[REC] 3: Genesis – Está mais para Zumbilândia...

Os zumbis demoníacos de [REC] estão de volta em [REC] 3: Genesis. Diferente da construção claustrofóbica e carregada de tensão das primeiras duas partes, a ação é direcionada ao casamento de Koldo (Diego Martin) e sua alma gêmea Clara (Leticia Dolera).


Entre os convidados está um velho tio bêbado com um curativo em uma das mãos, que diz ter sido mordido por um cão raivoso, e óbvio que esse mesmo tio é o ponto de partida do ataque zumbi em plena comemoração, sucumbindo à infecção e começando com uma breve vomitada em uma gorda qualquer para, em seguida, dar uma bela mordida no pescoço de sua esposa. A infecção se espalha em tempo recorde, a linda vila alugada se transforma em um campo de guerra, e os destemidos sobreviventes fazem seu melhor para chegar vivos ao dia seguinte. O diretor Paco Plaza, dessa vez sem o apoio co-diretor Jaume Balaquero, traz nessa terceira parte algo completamente distinto do início da franquia. O problema é que as escolhas aqui dividirão fãs, e arrisco dizer que a maior parte vai para o lado dos que não gostaram.



O [REC] original pode não ter sido um dos primeiros found footage, mas com certeza foi um dos melhores e de maior sucesso. A progressão do eventos quase em tempo-real, ausência de música, o drama dosado em ótimas atuações e o gore crível, tudo levou o espectador à imersão total na experiência assustadora do que seria um ótimo exemplo do cenário zumbi real – sem mencionar os momentos finais, alguns dos mais arrepiantes do horror moderno. Em seguida veio [REC] 2, partindo exatamente de onde o primeiro havia terminado, dessa vez quebrando as regras ao expandir sua própria mitologia zumbi, introduzindo o elemento de possessão demoníaca. À primeira vista, logo percebi a sacada da dupla Balaguero e Plaza: eles tentaram (e conseguiram!) canalizar a intensidade dos festivais de gore e sangue italianos, como Demons, enquanto mantinham uma narrativa compreensível e nada vacilante em um tom mais sério. A despeito das críticas, funcionou, e devia ter continuado em sua sequência. Pois é, devia... Fica claro em [REC] 3: Genesis que todos os envolvidos tentaram distanciar-se da artimanha do found footage, o qual basicamente definiu seus antecessores.



O truque da câmera trêmula que abre o filme se mostra apenas um detalhe de prólogo, o qual Plaza muda radicalmente para a tradicional filmagem em terceira pessoa, com a intrusa trilha sonora, iluminação impecável, efeitos polidos e até mesmo um reflexo da Medeiros produzido em computação gráfica. A transição em si não é o que mais incomoda, e é até bem-vinda de início. Entretanto, leva apenas alguns minutos para perceber que Plaza mudou mais do que o estilo de filmagem; cena após cena o clima se distancia a passos largos do que eram os outros [REC].



O começo é lento e arrastado, fazendo os 20 minutos iniciais parecem uma eternidade. Com pouco menos de 1h15 de duração, temos, então, menos de uma hora do que realmente esperamos desse tipo de filme. A escolha dos protagonistas foi acertada – diga-se pelos olhos expressivos de Leticia, ou pela atuação de Diego -, mas não é o suficiente para carregar um nome como [REC]. A ação é um ping-pong entre os protagonistas Koldo e Clara – agora separados e procurando um pelo outro – focando no que eles fazem para se reencontrar. Koldo se equipa com uma armadura medieval com direito a espada e tudo, enquanto Clara se transforma em uma super-heroína de motosserra em punho. Suportada por personagens que parecem não temer a situação em que se encontram, como se zumbis possuídos fossem parte do cotidiano, e nunca levando a ameaça a sério, a trama se estende em momentos “Boo!” e gore. Muito gore! Em outras palavras, Plaza escolheu reinventar a série injetando os exatos mesmos clichês que os dois primeiros evitaram a todo custo. O resultado é uma obsoleta fusão entre Evil Dead 2 e os filmes de Resident Evil (sem Lickers ou Nemesis). Preciso dizer que não funcionou?



Aliás, o gore é um dos pontos positivos. A equipe de maquiagem não poupou esforços ou materiais, e o sangue inunda as cenas. Fisicamente, os possuídos estão bem caracterizados, porém com a mudança no estilo de filmagem estão menos próximos da realidade em que os anteriores estavam. Parecem aqueles mesmos zumbis que vemos em diversos filmes do gênero, e não os possuídos dos [REC]. Apesar de haver uma chacina “infanticídica” aqui, não vemos aquelas crianças zumbis andando pelo teto como aranhas. O mais próximo são os infectados traceurs, com movimentos dignos de qualquer pupilo de David Belle. Se você acha que os zumbis de Madrugada dos Mortos eram rápidos, os de [REC] 3: Genesis são recordistas das olimpíadas. Não todos, mas os primeiros que aparecem, sim. Depois, claro, e sem explicação, os outros que surgem podem ser lentos como uma porta emperrada ou velozes como o Pápa-Leguas, dependendo do que está no roteiro. Se é Clara quem está sendo perseguida, eles não se incomodam em desacelerar e dar um tempo extra para que ela chegue ao fim do filme sã e salva. Se o casal principal estiver fazendo as últimas juras de amor, eles vão praticamente parar e assistir emocionados, só faltando jogar arroz. Agora, se for um figurante, bau bau. Talvez a carne deles seja mais gostosa, vai saber!



