A palestra de Neil Gaiman na Digital Minds Conference

Fonte: http://pensarenlouquece.com/palestra-neil-gaiman-digital-minds-conference/

Ano passado, Gaiman já havia feito um discurso simplesmente magnífico aos formandos de uma turma na University of the Arts da Filadélfia, conhecido com o nome de “Make Good Art”(e que já virou livro). Pelo visto, o criador de Sandman está se especializando em dar ótimas palestras também. E assim, graças ao trabalho de Cíntia Citton, que transcreveu e traduziu a fala de 30 minutos de Neil na Digital Minds Conference da London Book Fair, publico a seguir o relato de Gaiman sobre o futuro dos livros impressos, suas experiências com internet e suas reflexões sobre os rumos da indústria cultural.
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Em 1976 eu era um roqueiro punk e tinha uma banda, porque é isso que se costumava fazer. Fomos convencidos pelo homem que nos vendeu os instrumentos de que seria uma boa nos sindicalizarmos. E tudo que lembro sobre pertencer ao sindicato dos músicos é que eles nos davam adesivos amarelos, para serem colados nos instrumentos, com esta frase: “Gravações caseiras estão matando a música.” O que esses adesivos queriam dizer é que a possibilidade do público reproduzir em cassetes a mesma música que estava sendo vendida na forma de vinis tiraria os músicos do negócio e faria com que parassem de ganhar dinheiro. E, é claro, gravações caseiras realmente mataram a música. Ou algum tipo de música. E foi uma morte incrivelmente demorada e saudável.
Pessoas que usavam gravações caseiras e fitas K7 para fazer mixtapes, espalhando música por aí, e que descobriram novas canções através dessas fitas, ficaram comoventemente surpresas ao descobrir que eram as responsáveis pela morte da música. Especialmente quando os CDs surgiram, obrigando a gente a sair e comprar de novo toda a música que já tínhamos antes, fazendo muita gente ficar rica. Muito, muito dinheiro estava sendo gerado. Mas tudo isso não passou de um grão de areia.
Mudando de assunto. Sou completamente fascinado por calendários. Há uma história sobre um homem que gastou uma quantidade absurda de dinheiro fazendo calendários velhos e depois não tinha onde colocá-los. Ele lotou sua própria casa com os calendários, pilhas e pilhas na cozinha. Sua mulher disse que ele era um idiota por gastar tanto com aquelas coisas que ninguém queria. Ele respondeu: “Isso é o que você acha, mas se o ano de 1993 algum dia voltar eu venderei tudo!”.
Antes de Douglas Adams morrer, lembro de um papo que tive com ele sobre e-books, muito antes deles começarem a ser conhecidos com esse nome. Mas Douglas havia previsto e descrito os e-books em O Guia do Mochileiro das Galáxias, e era óbvio que eles seriam criados algum dia. Perguntei se ele acreditava que e-books significariam o fim dos livros impressos.
Douglas respondeu: “Neil, lembre-se de que tubarões já existiam na época dos dinossauros. E que alguns até mesmo antecederam os dinossauros. Mas os tubarões ainda estão por aí, porque nunca, jamais surgiu algo tão bom em ser um tubarão quanto eles próprios. Por isso eles permanecem.” E continuou: “Livros são muito bons como livros. Funcionam até com energia solar, é genial! Eles não estragam se caem na banheira. Podem inchar, mas permanecem legíveis. E são incrivelmente portáteis!”. E, é claro, até certo ponto ele tinha razão.
Mas o mundo digital representou o fim de alguns dinossauros: enciclopédias. Eu lembro de ter visto vendedores de enciclopédias batendo na porta de casa. Apenas um, na verdade. Mas ele era, sim, um vendedor, e eu ainda tenho enciclopédias em casa. A clássica Enciclopédia Britânica, um conjunto de livros antigos comprados pelo meu pai nos anos 60. Eram pesados, enormes, ocupavam espaço, raramente eram consultados e já estavam desatualizados quando você os recebia. O Guia do Mochileiro das Galáxias, conforme previsto por Douglas, era uma enciclopédia que poderia ser atualizada em tempo real. E as enciclopédias desapareceram.
