Entrevista para o Portal Cranik

Fui convidado pelo escritor, ativista cultural e crítico Ademir Pascale a ceder uma entrevista ao Portal Cranik, originalmente postada no http://www.cranik.com/entrevista227.html

Confira.


Tiago Toy - Foto Divulgação


ENTREVISTA

Ademir Pascale
: Como foi o início de Tiago Toy para o meio literário?

Tiago Toy: Repentino. Inesperado. Desde que era um magricela com cara de bobo (na verdade, desde antes disso) gostava de me expressar de alguma forma que não fosse falando. A timidez não deixava. Passei grande parte de minha infância e adolescência dedicado a desenhar. Na escola, deixava professoras babando com minhas redações, sempre puxadas para um lado mais obscuro, mas nunca pensei em ser escritor. Não que achasse ser difícil, ou não confiasse em minha capacidade, mas nunca pensei mesmo nisso. Quando adolescente, comecei a escrever roteiros para filmes que queria produzir um dia (não esperem vê-los de verdade), e meu gosto por escrever aumentou. Então, em 2008, decidi começar minha história de zumbis, um gênero que sempre me cativou. Não esperava a repercussão que tive e os comentários acenderam uma chama dentro de mim, algo que soava como “Acho que pode dar certo”. Recebi um convite de uma editora interessada em me publicar, mas queriam cobrar por isso. Se no momento do convite eu pensei “Poxa, que legal! Me acham bom para ser publicado”, no momento em que descobri que precisaria pagar foi algo meio “Que sacanas! Só querem dinheiro”. Continuei escrevendo e publicando no blog, o público aumentou – divulguei muito no Orkut, bons tempos – e então veio outro convite. Uma editora de São Paulo (eu ainda morava no interior) queria comprar os direitos sobre Terra Morta. Se eu aceitasse, eles seriam donos da história, poderiam e iriam modificar como bem entendessem... Nem o valor oferecido, bem generoso até, me interessou. Meu carinho por minha história era maior. Depois que me mudei para São Paulo recebi o convite da Draco. A proposta era boa e me senti seguro ao aceitar. A ficha demorou a cair. Lançar o primeiro livro é algo muito bom. Uma realização. Por outro lado, não é um mar de rosas. Para alguém que não teve uma preparação para ser um escritor, que simplesmente foi pego pela mão e puxado para o meio literário, é um baque se familiarizar com revisões, cortes necessários, reformulações, limitações e todos os contras que permeiam a profissão. Aqui cabe um aviso a aspirantes: Não pense que seu livro será lançado como está nesse momento, do jeitinho que você quer. Isso não é uma certeza, e por mais que o ache perfeito, alguém vai dizer que não é e que há coisas a mudar, tirar, refazer. Não quero te desanimar, mas é a verdade. Se você não tem preparo nenhum como escritor, é pior. Mas, no fim das contas, quando você for comentário nas redes sociais, estiver em alguma lista de melhores ou mesmo descobrindo novas resenhas de seus trabalhos, valerá a pena.


Ademir Pascale: "Terra Morta", seu romance de estreia, foi publicado pela Editora Draco. Por favor, conte para os nossos leitores como tudo começou.

Tiago Toy: Sem modéstia, fui o principal causador pelo interesse da Draco. Os leitores foram muito importantes para me dar credibilidade como autor, mas eles ficaram sabendo de Terra Morta porque eu passei noites em claro divulgando o blog em centenas de comunidades no Orkut, sugerindo parcerias, indo de perfil em perfil convidando as pessoas a lerem minha história. Foi cansativo, mas gratificante. Hoje continuo nessa divulgação, mas os meios mudaram. Tive que me esforçar e manter perseverante diante de cinco ou seis novos leitores após cada divulgação para mil pessoas. Até hoje não sei como foi exatamente que a Draco me descobriu, mas com certeza foi graças a essa divulgação massiva. A quantidade de leitores foi o que manteve o interesse. A qualidade da história definiu o fechamento do contrato.

Ademir Pascale: Entre os vários seres fantásticos, por que a escolha pelos zumbis?