Um detalhe que me decepcionou foi a zumbi gorda. Desde que surgiram as primeiras imagens de [REC] 3, a zumbi gorda (com o cílio postiço caído, que está ali em cima no banner do Boca) era o tipo de zumbi com chances de se tornar icônico, como o zumbi do cemitério de A Noite dos Mortos Vivos, ou a outra zumbi gorda de Madrugada dos Mortos (remake). Estava ansioso pelo filme, e mais ainda para vê-la em ação. A cena da fofa é tão sem graça e ela é descartada tão facilmente (após um momento Boo!) que chega a brochar. Pelo menos, ela sofreu antes de morrer, gorda maldita e sem graça!

Pensando pelo lado “fã de zumbis”, não é o pior do gênero, mas é de longe (muuuuito longe!) o de menor qualidade da franquia. [REC] 3 está mais para uma comédia pastelão do que para seus carregados antecessores. O clima tenso e sério dos dois primeiros não dão um simples "oi" aqui. Plaza parece inspirado demais em Zumbilândia e Fido, e em seguida pela sua própria linguagem. É uma mistureba sem tamanho! Ele infunde o filme com múltiplas cenas e diálogos cômicos, o que falha em dois pontos. Poucos são realmente engraçados a ponto de você rir até morrer, e quando você está perto de sentir a tensão da cena crescer, o clima é aliviado a níveis não recomendados para filmes de terror. Cenas que deveriam construir o horror são desviadas por uma piada visual ou uma troca estranha de diálogos. Como eu disse, não é dos piores para fãs de zumbis. Mas para os fãs da verdadeira (pelo menos inicialmente) essência de [REC]... Rezem para a merda ser desfeita no próximo. Se vier.



É péssimo ter que descer o pau em um filme como esse quando está óbvio que os envolvidos quiseram desafiar a si mesmos, mas é difícil fugir da sensação de que Balaguero era a cola que segurava os dois primeiros tão bem. Pessoalmente, eu não teria me importado se Plaza tivesse mantido o found footage intacto. Aposto que teria mais chances de dar certo. Em vez disso, temos uma nova versão de horror/comédia um pouco (ou seria muito?) fora da realidade. É até um ótimo passatempo para uma noite qualquer, uma diversão passageira, mas pequena demais para permanecer na cabeça como os anteriores conseguiram. O fato de eu citar tanto os dois primeiros não significa que estou preso a eles, que não abri minha cabeça antes de assistir o terceiro. O problema é que não é o que se espera de um [REC].

Para não ser taxado como crítico chato, e deixando os anteriores de lado, como se Genesis fosse um filme à parte, sem vínculos, o filme é um divertimento válido. O pacote traz personagens peculiares, como o animador infantil "John" Esponja (direitos autorais), o gordo da Filmax (encarregado de filmar o casamento e que pensei que seria quem carregaria a câmera trêmula por todo o filme), o tio bêbado com cara de pingaiada mesmo após ser possuído, o cara dos Royalties... O trabalho de câmera e fotografia são excelentes, a trilha sonora é divertida e há diversas “homenagens” a nomes como Peter Jackson, Sam Raimi e George Romero. Talvez por ser o suposto dia mais feliz de sua vida, uma noiva pode se transformar em uma fucking badass com maquiagem borrada em posse de uma motosserra diante dos destruidores de sua felicidade. Leticia Dolera é linda, imagine então com o vestido de noiva rasgado, as pernas de fora com cinta-liga vermelha e pronta para serrar ao meio seus convidados possuídos. As gargalhadas são garantidas. Ora, se não há tensão, então dê risada. O que mais te resta?



Aparentemente, Balaguero irá dirigir sozinho a quarta e última parte, [REC] 4: Apocalypse, e eu me agarro à esperança de que a série termine com uma nota alta, ou que pelo menos volte às origens e ao clima sombrio. O que eu esperava após o término de [REC] 2? Um apocalipse zumbi, com Angela Vidal, agora master-possuída, conseguindo seu intento e espalhando o vírus/possessão a escalas globais. O mesmo que esperava após o fim de Demons, onde tive um sutil gostinho do que seria ver aqueles demônios soltos pelas ruas, e tendo que reviver a mesma história na sequência, dentro de um prédio.

Nesse meio tempo, prefiro fingir que Genesis é apenas um spinoff, uma paródia. Ou que não existe. Como uma sequência de [REC], este é um fracasso completo. Se fosse um filme autônomo, não relacionado à franquia, os problemas não seriam tão óbvios e prejudiciais. É veloz e tem um punhado de emoções pelo caminho, mas como parte de um universo já enraizado e definido, é pouco mais do que uma sangrenta decepção. O desfecho? Seria trágico se não fosse cômico.

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