Livros podem ser tubarões, ao menos alguns, mas bibliotecas particulares definitivamente não. Quando eu estava escrevendo Deuses Americanos, tive que comprar um carro só pra poder transportar as obras que precisava para fazer pesquisas sobre a Flórida, que é onde estava escrevendo o livro. Bibliotecas particulares são pesadas e nem um pouco portáteis.
Ganhei um Kindle antes dos Kindles estarem disponíveis pra vendas, só para testá-lo. Dei uma olhada nele e pensei: “Você é feio, um pouco desengonçado e parece estúpido.” E então, alguns dias mais tarde, entrei num avião rumo à Hungria, onde iria passar duas semanas com minha filha de 12 anos, quando nos demos conta de que ela não tinha nada para ler, e de que em Budapeste dificilmente haveria algum livro que pudéssemos comprar para ela. Entre nos darmos conta disso, sentarmos no avião, as portas se fecharem e o voo decolar, fiz o download de uma dúzia de livros, suficientes para distraí-la por duas semanas. Ao ver como ela pegou o Kindle, me dei conta de que o conteúdo já estava sendo consumido de outras formas. A era digital estava definitivamente chegando.
Não estava completamente certo disso, porém. E ainda tinha dúvidas se esse era o caminho do futuro, até que notei que podia aumentar o tamanho das letras, tornando-as mais legíveis, e reduzindo o brilho da tela. Pensei: “Taí um aplicativo matador.” Porque normalmente a tecnologia é voltada para os jovens, mas no caso do Kindle ela é dirigida justamente para os luditas. Porque, conforme vamos envelhecendo, nossos olhos já não são os mesmos, e a ideia de um livro no qual você pode tornar a letra mais legível mudaria tudo.
A certeza veio quando estive em Manila, pouco depois do lançamento comercial do Kindle, e comecei a conversar com o pessoal de uma livraria que me disse que, se dependesse deles, parariam de vender livros impressos. Porque lá nas Filipinas todos compravam livros se baseando pelos preços, e os livros digitais seriam muito mais baratos. Percebi aí que o futuro seria mais estranho e diferente do que qualquer coisa que eu tivesse imaginado.
Em 1997, estive num jantar organizado pelo jornal Cleveland Plain Dealer. Estávamos eu e um dois autores da lista de best-sellers do New York Times. Naquela época eu não tinha escrito best-sellers ainda. Eu era o esquisito, o cara estranho que serviria de distração. Um deles foi autor de best-sellers, não muito famoso, mas os livros dele o tinham sido no passado. Já o outro era um dos grandes, um poderoso e importante autor de policiais, com lugar cativo no topo das listas.
Quando os autógrafos começaram, após o evento, na minha fila havia gente que parecia deslocada, que nunca tinha estado num jantar do Cleveland Plain Dealer na vida deles: crianças mal comportadas, geeks, colecionadores de quadrinhos. Mas eles estavam lá, e bem animados. Quanto aos outros autores, suas filas tinham belas e elegantes senhoras, daquelas que usam casaco e blusa combinando e colar de pérolas. Eram pessoas de aparência respeitável, e eu pensei: “Isso é tão interessante, eu nunca vou ter uma dessas senhoras que usam twin-set e pérolas na minha fila, elas não são o meu público.” Mas então aquele autor incrivelmente famoso olhou para um livro que foi entregue a ele por uma senhora muito distinta (usando twin-set e pérolas), e ele ficou de pé e disse: “Me recuso a autografá-lo, olhem para isso!”. Ele segurou o exemplar de modo que todos pudessem vê-lo, e disse: “Isto veio de uma biblioteca! Por que eu o autografaria? Não ganhei nada com isso.” E ele se sentou, recusou o autógrafo e chamou o próximo da fila, que segurava um livro novinho em folha nas mãos.