Tiago Toy: Não banco o intelectual dizendo que fiz rígidas pesquisas sobre a história dos zumbis no cinema antigo, em livros, nem nada do tipo. Como grande parte de meus leitores, sou também um fã de boas histórias de zumbis (até algumas ruins acabam se tornando boas de tão ruins), e não um pesquisador de necrofilia. Gosto muito dos clássicos de Romero e sou apaixonado por Madrugada dos Mortos, de Zack Snyder, mas não sou alienado. Meu gosto vai muito além dos mortos-vivos.
Apesar de ter assistido alguns filmes de zumbis quando criança, meu monstro favorito era o vampiro. Até queria ser um (tenho certeza que vários de vocês também). Mas foi com a trilogia Pânico que descobri o que realmente gostava: serial killers. Daí pra frente me dediquei a assistir apenas filmes como Lenda Urbana, Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado, Ripper... Até mandei fazer a fantasia do Ghostface. Meu passatempo favorito era assustar pessoas que passavam na calçada de casa. Uma vez quase matei uma senhora do coração. Enfim...
Madrugada dos Mortos foi um sucesso enorme na época (2004). Assisti no cinema, aluguei várias vezes, comprei, e nessa brincadeira foram mais de 20 vezes. Nem preciso dizer que decorei as falas, né? O tempo passou, conheci outros filmes, e foi em 28 Days Later – Extermínio que tudo mudou. Era o que eu sempre havia imaginado em uma epidemia zumbi real. Nada de mortos levantando das covas e vagando por aí. Não, isso é muita viagem. Por outro lado, uma infecção desconhecida, algo como uma raiva humana, que deixa as pessoas agressivas e sem noção de certo e errado, isso sim era possível. Bastava a infecção ser contagiosa. Era? Putz, então estava tudo certo.
Em meados de 2008 eu estava namorando e, por conta de imaturidade (de ambos os lados), não deu certo. Fiquei bastante abalado e encontrei na escrita um refúgio onde pudesse esquecer. E não é que funcionou? Passei a me imaginar em minha cidade dominada por canibais infectados. Sim, pode-se dizer que era um diário fictício. Não houve um motivo exato para que eu tenha escolhido que o personagem seria meu alter ego. Como eu disse, nunca tive a pretensão de que Terra Morta se tornasse um livro, era apenas um hobby. Se eu podia imaginar, então me imaginaria; afinal, saberia exatamente o que o personagem faria nas situações que viriam. Isso o tornaria mais crível. Aliás, Tiago é um dos personagens mais elogiados. Sua construção sólida, seus traços de humanidade, nem somente bom nem somente mau. É exatamente o que todos somos.


Ademir Pascale: Poderia destacar um trecho de "Terra Morta" especialmente para os nossos leitores?

Tiago Toy“Não me lembro de que dia é hoje.
Nas últimas semanas sobreviver se tornou mais usual do que olhar calendários. Os dias ficaram mais longos e cansativos enquanto espero uma salvação, ou pelo menos o fim. Mas, pensando bem, o fim sempre chega. Cedo ou tarde.
Não acredito que essa história seja contada novamente algum dia, visto que encontrar pessoas se
tornou um acontecimento raro. Acho difícil alguém durar do jeito que as coisas estão. E quando digo pessoas, me refiro às de verdade, que respiram e conversam, e não a esses malditos canibais que espreitam a cada esquina, em cada construção abandonada, repleta de moscas atraídas pelo mau cheiro que tomou conta do ar. Esse cheiro de morte.
Me pego pensando se um dia tudo voltará a ser como antes. Se os carros transitarão pelas ruas, poluindo a atmosfera, em cidades habitadas por pessoas egoístas e preocupadas unicamente
com suas vidas, enquanto acumulam dinheiro e desilusões. Se as emissoras voltarão ao ar para
noticiar desastres. Se... É, acho que o mundo não mudou tanto assim. Os poucos sobreviventes
que encontrei ainda são egoístas e pensam unicamente em seus rabos. Agem como animais irracionais, tanto os vivos quanto os “mortos” andantes. Aliás, preciso parar de escrever, pois há
três deles do lado de fora desse freezer onde estou. Procuram por comida – nesse caso, eu. Tenho
que sair daqui sem fazer barulho. Se me encontrarem, estou ferrado. E, obviamente, quero impedir isso o máximo que eu puder. No fundo, acho que minhas esperanças nunca morrerão.
Vou desligar a lanterna agora.”



Ademir Pascale: Se você fosse escolher uma trilha sonora para "Terra Morta", qual seria?

