[ANÁLISE] The Walking Dead 4x04 Indifference

O texto abaixo apresenta spoilers, tanto da série quanto dos quadrinhos.

Mantendo o ritmo do episódio anterior, Indifference apresenta um roteiro tranquilo, e senti que de algum modo voltamos às origens de The Walking Dead, com buscas por suprimentos, sobreviventes encurralados por zumbis em massa, apresentação de novos personagens. Até há pouco não tinha conhecimento sobre a mudança de showrunner, passando de Darabont para Glen Mazzara e, atualmente, Scott M. Gimple. Pesquisando sobre a figura, descobri que Scott é grande fã dos quadrinhos e está tentando trazer referências da trama original à série, o que já podemos notar com a evolução de Tyreese, aproximando-o muito do personagem da HQ, até a evolução de Carol, aproximando-a do que Andrea poderia ter sido.

Desde que deu as caras, Carol não foi bem aceita pelos fãs. Tendo como semelhança com a Carol dos quadrinhos apenas o branco do olho, as maiores críticas pesavam principalmente sobre suas características físicas. Confesso que fui um desses, chegando a dizer que ela estava mais para mãe da Carol do que a própria. Hoje posso dizer que ela se tornou uma das personagens mais queridas, trazendo uma riqueza de construção e carisma incríveis, ambos com força o bastante para carregá-la por muito mais tempo — especialmente neste episódio. Desde o primeiro minuto senti que algo aconteceria a ela, e temi.


Despedindo-se de Lizzie, Carol diz que vai sair com Rick em busca de comida. Enquanto discursa à pequena sobre as maneiras de sobreviver, desta vez com um tom de despedida, Rick arruma as coisas no carro, com cara de quem sabe que precisa tomar uma decisão, mas que não quer tomá-la. Ao longo do episódio há dois grupos de personagens com mais enfoque (vários estavam de folga e nem deram as caras, como Glenn, Carl, Maggie, Hershel, Betty, entre outros... e sinceramente, estava tão bom que nem fizeram falta), mas é Rick e Carol quem mantêm o interesse sempre avivado. Quando o suspense circunda um personagem com quem nos importamos, a quem vimos crescer e desabrochar, é muito mais eficiente. Sabemos que algo acontecerá com Carol, mas há uma incapacidade de saber o que exatamente. Salvo em raros momentos, ninguém nunca sabe o que esperar na próxima reviravolta.

Havia três possibilidades: Rick mataria Carol, ou Carol morreria pelas mãos de um zumbi qualquer (a pior das três), ou Rick diria “Você não é mais bem-vinda na prisão”. Meu palpite seguia a terceira alternativa, pois há muito mais por trás da trama de Carol do que nos foi entregue. Eis a explicação:

1º) Carol decidiu ministrar aulas de combate e defesa exclusivamente às crianças como uma forma de homenagear Sophia. Na época em que a garota ainda era viva, Carol não passava de uma quarentona com medo da própria sombra e que foi incapaz de proteger a filha. Agora, busca reparar esse erro ensinando-as a se protegerem. Em seguida, um pai morre e deixa as duas filhas sob os cuidados de Carol. Por mais que tenha evoluído, a dor da perda nunca será extinta, e ter novamente alguém que depende dela para sobreviver traz à tona resquícios de um instinto materno até o momento adormecido. Carol jura protegê-las, custe o que custar.

2º) Após ser chamada de fraca, Lizzie pega a faca de Carol, passando a imagem de que conseguirá fazer o que deve ser feito, ainda que não consiga distinguir claramente a diferença entre humanos saudáveis e zumbis. Logo em seguida Karen e David aparecem mortos. Rick investiga e encontra a marca de uma mão no umbral da porta, deduzindo que o responsável pelos assassinatos é Carol. Sem pestanejar ela assume o “crime”.


Aí que entra o buraco. A marca na porta era de uma mão menor (sinceramente não percebi diferença, mas ao ver Rick colocando a sua própria sobre a marca, entendi que a mensagem oculta era o tamanho), que, se analisarmos bem, concluiremos que pertence a Lizzie. Um bom argumento seria que Lizzie quis provar ser forte, mostrar que era capaz de fazer o certo, e acabou matando Karen e David, o que Carol descobriu logo depois e, ainda tentando protegê-la, encobriu (muito mal) o feito, e quando se viu encurralada, assumiu a culpa. Explicaria a despedida antes de sair com Rick e seria um bom motivo para fazê-la voltar à prisão. Convenhamos: um personagem tão importante não pode ser deixado às traças daquela forma, e espero mesmo estar certo, e que Carol volte com todas as merecidas pompas. A luz no fim desse túnel é a possibilidade de Daryl finalmente abrir os olhos e, com a ausência da (ainda não descoberta) amada, partir em sua busca.

Rick pode ter feito muito pelo grupo, mas não seria alguém em quem eu confiaria para me proteger. O cara é inconstante demais! Se agora ele grita aos quatro ventos que há coisas que devem ser feitas para a sobrevivência dos demais, daqui dez minutos pode mudar completamente o repertório e nos fazer ter um microderrame cerebral. Minha primeira e mais insistente reclamação (embora seja algo pessoal e não pese na opinião geral) são seus trejeitos. Como me irrita o modo como Andrew Lincoln atua! Sempre olhando para o lado, fazendo a Regina Duarte com cara de cachorro-sem-dono, com seus maneirismos “do gueto”. Talvez seja influência do passado do personagem, um policial sempre às voltas com bandidos e que acabou “pegando” seus gestos. Ou é apenas a atuação de Andrew.