E então vi muitas das senhoras que estavam no fim daquela fila – senhoras distintas, trajando twin-sets e pérolas – indo até a livraria, comprando cópias de Stardust e passando para a minha fila. Porque eu autografo tudo. E autografo qualquer coisa com prazer, porque me dou conta de que gostam do que eu faço, de que gostam de mim. Se agora mesmo não podem pagar por um livro novo, talvez algum dia possam fazê-lo. Enquanto isso, eu lhes dou algo para amar, e espero que eles saiam por aí dizendo aos conhecidos deles que têm um livro que eles adoram e digam: “Dê uma olhada.” Não me importo que sejam cópias de Belas Maldiçõesque rodaram o mundo com eles, que em algum momento foram derrubados na sopa e permaneceram inteiros, graças a fita crepe e amor. Não ligo. O importante é que eles tenham os livros, que gostem deles e que falem disso aos seus amigos.
Quando as pessoas me perguntam, ao longo dos anos, sobre acabar com a pirataria, sobre impedir que elas leiam coisas e baixem coisas de graça, costumo pedir, nessas salas lotadas, para que as pessoas que tenham um autor favorito levantem a mão. Muitas mãos se erguem, e então eu pergunto: “Ok, quem descobriu seu escritor predileto…” – e vocês sabem, um autor favorito é o tipo de pessoa que quando escreve e lança algo novo você vai lá e compra, porque você precisa ter aquele livro ou qualquer outra coisa que ele faça – e as mãos permaneciam no alto – “… indo a uma livraria e comprando um livro?”. Algumas poucas mãos continuaram levantadas. “E quem encontrou esse autor por indicação de alguém, ou porque alguém lhe deu o livro, ou porque você simplesmente o achou em uma livraria, o abriu em alguma parte e gostou da capa?”. Na maior parte das vezes alguém simplesmente lhe entregou um livro e disse: “Dê uma olhada nisso, você vai gostar.” É aí que as mãos se levantam. Não encontramos as pessoas que amamos comprando-as. Primeiro nós as encontramos e só depois é que descobrimos que as amamos. Por isso decidi desde cedo que não iria entrar em uma guerra. Prefiro incentivar, apostar no boca a boca.
“Gravações caseiras estão matando a música. Gravações caseiras estão matando os livros.” Bem, agora a música é cada vez mais e mais fácil de ser copiada, basta fazer isso com um clique. E assim, pouco a pouco, o que passa a ser valioso na música é o que é considerado único, o que não pode ser reproduzido com um clique: ir a um concerto, comprar uma camiseta que só é vendida naquele show. Pessoas pagam o triplo por uma camiseta dessas. E você faz isso em um show porque é a prova de que você esteve ali, participando de uma experiência única.
A indústria editorial existe para criar um monte de coisas que são exatamente as mesmas. Copyright é como, o porquê e quem tem o direito de copiar. O desafio que estamos encarando agora é o da mudança. Na maior parte da história da humanidade, a questão que surgia com os livros era a de como obtê-los, eles eram objetos escassos. A informação era escassa, os objetos físicos eram escassos, tudo era escasso.
De novo, 1976. O Neil roqueiro punk, com aqueles adesivos amarelos: “Gravações caseiras estão matando a música.” O único meio que eu tinha de encontrar obras dos escritores que eu adorava era encarando longas horas em viagens de ônibus a lugares tão remotos quanto West Croydon, talvez tão longínquos quanto Stratton, onde era possível comprar livros cujos carimbos estampados em suas capas diziam que se você os trouxesse de volta poderia trocá-los pela metade do preço. Era difícil encontrar coisas na solidão das livrarias.
De repente, o mundo mudou. Agora a questão é: tudo está lá fora, como encontrar as coisas boas, como nos fazer ouvir num mundo de excesso de informações? Passamos dos problemas de escassez a problemas tão reais quanto, mas agora de abundância. O segredo agora é encontrar o sinal em meio ao ruído, é conseguir ser ouvido. Um mundo no qual qualquer um pode publicar qualquer coisa, de excesso de informações, é um mundo no qual já não confiamos em guardiões de portas tanto quanto no passado, acreditando mais em guias e recomendações que nos apontem o que é bom. Nós confiamos no boca a boca, e na sorte, e em nos transformarmos em dentes-de-leão.
Todos nós somos mamíferos – assim espero -, e nos esforçamos tremendamente para educar nossos filhos: 15, 16, 17, 18 anos – com educação superior, até uns 22 ou 23 anos -, e você ainda os está criando, depositando esforços e vida nisso. Dentes-de-leão não se importam, eles simplesmente têm milhares de sementes e as jogam ao vento. E, até certo ponto, conforme passa o tempo, estou apreciando muito essa coisa de ficar atirando coisas ao vento.