Tiago Toy: As primeiras versões do blog traziam um capítulo por página e, abaixo do título, um player com o respectivo “tema”. Não sei o que esperam de gostos musicais de um escritor, mas o meu é peculiar. Afinal, podem rir ou caçoar (e não sei por que o fariam), mas sou fã de Britney Spears e foda-se a opinião alheia. Calma! Não há nada nela que lembre Terra Morta. Britney é eficiente em elevar meu humor em dias tediosos ou tristes.
Eu gosto muito de ouvir trilhas sonoras de filmes. Algumas das minhas preferidas são 28 Days Later e The Hills Have Eyes (e The Rocky Horror Picture Show, mas não vem ao caso). Vários leitores davam sugestões de músicas que combinavam com os capítulos, em sua maioria rock pesado. Desculpem, mas não acho que rock pauleira combina com zumbis (caso o termo pauleira ofenda quem curte rock, me desculpem, não foi minha intenção). Pelo menos não com os meus. Em Resident Evil (versão dos filmes) cai como uma luva. Histórias puxadas para o trash também, com toda aquela meleca verde. Terra Morta pede algo erudita, mais calmo, algo como The Road, The Book of Eli. Notas que te façam sentir a imensidão de um mundo tomado pela morte, que te deixem triste, que caminhem lado a lado com as duras decisões tomadas para que se consiga viver mais um dia. Não há rock em Terra Morta. Ponto.
Ótimos sons que formariam a trilha de Terra Morta (em sua maioria instrumentais) seriam Butterfly Caught (Massive Attack), Apparat, Tomandandy, Jeff Danna e Burial.


Ademir Pascale: Como os interessados deverão proceder para adquirir um exemplar de "Terra Morta"?

Tiago ToyTerra Morta: Fuga está disponível em diversas livrarias, como Saraiva, Cultura, FNAC, Martins Fontes. Aconselho comprar pelos sites das livrarias, é mais cômodo e não se corre o risco de chegar lá e descobrir que o livro está esgotado. Há também a versão digital à venda na Amazon (onde estava em 1º lugar na lista de Mais Vendidos, e continua na lista), Apple Store e Gato Sabido. Ambas as versões podem ser adquiridas também pelo site da editora Draco (editoradraco.com/2011/10/08/terra-morta-fuga-2) com frete grátis. Ou pra quem preferir autografado, pode comprar direto comigo pelo email tiago.toy@hotmail.com por depósito ou transferência bancária.


Ademir Pascale: Fale mais sobre o seu blog terra-morta.blogspot.com.br

Tiago Toy: O blog recebeu recentemente um upgrade no design. Ao assinar o contrato não pude disponibilizar novos capítulos online, e pensei “E agora? Como manter o interesse da galera?”. Na verdade, pensei nisso por bastante tempo. O blog acumulou teias por um tempo, até que decidi começar a disponibilizar outros tipos de conteúdo. Publiquei algumas resenhas de livros, análises de filmes, alguns artigos voltados ao gênero, dei espaço a um antigo leitor para publicar o RPG de Terra Morta, que ele mestrava no Orkut, em formato novelizado. O detalhe é que quem acessa o blog de Terra Morta busca por Terra Morta. Então comecei a criar conteúdo exclusivo, tudo relacionado a Terra Morta e meu trabalho como autor.


Ademir Pascale: Existem novos projetos em pauta?

Tiago Toy: Estou escrevendo contos exclusivos para a Amazon, e consegui levar alguns ao 1º lugar de mais vendidos de horror. Estudo Game Design, e estou com dois projetos de jogos, mas nada para ser divulgado ainda. A Draco e eu estamos selecionando contos para Terra Morta – Relatos de Sobreviventes (título provisório), escritos por leitores e autores, alguns convidados. Há também a HQ de Terra Morta, ainda em fase inicial, a revisão da sequência, com previsão de lançamento para o segundo semestre de 2013... Cara, eu vivo cheio de projetos!


Perguntas Rápidas:

Um livro: Você tá brincando? Só um? Impossível. Todos do Dan Brown, O Baronato de Shoah, A Menina Que Roubava Livros, Celular, Os Hemofílicos (esse ainda não foi lançado, mas tive acesso privilegiado) e a Passagem. E muitos outros.
Um(a) autor(a): Fico entre Dan Brown e Stephen King.
Um ator ou atriz: Angelina Jolie, sempre.
Um filme: A Noite dos Demônios 2.
Um dia especial: Hoje.


Ademir Pascale: Deseja encerrar com mais algum comentário?

Tiago Toy: A versão do blog foi revisada antes de se tornar livro. Para o livro, criei personagens e capítulos novos, mas ainda assim é bacana visitar o blog e ler os 23 capítulos disponíveis. Desse modo, conheçam Terra Morta, comprem, divulguem entre seus amigos, curtam a página no Facebook (www.facebook.com/terramortaoficial) e sejam bem-vindos à resistência.


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Terra Morta - Tiago Toy

 
© Cranik

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