de total desolação.

Para prender minha atenção, um livro precisa, acima de tudo, ter uma narrativa gostosa. Fluída. E The Walking Dead – A Ascensão do Governador o tem. Os personagens são bem construídos e apresentam uma evolução crível. Em meio ao caos de TWD, onde cadáveres perambulam livremente em busca de carne fresca, a evolução é inevitável, seja para o bem ou para o mal. As escolhas de uma pessoa ditam seu destino, onde ela chegará e o que se tornará. Uma boa escrita é essencial para descrever todo esse trajeto sem cair no marasmo, sem cansar a vista e fazer o leitor desistir de avançar. E aqui há outra ótima escolha, o escritor. Jay Bonansinga. Ele é autor de livros de terror aclamados pela crítica, como Perfect Victim, Shattered, Twisted e Froze. Seu livro de estreia, The Black Mariah, foi finalista do Bram Stoker Award.

A Ascensão do Governador (Galera Record, 361 páginas) é dividido em três partes, e é assim que falarei sobre essa obra de arte.


Parte Um – Os Homens Ocos
A morte não tem nada de glorioso. Qualquer um pode morrer. – Johnny Rotten


O primeiro personagem que conhecemos é Brian Blake, o irmão mais velho de Phillip. Escondido em um armário com a sobrinha e filha de Phillip, Penny Blake, Brian é o mais próximo do que a maioria de nós seria se o apocalipse zumbi realmente acontecesse. Ele tem medo, não mata os zumbis, e prefere correr a lutar. Quem diz que vai estourar miolos quando os zumbis vierem está tomado pelo clima de ação cinematográfico de Resident Evil ou não parou para pensar que, entre eles, haverá parentes, amigos ou mesmo desconhecidos que um dia também foram humanos. E você não sai atirando em humanos como se fosse a coisa mais normal do mundo, nem mesmo se for um zumbi.

Penny Blake é mirrada e frágil como uma porcelana. É o xodó de Phillip e Brian, e o elo que une os irmãos e os dois amigos, Nick Parsons e Bobby Marsh, no objetivo de cruzar o estado da Geórgia, percorrendo os 30 km que separam Waynesboro de Atlanta, último refúgio para os sobreviventes. Não é um caminho tão longo certo? Errado. Em um apocalipse zumbi, chegar à esquina mais próxima pode der uma viagem longa e cansativa.

Em uma mansão de um condomínio fechado, o grupo limpa a área e permanece ali por algum tempo. A única coisa melhor do que chegar ao refúgio em Atlanta é encontrar um abrigo confortável onde a segurança da rotina quase os faça se sentir em um lar. O problema é que os mortos se aproximam, e o mínimo som os atrai aos montes. Nada é fácil como parece. Sobreviver em um mundo infestado por zumbis, adote o espírito nômade e caia na estrada. As chances de continuar vivo aumentam.

Mortos-vivos gemem e rosnam a maior parte do tempo, pelo menos enquanto perseguem a próxima refeição. Quando estão sozinhos, entregues à mente vazia e corrompida, são silenciosos como verdadeiros... Mortos. Você pode estar atento como um gavião, mas se estiver no lugar errado na hora errada, percebê-lo se aproximando não será fácil. E a mordida no rabo virá. Ela vem nas primeiras páginas, e nem dá tempo de se identificar com o infeliz que leva a bendita mordida. Azar o dele. Mais atenção aos restantes.

Uma perda e a chegada da horda é o que basta para o grupo decidir (é Phillip quem decide tudo, na verdade) ir embora de uma vez para Atlanta. As cenas de fugas são tensas e bem descritas. Fazem o leitor sentir a aproximação do hálito fedorento dos zumbis no cangote. Amassei várias páginas, tenso.

Os zumbis são como devem ser. Lentos e assustadores. Vê-los se movimentando na tela da TV é divertido, mas ler como é o cheiro deles é mais profundo. Você chega ao ponto de sentir e contorcer o rosto em uma careta. Um conselho: se entregue à leitura e a experiência será sensacional.