Há dois dias eu estava em Nova York, entediado em um almoço, e comecei fazer desenhos na toalha de papel da mesa. Quando acabei a refeição, estava levantando da mesa quando minha mulher olhou para baixo e perguntou: “Você vai fazer algo com isso?”. E eu respondi: “Não, vou deixá-lo aqui pra que joguem fora.” E ela disse: “A gente deveria fazer algo com isso, é um belo desenho.” Então ela o pegou, o dobrou, saiu, colocou o desenho debaixo de uma pedra próxima ao restaurante, tuitou uma foto dela mesma fazendo isso e informando a localização. E ela disse: “Retuite isso, algum de seus fãs vai encontrar esse desenho e ficará feliz.” E eu disse: “Ok!”.
Do Instagram de Amanda Palmer.
Então caminhamos uns setenta segundos até nosso hotel, subimos até o quarto e ela disse: “Ei, você já não precisa dar RT, alguém já o achou.” E eu disse: “Muito bem!”. Então ela disse: “Ah, as pessoas que encontraram o desenho trabalham na edição americana do The Guardian.” E eu pensei: “É, isso é legal.” Ela disse: “Fica ali do outro lado da rua.” E assim, no dia seguinte, assumi a conta do Twitter do @GuardianUS. Tinha ido lá só para dar um alô ao pessoal que encontrou o meu desenho e eles disseram: “Você quer tuitar em nosso perfil?” Respondi: “Claro!”.
E fiquei pensando: “Será que é cedo demais? Eu posso inventar notícias, eu estou com o @GuardianUS, eu tenho o poder! Devo postar que a Margareth Thatcher se levantou dentre os mortos? É cedo demais! Será cedo demais? É, acho que é cedo demais.” Tive uma experiência maravilhosa assumindo aquele perfil de Twitter. No fim do dia, um dos lugares que estão vendendo meu novo romance, The Ocean at the End of the Lane, postou no Twitter que houve um enorme aumento nas vendas de exemplares, algo que eles atribuíram ao fato de eu ter assumido a conta do Guardian. Pensei: “Taí um estranho, inesperado resultado.”
No dia seguinte, estávamos almoçando com Art Spiegelman, que fez Maus, e contamos a ele o que tinha acontecido. Ele disse: “Que ideia genial!”. E desenhou em um guardanapo inteiro. Era um guardanapo Art Spiegelman! Um guardanapo de cardápio. Um cardápio do Art Spiegelman, que fantástico! Coberto de desenhos! E, de novo, nós o escondemos, e Amanda tuitou, e as pessoas saíram em busca daquilo. Mas alguém o achou e o jogou fora. Algumas vezes isso funciona, outras não. Não tenho certeza de porque algumas coisas vingam, outras não. Divulgo no Twitter um novo projeto de crowdfunding, as pessoas olham, ficam absoluta e totalmente indiferentes, e aquilo fica ali parado sem que nada aconteça. Mas, ainda assim, eu abraço esse tipo de iniciativa. Nós temos que nos tornar dentes-de-leão.
Recentemente fui contatado pelo pessoal do Humble Bundle – um sistema de “pague o quanto quiser” por um pacote de conteúdos digitais -, e eles disseram: “Vamos subir alguns livros e disponibilizar alguns romances e graphic novels que adoramos, você tem alguma coisa pra gente?”. E eu olhei e vi que ainda tinha os direitos de um livro chamado Signal to Noise, publicado há alguns anos na The Face. Era antigo, os direitos digitais estavam totalmente livres e liberados, e eu disse: “Claro, vocês podem usá-lo”. Nós o disponibilizamos online e eu chamei mais algumas pessoas para essa iniciativa, como John Scalzi, que colocou Cory Doctorow no circuito. Um livro aqui, um outro acolá, e o Humble Bundle juntou todas as nossas obras. Resultado: arrecadação de cerca de 1 milhão de dólares, e quase tudo foi para a caridade. Eu e Dave McKean, o ilustrador de Signal to Noise, ficamos com cerca de 78 mil dólares, graças a uma obra que estava parada e que a gente mal lembrava que tinha feito. Isso foi incrivelmente educativo.
