Capítulo 7 - Ela é uma assassina



- Larga! – grita Daniela, enquanto puxo o volante, desviando o carro do garoto no meio da rua. Ela parece fora de si.

Mais forte do que ela domino a direção, sentindo uma pancada logo em seguida. Arrebentando uma alta cerca branca, só tenho tempo de ver o Monza entrando em uma piscina, espalhando água pra todo lado. Sinto-me um tanto zonzo quando abro os olhos, com água na altura do pescoço. Pressiono onde dói em minha cabeça e vejo sangue. O para-brisa trincado indica o local onde bati a testa. Se não tivesse tirado o cinto durante a viagem por causa do desconforto, teria evitado o ferimento.

O que deu nessa doida?

Vejo-a soltando o cinto, parecendo confusa. Abrindo a porta, ela sai do carro e nada até a borda. Sentada, mantêm o olhar pra baixo, com olhos arregalados. A observo por um momento, e saio do carro. Já fora da piscina, chacoalho o cabelo e torço algumas partes da camiseta.

- Vocês estão bem?

Num pulo, olho pro lado. O garoto parado na entrada que abrimos na cerca parece preocupado. Trata-se de um oriental vestindo camisa preta com estampa de alguma banda de J-Pop, calça xadrez cinza e All-Stars. Aparenta ter, no máximo, dezesseis anos. Os olhos levemente puxados e cabelo negro e liso me fazem reconhecê-lo. Eu o vi algumas vezes em um clube onde treinava Le Parkour. Fazia parte da comunidade japonesa da cidade. Por um momento, me esqueci completamente que ele fora o motivo pelo qual levei o carro de encontro a cerca.

- Vocês estão bem? – repete.

- Sim. Acho que sim. – respondo, ainda trêmulo. – E você?

- Uhum. E sua amiga ali? Não parece muito bem. – diz, apontando Daniela com a cabeça.

Voltando-me a ela, vejo que não se moveu um centímetro desde que sentou na borda da piscina. Estática.

- Daniela!

Num piscar de olhos, ela me olha de um modo estranho. Parece desnorteada.

- Eu estou bem. – e levanta rápido, sem nem ao menos olhar pro garoto.

- Se quiserem, podem ficar na minha casa. Só há minha mãe e eu lá. Meu nome é Ricardo. – dizendo isso, ele se vira e some por trás da cerca.

- Espera! – grito. – Vamos, Daniela.

Saio pela cerca e vejo-o nos esperando no meio da rua. Não parece ter medo.

- Podem vir. Não há nenhum deles aqui. – diz, no chamando com a mão. – A maioria está no meio da cidade. Não sobrou ninguém.

Virando-se, põe-se a correr. Daniela e eu o seguimos, enquanto eu olho pros lados, com receio de ser visto por um possível zumbi. Como ele pode ter tanta certeza que não há nenhum por perto?

O bairro não parece tão danificado quanto o resto da cidade. Trata-se de um condomínio de classe alta, com alguns carros importados em certas casas, grandes árvores frondosas e nenhum lixo na rua. O garoto está parado, nos esperando, em frente á uma casa branca e amarela, sem muro ou cerca. A grama, já alta, se estende por todo o terreno. Subindo a escadinha da fachada, abre a porta com a chave e entra.

- Venham!

Olho Daniela por um segundo antes de entrar. A casa está bem arrumada. Nada fora do normal. Porcelanas japonesas enfeitam o armário escuro na entrada da sala. Um grande Buda de gesso decora o hall de entrada, assim como as espadas de samurai penduradas na parede.

- Como você conseguiu sobreviver? – pergunto, curioso. Um garoto tão franzino, sozinho em meio há tantos canibais, vivo?