Nesse início, Phillip já é um cara durão como o conhecemos em TWD. É o líder que vai te manter vivo, custe o que custar. Se você estiver em um carro cercado pelos fedorentos, não se preocupe. Apenas tranque bem a porta e espere Phillip destruí-los. Todos. Sozinho. Mas nem tudo são flores. Ele vai te ajudar, sim, desde que sua burrice e medo não o atrapalhem. Caso isso aconteça, se prepare para levar uma bela surra ou, na melhor das hipóteses, ser agredido verbalmente com tanta violência que será o mesmo que um murro na boca.

Após a primeira fuga, o leitor antigo de TWD se delicia ao ler uma placa, referência direta aos quadrinhos. Uma das poucas, senão a única, mas que é o bastante para que fiquemos esperando mais e mais. E elas não vêm. Não como esperamos, talvez um encontro ou quase encontro com o grupo de Rick, ou a solitária Michonne, ou Tyreese e seus protegidos. Seria bacana, claro, mas não faria sentido. Aposto que Bonansinga se sentiu tentado a escrever um encontro assim, mas felizmente ele resistiu. Tudo pelo bem da coerência.

A chegada à Atlanta é exatamente o que esperamos, pois até o mais imbecil sabe que o refúgio seguro não existe mais. Isso nem pode ser considerado um spoiler, pelo amor de Deus! Para mim, esse refúgio não durou mais do que uma semana. Três dias, chutando alto.

A recepção é calorosa, como a fome de milhares de bocas de dentes podres e enegrecidos. Se a Terra virou o inferno, Waynesboro era apenas o hall de entrada. Atlanta é a sala de jantar da terra do capeta. Os mortos estão por toda parte. Saem das lojas, casas, terrenos vazios, igrejas, esquinas. Se coubessem em torneiras, sairiam delas também. Phillip é o primeiro é aceitar que não há salvação, e decide botar pra quebrar. Para começar, protagoniza uma das cenas mais carregada de adrenalina do livro. O carro desliza pelas ruas despedaçando zumbis por toda parte. Bonansinga faz questão de dar certas explicações, como localizações, manuseio de armas ou, no caso, capacidade de um veículo, tornando uma cena que poderia parecer fantasiosa demais, real. Se o carro pode fazer aquilo, que o faça. Pé na tábua, Phillip!


Parte Dois – Atlanta
Não enfrentes monstros sob pena de te tornares um deles, e se contemplas o abismo, a ti o abismo também contempla. – Nietzsche


Em Atlanta, conhecemos a família Chalmers, composta pelo pai David, um velho com uma séria doença respiratória, e suas filhas April e Tara. São caipiras fortes que chegaram a Atlanta pelo mesmo motivo que o grupo de Phillip. Em mais uma tentativa de levar uma vida normal, o prédio é limpo de cima a baixo e se torna um ambiente seguro, apesar da falta de comida e higiene. Nada que rápidas e arriscadas saídas pela vizinhança em busca de mantimentos não resolvam. Os encarregados, claro, são Phillip e seu amigo de longa data. Em alguns momentos, até mesmo April se arrisca, mostrando a grande mulher que é (e atraindo a atenção de Phillip). Brian prefere ficar no apartamento como protetor de Penny, que abandona aos poucos o casulo de medo diante da imagem materna e amiga que April passa. Quando você pensa que Brian vai evoluir, tomar atitude de homem, ele te decepciona. Um verdadeiro maricas.

A paixão que Phillip começa a nutrir por April é algo que ninguém espera ver. Ora, Phillip Blake não nasceu O Governador. Ele foi corajoso desde criança, um fanfarrão na adolescência, se apaixonou, casou e teve uma filha, a quem ama com todas as forças. Até onde se sabe, Phillip amava sua falecida esposa. Apesar da aparência rude, pode ser considerado um homem normal. Violento, mas normal. Até eu já quebrei uma porta de vidro no soco em um momento de raiva.