Quando eu conto essa história, as pessoas perguntam: “Isso quer dizer que vou ganhar uns 80 mil dólares se eu subir algo numa plataforma do tipo pague-quanto-quiser?”. E eu digo: “Não, quase certo que não. Sequer significa que da próxima vez que eu decidir fazer isso conseguirei esse tanto de dinheiro. Isso só quer dizer que aconteceu desta vez.” É como um dente-de-leão: as sementes partem, flutuam e somente algumas delas pousam em lugares nas quais podem crescer.
Mencionei anteriormente que adoro calendários. A Blackberry entrou em contato comigo recentemente, me perguntando se eu tinha alguma coisa que desejava fazer usando mídias sociais. Colocaram todos os recursos deles à minha disposição, e eu disse: “Posso testar seu novo aparelho antes?”. Fiz isso, gostei e propus: “Ok, vou fazer algo, quero experimentar algo que ainda não foi feito reunindo pessoas em mídias sociais.” E então tuitei doze posts com perguntas simples.
Não esperava o tipo de resultados que surgiram. Todas essas coisas tornaram-se trending hashtags. E senti, naquele primeiro momento, que coisas grandes e belas estavam acontecendo. Havia uma espécie de movimento artístico inédito acontecendo no Twitter, enquanto pessoas mandavam replies e eu retuitava suas respostas para o mundo. E então selecionei doze respostas, quase que aleatoriamente, entre as centenas de milhares que recebi, e eu as peguei e escrevi um conto para cada mês, durante três loucos dias. O quão rápido consigo escrever doze contos? A resposta foi: três dias, alguns deles terrivelmente longos. E, depois, eu os joguei de volta para o mundo.
Eles foram publicados em uma página, a BlackBerry Keep Moving, e eu disse: “Ok, agora façam arte. Vocês podem fazer qualquer tipo de arte que queiram: fotografar, pintar, desenhar, fazer teatro, vídeos.” Gravei áudios e disse: “Se vocês quiserem usar isso, como trilha sonora para os vídeos, vão em frente, façam arte.” E eu vi milhares e milhares de pessoas se envolvendo, e fiquei ali enquanto criavam, e dei uma olhada em mais de cinco mil peças únicas de arte, tentando selecionar algumas para serem apresentadas no site. E senti que o melhor de tudo isso tinha sido usar a internet, o Twitter, para fazer arte de uma forma literalmente inimaginável há uma década.
Comecei a trabalhar recentemente em um projeto intitulado Estas Páginas Caem como Cinzas, que será uma história contada por dois livros. Um deles será um belo livro artesanal de madeira, com informações dentro, no qual você poderá escrever coisas suas. O outro será um texto digital, escondido em hard drives espalhados pela cidade de Bristol, para ser lido em algum dispositivo móvel. A ideia é fazer dois livros juntos, criando uma experiência singular de leitura, que se tornará uma história sobre um momento em que duas cidades se sobrepõem, existindo no mesmo espaço e tempo, mas inconscientes uma da outra até agora, e as pessoas que encontrarem essas coisas em seus dispositivos móveis se tornarão parte dessa história. De novo: é aquela coisa de criar algo que seria literalmente inimaginável, porque não tínhamos as ferramentas ou a tecnologia para imaginar.
Me preocupa saber que muitos de nós, assim como o homem da minha historinha do calendário no início, estejam convictos ao pensar: “Ah, se a gente pudesse ter 1993 de volta para vender tudo.” Se prendermos nossas respirações e fecharmos nossos olhos, vigiando nossos portões com armas maiores e mais potentes, então o tempo voltaria para trás, e o ontem voltaria a acontecer, e todos nós conhecemos as regras do passado. Os passos para publicação eram simples: autores, agentes, livros, almoços incrivelmente demorados… Aquilo era o mercado editorial. Não mais.
