Microconto: Mãe Coruja


A praça era banhada pelo sol escaldante do meio dia. Talvez uma da tarde; quem saberia? Poucos relógios continuavam intactos nos pulsos de seus proprietários, estes mais preocupados em procurar gente saudável para adicioná-las ao seu cardápio de fast food – sem molho, obrigado, e fique com o troco – do que verificar horários. Mesmo os tique-taques dos relógios de parede não atraíam sua atenção.
O sino, contudo, não passaria despercebido. Provavelmente até um surdo sentiria as vibrações e saberia que ele estava tocando. Devia ser automático.
No alto da torre da catedral as badaladas soaram, dissipando-se pelo ar da pequena cidade de interior como fé distorcida em uma mente fraca. Os dementes logo vieram, cambaleantes, atraídos pelo som. Abandonaram os esconderijos escuros e as construções inabitadas e ajuntaram-se em frente à imponente casa sagrada. Não fizeram o sinal da cruz; muitos nem tinham dedos inteiros para tanto, e os que tinham não se lembravam de como fazê-lo. Seus olhos vidrados, como se estivessem sob o efeito de ecstasy, varreram num ângulo de trezentos e sessenta graus. E a encontraram.

Distraída, ela procurava por restos de qualquer sorte comestível que encontrasse. Desde que eles resolveram deixar os cômodos do inferno e fazer da Terra sua nova morada, refeições periódicas tornaram-se algo escasso. Comiam o que seus dentes careados e enegrecidos conseguissem alcançar: homens, crianças, cães, gatos (estes eram mais difíceis de alcançar; um dia talvez se tornassem a raça dominante), ratos. Sua fome era insaciável, e após semanas sem abocanhar carne fresca, atacavam-se. Ali, no entanto, estava ela. A carne suculenta e pulsante a poucos metros. Saliva ferrosa desceu dos lábios despedaçados.
Não havia estratégia naquelas cabeças cheias de ódio. O instinto era primordial. Via-se comida: atacavam-na. Simples assim. Sem emboscadas ou plano de caça nem nada mais elaborado do que correr aos berros. Irônico o mundo ter sucumbido a seres tão desprovidos de massa encefálica útil (se bem que, nos tempos de outrora, gente com essa mesma característica era idolatrada por massas; vai entender). Ela ouviu a cacofonia de grunhidos e tropeços e conseguiu escapar.

Não muito depois refugiou-se no alto de um prédio, nem baixo nem alto. Observou-os lá embaixo, como formigas revoltadas. Não seguiam um caminho definido; vagavam a esmo, atraídos pelo que quer que seus olhos em sangue encontrassem. Lamentos sobre-humanos ecoavam por toda a cidade. Ela já se acostumara, mas a fome aumentara. Mais um dia chegaria ao fim e nada de comida. Precisava alimentar sua família. Os pequenos não aguentariam muito mais. Dependiam dela. Como mãe, era seu dever. Não: sua obrigação.
Aproximando-se da borda, mergulhou para o vazio. Mudou o rumo há alguns metros do asfalto. A coruja precisava encontrar alimento.

Texto: Tiago Toy
Texto publicado no site Quotidianos em 6/7/13, a convite de Rober Pinheiro.

1 mordidas:

Anônimo disse...

Maneiroo!

Precisa continuar kkk

10 de julho de 2013 00:10

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