Mas vê-lo tremendo diante de uma mulher, tentando agradá-la, sentindo o coração bater rápido, não combina com seu encontro com Michonne. Para quem leu os quadrinhos sabe do que estou falando. Não teve direito nem a uma cuspida. Cheguei a torcer para April também sentir o mesmo por ele, embora soubesse como a estória terminaria, mas como a esperança é a última que morre...

Em um momento de fraqueza, Phillip comete um erro. Não é um mero deslize, nem a pior das barbaridades, mas o bastante para levar os dias felizes ao fim. O resultado de sua ação o destrói por dentro, e mais uma vez o grupo é obrigado a cair na estrada.

Essa foi a melhor parte do livro. Pudemos conhecê-los a fundo e respirar da correria da anterior. Brian mata seu primeiro zumbi (acidentalmente), Phillip mostra que até ele pode ser um amigo para todas as horas, April é a personagem feminina forte que gostamos de ver em estórias assim, e o amigo sobrevivente não é um peso morto, tem seu valor, suas utilidades. Até mesmo a presença de David Chalmers, o velhote desconfiado, é divertida, uma versão mais velha de Phillip. Tara sim é o peso morto. A situação já está fodida, aí vem uma gorda fedendo a cigarro e reclamando de tudo. Joguem essa pulha aos zumbis! Ah, e a reação dela diante do último e derradeiro acontecimento no edifício é puro despeito. Ela bem que queria ter sido a vítima.

Outra fuga é o desfecho da segunda parte, e consegue ser tão boa quanto a primeira. O ritmo não cai em momento algum. Se eu pudesse, teria lido tudo de uma vez. Não há manobras radicais desnecessárias, não há munição infinita, não há resoluções fáceis. Há o que há, e é bom ser rápido para sobreviver. Acelere a Harley Davidson e tome cuidado com o zumbi agarrado ao para-lama traseiro. As pernas já se foram, gelatinas no asfalto, mas a boca ainda está intacta. E próxima.


Parte Três – A Teoria do Caos
Nenhum homem escolhe o mal por ser o mal, mas apenas por confundi-lo com a felicidade, que é o que ele busca. – Mary Wollstonecraft


O próximo refúgio é um casarão em uma colina. Por páginas, fiquei imaginando se seria algum cenário já visitado na série original, talvez a fazenda de Hershel. Conclui que não. Sabia que, dali em diante, a próxima parada seria em Woodbury, o reino do tirano. Sabia também que O Governador mantém “algo” em seus aposentos. Algo sem dentes, sem unhas, apenas um corpo morto, mas vivo, buracos e uma língua. Mais uma vez, quem leu os quadrinhos sabe do que estou falando, e também se perguntará se aquela coisa é a mesma que pensamos no livro. Phillip chegaria a tanto?

A vida mais uma vez parece boa. Estável. Há pêssegos no pomar e calor aconchegante no casarão, um forte aliado contra o inverno que se aproxima (a mesma época em que Tyreese se une ao grupo de Rick). Phillip esconde seu erro, o que os obrigou a abandonar Atlanta e toda a boa vida que teriam pela frente junto às irmãs Chalmers. Diante do irmão Brian, que não o julga por nada, apenas o segue sabendo que enquanto Phillip resistir ele também terá uma chance, o amargurado homem confessa o que fez. É um momento de fraqueza, ainda que diante de um irmão. Embora ele esteja mudando, endurecendo por dentro, ver Phillip chorar e admitir estar errado não é uma atitude d’O Governador.

O que mais há em estórias de zumbis são momentos de calmaria seguidos de tormenta. Raramente se vê sobreviventes felizes por muito tempo em um mesmo lugar. Algo sempre acontece. Aqui não é diferente. Brian, embora seja medroso, é esperto e atento. Phillip pode ser corajoso, mas confia demais nos próprios punhos. Nunca daria ouvidos ao irmão que, embora mais velho, sempre fora um chorão covarde. É seu maior erro.