- Ah, aconteceu tudo tão rápido. – sentando no sofá branco maior, começa a falar. – Eu tinha acabado de chegar da casa de um amigo e minha mãe estava na cozinha, fazendo um bolo. Era pra festa de aniversário da minha prima. Fui pro meu quarto trocar de roupa, e tranquei a porta. Depois, fui jogar CS. Fiquei um bom tempo jogando. Até que ouvi um barulho estranho na rua. Pareciam gritos. No começo, achei que vinha do meu computador, mas eram bem reais. Abri a janela e, pela fresta, vi os vizinhos correndo dos outros vizinhos. A filha deles que fugia caiu e os que os perseguiam foram direto pra cima dela. Cara, eles mataram ela sem piedade! Mordiam e batiam. Detonaram a coitada. A mãe dela só gritava, parada na entrada da casa. Não moveu um músculo quando avançaram contra ela. Fechei a janela correndo enquanto eles a destruíam. Mas antes pude ver a filha da vizinha, que tinha acabado de ser assassinada, levantando. Não acreditei, cara! Pareciam os filmes de terror que tinha visto na TV. Abri a porta e fui até a entrada trancar a porta. Ouvi um grito e fui até a cozinha. Meu padrasto havia entrado pela porta dos fundos e estava agarrando minha mãe pelo pescoço. Peguei a Katana e fui pra cima dele. Quando ele me percebeu, não pensei duas vezes. Só senti sangue espirrando na minha perna quando sua cabeça rolou pelo chão da cozinha. Minha mãe estava desmaiada.

- Ela não foi mordida? Onde ela está agora? – pergunto. Desde que chegamos, não vi mais ninguém na casa.

- No porão.

- Vocês se escondem lá?

- Não... Só ela. – responde ele. Parece trêmulo.

Olho desconfiado pra Daniela, que retribui. Quando olhamos para Ricardo, ele levanta e corre pra dentro da casa. Vamos de encontro a ele e chegamos a outro corredor. O garoto está parado em frente a um armário, onde é visível uma porta por trás. Ele nos olha com medo.

- Essa porta leva ao porão? – pergunta Daniela.

- Não. Não! – grita ele. Parece bem alterado. – Deixem minha mãe em paz!

- Ela está bem presa? – pergunto eu.

- Sim. Não há como sair. Deixem-na em paz! – diz ele, se agarrando ao armário.

Daniela vai em direção ao armário e o puxa, enquanto Ricardo grita.

- Deixa ela! Deixa!

- Só quero me certificar se não há como ela sair daqui. – explica Daniela, abrindo passagem pra porta.

Há buracos nela. Ripas de madeira pregadas por fora impedem que seja aberta.

- Essa porta está destruída! – grita Daniela, indignada.

- Mas eu preguei essas ripas. Ela não vai sair daí!

Daniela pega a arma em sua cintura e me olha. Ricardo corre em direção á porta, olhando-nos assustado.

- Não vou deixar você matar minha mãe, sua puta!

O olhar de Daniela muda de tal maneira que me assusta. Nas últimas horas ela pareceu bem estranha. Em nada me lembra a garota brincalhona que conheci há um dia. O ar de Jaboticabal não parece ter lhe feito muito bem. Quando as mãos da mãe de Ricardo saem pelos buracos da porta, provavelmente feitos pela própria, e o agarram pela camisa, Daniela cai sentada no chão. Corro até ele e o puxo, desvencilhando-o da criatura, que debate as mãos com fúria. Daniela saca seu revólver e dispara três tiros contra a porta. Após o urro de dor, ela está morta de verdade.

- Sua maldita! – vocifera Ricardo, se soltando dos meus braços. – Assassina!

Daniela permanece sentada no carpete, imóvel. Ricardo corre até seu quarto e bate a porta, em lágrimas. Olho Daniela por um momento. A zumbi não ia sair dali. Isso foi totalmente desnecessário. Vou até o quarto dele. Lá, o encontro caído na cama, segurando o travesseiro sobre a cabeça. Em seu quarto, descubro que ele é um fanático por música japonesa. Pôsteres de bandas de J-Pop cobrem as paredes. CDs espalhados num canto do quarto se amontoam numa pilha. Sua mesa de computador é bem bagunçada, com miniaturas de personagens de animes em fileiras, assim como DVDs e mangás. Ele percebe que eu estou no quarto, o que percebo quando ele começa a falar.