A segunda é o olhar de louco que Rick carrega desde que acordou naquele hospital. Para mim, ele perdeu seu eu no instante em que se deparou com o primeiro zumbi. É um homem fraco que esconde sua fraqueza na imagem de forte, esta se fragmentando aos poucos sob as severas rupturas que vão surgindo a cada perda. Acredito que os únicos motivos que ainda o mantém de pé são os filhos — os mesmos por ter abandonado Carol à própria sorte. Sem Carl ou Judith, o verdadeiro Rick viria à tona num estalar de dedos e se mostraria tão ou mais perigoso do que dez Governadores. Em uma entrevista, Andrew disse que só deixará TWD quando Rick for mordido, mas há chances de ser morto por quem menos espera, provavelmente Carl. Este se mostrou outro personagem bastante evolutivo, e chegará o momento em que reivindicará seu lugar, o sucessor do “líder”. Bem, acho que estou me adiantando demais em minhas teorias. Voltando à análise...


Na empreitada, Carol e Rick encontram um casal de sobreviventes, Sam e Ana, que são uma ótima adição em trazer um alívio cômico à tensão constante. Não há aquela comédia escrachada, mas algo, especialmente em Sam, que noz faz rir. Não acredito que tenham sido apresentados à toa — Ana não vai muito longe, concluindo sua aparição especial como McLanche Feliz para zumbis. Sam tem o ombro deslocado colocado de volta por Carol, e é onde sabemos mais um detalhe de seu passado. Quando questionada por Rick (que não aguentou ver um ombro ser colocado no lugar; ou seja, fraco) sobre como aprendeu a técnica, Carol relembra a vida de casada, quando apanhava e precisou recorrer à internet para aprender a se curar sozinha. Detalhes que tornaram o episódio à primeira vista lento em um dos mais prazerosos a se assistir. Voltando a Sam...

O personagem tem um quê de louco, embora tenha sido bastante receptivo e simpático. Carol e Rick ainda o aguardam um pouco, mas ele não aparece. Algo me diz que ele se encontrará novamente com Carol e mostrará quem realmente é, se for mesmo um lunático. Poderia ser apenas uma teoria furada da minha parte, mas não acho que tenha sido à toa Sam estar nas fotos encontradas em uma loja por Daryl e Bob. Posso estar enganado, mas o rapaz loiro nas fotos se parece muito com o amigo de Ana. Nas imagens, quatro pessoas, incluindo o loiro, exibem armas e bebidas. Talvez seja o começo de uma nova subtrama mais obscura do que aparenta... talvez não.


Do outro lado está o outro grupo, formado por Daryl, Michonne, Tyreese e Bob, à caça dos medicamentos. Seus momentos são o que me fez sentir de volta às origens de TWD, quando Glenn e Rick se aventuravam em construções abandonadas em busca de suprimentos. São sequências clássicas do gênero e que fazem qualquer fã se deleitar, em especial se os sobreviventes forem cercados. Após ataques de burrice por parte de Tyreese, que se mostrou mais fraco do que forte por quase desistir do objetivo antes de saber se realmente era tarde demais, e sorrisos de uma Michonne no cio para Daryl (o sorriso de Michonne me fez lembrar da música da Valeska Popozuda, “Quero Te Dar” [o meu nome é Michonne e o apelido é quero dar ♪]. Há outras necessidades além de se alimentar, oras!), o roteiro foca em Bob e seu problema com bebidas. Não sinto que o personagem tenha força para manter o drama sem parecer piegas. Teria sido muito mais profundo ver um dos personagens importantes começando com o vício aos poucos e prejudicando o bem estar do grupo do que inserir um novo, sem carisma, para cumprir esse papel.

Por exemplo, quando descobrem que ele está levando apenas uma garrafa de bebida na bolsa (e quase morre para salvá-la) e Daryl grita que não há remédios nela, foi uma barra forçada por demais. O infeliz estava procurando medicamentos com Michonne. Tudo bem, leve sua pinga, mas havia MUITO espaço para outras coisas, principalmente cartelas e caixas pequenas de remédios. Teria sido menos cafona se Bob tivesse colocado os companheiros em risco por causa de uma bebida, como fez (ainda que sem querer) no mercado. Sinto dramalhão embaraçoso vindo aí.

Outro detalhe mal explicado foi o fato dos zumbis da universidade estarem TODOS com a mesma doença que tomou conta da prisão, como se fosse apenas para dar um grau extra no sentimento de perigo. Na cerca havia apenas um zumbi com os olhos sangrando, e pode ter vindo dele a doença, mas então, tecnicamente, ele teria vindo da universidade, que fica a quilômetros de distância. Se for o caso, é muita coincidência Daryl e seus companheiros terem ido parar justamente onde a doença se originou.


Apesar dos pesares (ou eu que sou muito chato), Indifference é um dos melhores episódios da quarta temporada. Não se sustenta em ação desmedida ou em dramas inconsistentes; pelo contrário, foi ótimo sentar com Rick e Carol e saber um pouco mais do que pensam, relembrar como eram antes da merda ser colocada dentro do ar-condicionado (fede mais do que quando atinge o ventilador). É como se as melhores teorias fossem construídas em momentos de calmaria. Afinal, não dá para se importar com um personagem que só corre e atira. A ação é importante para nos manter alertas na poltrona, mas o terror psicológico é mais eficiente do que qualquer horda de 7.500 zumbis.

1 mordidas:

Anônimo disse...

O cara que faz o rick tb me irrita pra caramba, acho ele bem ruim...

8 de novembro de 2013 22:12

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