Nos dias atuais, os portões vigiados estão em lugares onde há cada vez menos muros reais. Na música, os muros já caíram há tempos, junto com a venda de objetos físicos. As gravações caseiras não mataram a música. Ela está por aí, passando muito bem, sendo feita cada vez mais. O pulo do gato é descobrir como encontrar as coisas boas. Ou, para as pessoas que criam músicas, descobrir uma maneira de monetizar o que estão fazendo. As coisas mudam. Monges costumavam levar de 5 e 20 anos – de acordo com um link que me mandaram pelo Twitter quando eu perguntei – para produzir uma Bíblia completa. Uma porção de “horas-monge” e de scriptoriums integralmente utilizados. Aquele tipo de trabalho, aquele mundo, tudo desapareceu com a invenção da imprensa. E nada, jamais, vai trazer isso de volta.
As pessoas me perguntam quais são as minhas previsões para o mercado editorial, e de que modo a era digital está mudando as coisas, e eu digo para elas minha única previsão real, que é: “Tudo ainda está mudando.” Eu não sei como será publicar dentro de cinco anos. Qualquer um que diga que sabe provavelmente estará mentindo. Eu não sei, e ninguém mais sabe.
Amazon, Google, todas essas coisas provavelmente não são os inimigos. Eles publicam, não devem ser o inimigo. Os inimigos são aqueles que recusam entender que o mundo está mudando. As pessoas me perguntam se eu acho que elas deveriam estar vigiando melhor seus portões, com mais cuidado. E eu digo: “Sim, claro, por que não? Faz tanto sentido quanto qualquer outra coisa.” Não procuro soluções a longo prazo para os problemas e desafios encontrados pelos editores. Estou perfeitamente disposto a reconhecer a possibilidade de que nós, escritores, somos apenas um grão de areia em uma pequena fração de tempo na qual pessoas boas em inventar histórias podem negociar suas habilidades por um pouco mais que um jantar e algum reconhecimento.
Espero que uma de nossas tarefas nesta era da publicação digital seja fazer livros, livros físicos, que sejam melhores, mais bonitos, mais refinados. Deveríamos estar fetichizando objetos, dando motivos para que pessoas os comprem, e não só conteúdo, se o objetivo é vender objetos a elas. Mas poderíamos apenas voltar à ideia de que não se julga um livro pela capa.
Em Fahrenheit 451, Bradbury escreveu um livro sobre queimar livros. No final, ele nos fala que, se pessoas são livros, se livros são lembrados por pessoas, então o conteúdo é tudo. Não se julga um livro por sua capa, e algumas vezes essa capa pode ser uma pessoa. Ter lido isso quando era muito jovem foi provavelmente o que me fez pensar que capas e cópias não são tão importantes. Talvez possamos ir completamente além dos livros físicos, podemos decidir que aquilo que imaginávamos que eram tubarões na verdade não passavam de pombas passageiras.
Podemos imaginar um mundo no qual um autor não ganhe dinheiro vendendo livros, mas sendo remunerado por leituras. Um mundo em que você compra um exemplar impresso e automaticamente ganha também suas versões para e-book e audiobook. A verdade é que qualquer coisa que inventarmos provavelmente estará certa. Esta é a hora dos dentes-de-leão. Abrace o novo do mesmo modo que abraçamos o velho. Estamos na fronteira e não há regras aqui. Nos limites, podemos quebrar leis que nem existem ainda. Podemos entrar por portas que ainda dizem “saída” e escalar janelas.
O modelo para amanhã é o mesmo modelo que venho usando com entusiasmo desde que comecei a blogar, em 2001, e talvez o mesmo que uso desde que comecei a acessar a internet através da Compuserve, em 1988. O modelo é: tente de tudo. Erre. Surpreenda-se. Tente outra coisa. Fracasse. Fracasse melhor. Tenha sucesso de modos que jamais teríamos imaginado há um ano, ou há uma semana. Este é o momento de sermos como dentes-de-leão, lançando milhares de sementes e perdendo 900 delas. Se uma centena, ou mesmo uma dúzia delas sobreviverem, crescerem e gerarem um novo mundo, creio que isso será bem mais sábio do que esperar que 1993 volte outra vez.
Obrigado.
LBF 2013 | Digital Minds Conference | Neil Gaiman keynote

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