- Quando meu padrasto mordeu minha mãe, sabia que ela se tornaria um deles, do mesmo jeito que a filha da vizinha se transformou. Depois que o matei, aproveitei que ela estava desmaiada e a arrastei até o porão. Tranquei a porta e preguei as ripas pra reforçar. Quando acordou, começou a se debater contra a porta, provocando aqueles buracos. Ela estava segura lá. Alguém deve saber qual a cura disso tudo, senão vão descobrir. Queria mantê-la viva até lá. – sentando-se na cama, seus olhos inchados e a tristeza me provocam um sentimento fraterno de dó. – Cara, toma cuidado com sua amiga. Ela é uma assassina.

Nem sei o que responder.

- Cuidado, é só o que te digo. Ela não vai hesitar se tiver que te matar pra sobreviver. Ela não é como nós. Cuidado.

Essa palavra vaga em minha mente o resto da tarde. Cuidado. Cuidado! Afinal, nem a conheço direito.



♦ ♦ ♦



Com o pôr do sol, vejo que é perigoso tentar sair dali agora. Pela janela, não vejo nada que caminhe, mas um homem prevenido vale por dois.

- Está tarde. Acho melhor dormirmos aqui e fugimos amanhã, bem cedo. Tudo bem, Ricardo?

O garoto está sentado no sofá maior, comendo Doritos. Daniela está em pé do outro lado da sala, comendo uma grande fatia de bolo. Mesmo com raiva dela, Ricardo não mostrou rancor, oferecendo-nos comida.

- Claro que podem ficar aqui. Amanhã pegamos o carro da minha mãe e vamos embora. – diz ele, cabisbaixo. O clima é bem tenso.

- Espero encontrar uma cidade segura. – falo, bebendo suco de laranja.

- Acho que esse caos abateu somente nossa cidade. – Ricardo ergue a cabeça e me olha. – Quando tudo começou, a eletricidade caiu e os telefones não funcionavam. Alguns dias depois, a luz da cozinha acendeu e eu corri pra ligar meu computador. Consegui me conectar á Internet e falei com um amigo pelo MSN. Ele é de São Paulo. Quando falei sobre o que estava acontecendo aqui, ele me zombou. Lógico. Tentei convencê-lo de que era verdade e que precisava de ajuda, mas ele me bloqueou. Quando fui falar com outro, a eletricidade caiu de novo.

- Uma boa notícia, enfim. – comemoro. – O vírus, ou o quer que seja isso, não chegou á capital. Temos uma chance.

Ninguém responde.



♦ ♦ ♦



Acordo bem cedo, mesmo não tendo conseguido dormir quase nada no sofá. Não pelo desconforto, mas pelo que Ricardo me disse sobre a capital. Daniela também parece não ter dormido muito bem, pois seu rosto entrega o cansaço físico e mental que ela se encontra.

Após uma hora, estamos prontos pra partir. Ricardo está bem confiante, diferente de quando fora dormir. Parece estar se mudando mesmo, levando consigo seus pertences em uma grande mochila preta. CDs, roupas, revistas. Pegamos a comida da casa, abastecida com tudo que ele pegou dos vizinhos quando viu que a sua estava acabando. Daniela liga o carro na garagem e sai. Subimos e vamos embora. Ricardo coloca um CD de uma cantora japonesa chamada Koda Kumi, no volume máximo. Nem eu nem Daniela falamos nada. O carro, afinal de contas, é dele. E a música é até interessante, embora eu não entenda uma palavra do que ela diz.

Percorremos algumas ruas até que avistamos a estrada. O sol brilha forte, fazendo muito calor. Ligo o ar-condicionado e me recosto no banco. Daniela não diz uma palavra enquanto dirige. Permaneço calado também, enquanto Ricardo faz questão de cantar alto, acompanhando as músicas. A situação tira um breve sorriso de meu rosto. Que irreal! E pensar que logo estarei fora desse pesadelo. Como vou continuar com minha vida? Acho que arrumarei um emprego em São Paulo e alugarei algum quarto pra me manter no início. Tenho alguns amigos lá, que conheci pela Internet. Na mão não ficarei. Dou-me conta que poderia ter conseguido dinheiro pela cidade. Muito dinheiro. Mas, olhando pra frente e vendo a estrada sumir no horizonte, decido que é melhor não. Isso sim seria morrer pela ganância. Não seria ganância propriamente dita, e sim necessidade, mas enfim... Melhor não arriscar. Melhor deixar a velha Jaboticabal pra trás.