As suspeitas de Brian se concretizam e a casa é cercada por humanos que se mostram mais perigosos do que os zumbis. Afinal, eles sabem o que estão fazendo, e ainda assim o fazem. Nem mesmo uma menininha toca o coração de estúpidos ignorantes que perderam a humanidade em um mundo tomado por sangue e morte. Phillip salva a pátria mais uma vez, mas como estamos no final e precisamos de uma reviravolta, é a hora certa. Finalmente acontece o que sabíamos que aconteceria (pela terceira vez, se você leu os quadrinhos... Ah, esquece!). É triste, mas tão rápido que nem temos tempo de sentir. E rápido é Phillip em sua revanche, para retomar a casa. Pobres coitados! Não fazem ideia de com quem se meteram. O mais sortudo morrerá no tiroteio, acredite.

Os traços mais marcantes d’O Governador começam a surgir. É o treinamento para o primeiro contato com Rick e Michonne. Crueldade digna de um torturador de O Albergue. Frieza comparada a um Hannibal Lecter. O Governador não ganhou o prêmio de Melhor Vilão em 2007 pela Wizard à toa. O sadismo é fruto do medo, uma confusão no significado de felicidade. Brian e seu amigo tentam trazer o velho Phillip à tona, talvez perdido em um lugar bem fundo dentro de si, mas ele não vem. O velho Phillip não existe mais, e nunca mais existirá. Falta pouco para o final, e se isso é a origem d’O Governador, falta pouco para ele mostrar quem é.

O clima no grupo fica mais tenso e insuportável. Outra viagem, a última, leva os irmãos Blake, Penny e o amigo, ao destino final, o local onde tudo termina e, ao mesmo tempo, começa. Woodbury.

Os sobreviventes que encontram são pessoas despreparadas, cuidando da própria sobrevivência em uma terra de ninguém. Uma terra necessitada de um governador. Aqui as coisas são mais calmas, sem tantos zumbis, mas nem por isso seguras. Vimos na última parada que humanos são verdadeiros filhos-da-puta, e estão por toda parte, inclusive em Woodbury. Brian percebe que não conseguirá sobreviver se não virar homem. Phillip não o protegerá para sempre. Aliás, a surra que Brian leva na fazenda é tão violenta que por pouco não o mata. Vemos que Brian pode ser tão forte quanto quiser ser. Os primeiros traços da evolução.

Após tantas mortes e perdas irreparáveis, não há mente que continue sã. Por melhor samaritano que você seja, não espere ser o mocinho em uma terra onde os mais fortes sobrevivem. Quer continuar vivo? Vire homem. Vire macho. Se preciso, se torne o vilão.

Não vou falar mais, pois daqui pra frente spoilers são inevitáveis. O melhor com certeza é o final. Você que leu os quadrinhos (prometo que é a última vez) sabe o que esperar. Provavelmente acha que sabe quem morre e quem sobrevive. Te digo: sou super fã de TWD e pensei que sabia tudo. Ledo engano. O final é simplesmente destruidor. Por um momento, fiquei de boca aberta diante da ascensão d’O Governador. Não era o que eu esperava. Não é o que ninguém vai imaginar. Mas vai ser bom, prometo. Nunca pensei que diria isso, mas me identifiquei com O Governador. Acontecerá o mesmo com você.

Depois de conhecer a trajetória dos Blake em uma terra onde os mortos dominam, O Governador nunca mais será visto com os mesmos olhos.


3 mordidas:

R-evilBR disse...

visitem meu blog ae e sigam se puderem

obrigado!

http://r-evilbr.blogspot.com.br/

5 de abril de 2012 19:57
B. A. disse...

Estou terminando de ler o livro! *----*

Parabéns pelo blog :)

6 de julho de 2012 14:59
Anônimo disse...

Goostei demas , fiquei surpreso com o final , mais ta aai fooi ottimo e parabens ;))

7 de janeiro de 2013 05:50

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