♦ ♦ ♦



Andando por alguns longos minutos, passando pela placa de boas vindas na entrada da cidade, avisto ao longe algo que não consigo reconhecer logo de início. Forçando a vista, vejo que são caminhões e jipes do exército. Uma barricada alta se estende ao redor, sumindo ao longe. Parece percorrer em volta da cidade. Daniela e Ricardo também veem a cena. Aproximando-nos, vejo soldados correndo em direção á estrada e parando em nossa direção. Parecem estar apontando armas pra nós. Abro o vidro e abano as mãos pra mostrar que estamos bem. Chegando á barricada, eles nos cercam, empunhando metralhadoras e rifles. Olham-nos por um bom tempo. Nenhum de nós se move.

- Nós estamos bem. – arrisco, pela janela aberta.

Um deles abre a porta.

- Saiam!

Desconfiados, mas sem opção, saímos do carro e somos cercados.

- Tragam-nos aqui. – uma voz grossa se destaca adiante.

Pegando-nos pelos braços, os soldados nos levam até um homem de uniforme diferente da maioria. Parece ser o sargento.

- Coronel Peter. Temos três aqui.

- Algum de vocês foi mordido? – pergunta.

Assustados, respondemos negativamente.

- Bom. – sorri ele. Um sorriso falso. – Vamos levá-los pra base.

Os soldados nos revistam e pegam nossas armas. Logo em seguida, nos jogam dentro de um camburão. Nem temos tempo de reagir, diante de tantos deles. Só tenho tempo de ver a porta se fechando, roubando-nos a luz do sol.

- Esperem! O quê vão fazer com a gente?

 
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14 mordidas:

jamile disse...

Cara, pelo amor de Deus, termine logo esse conto, tô roendo os dedos já. Muito bom, ta de parabéns.

27 de agosto de 2008 19:53
Thaís V. Manfrini disse...

Wow... Reviravoltas.

28 de agosto de 2008 18:07
Toy disse...

Terminar?

Mas a história nem começou ainda.

=]

29 de agosto de 2008 00:48
Juão disse...

Já´já virá livro!

1 de setembro de 2008 19:17
Anônimo disse...

Parabéns!PErfeitO!

15 de outubro de 2008 13:55
Huntress disse...

Militares!! Um sinal de esperança...

17 de fevereiro de 2009 05:24
Erukusu disse...

Militar só dá problema, eles querem fazer coisas idiotas, só da em merda, no Brasil ainda, isso piora.

Lembro que no Extermínio, os soldados queriam mulheres para reprocriar o mundo, mo locos!

13 de julho de 2009 16:53
Um Par disse...

a gente....talvez não! nos falta ver os proximos capitulos.

12 de agosto de 2009 21:24
Silas disse...

Esse capítulo se destaca em reação aos anteriores. Há algo como uma progressão no seu estilo.

Vou seguir adiante...

16 de setembro de 2009 05:05
Anônimo disse...

muuuito show.. tá de parabéns, já quero comprar seu livro e reler tudo.
boa sorte cara, você escreve muito bem, e sabe como prender o leitor (:

9 de junho de 2010 15:32
Anônimo disse...

PQP! muito bom!

30 de agosto de 2010 11:05
LucaZ disse...

Nao felei a menina e doida kkkk

4 de outubro de 2010 15:34
Mizzz³ disse...

Te falei que Exército não funfa pra powha nenhuma?
Só sabem atrapalhar e colocar ogivas!

7 de novembro de 2010 17:26
Tiago Toy disse...

Sejam bem-vindos novos infectados, e aos antigos, espero que continuem sobrevivendo.

Grande abraço!

6 de julho de 2012 23:44

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