• 1º Lugar na Lista de Mais Vendidos da Amazon!
  • Você acaba de entrar em uma terra de infectados.
  • O que você seria capaz de fazer para sobreviver?
  • Você mataria ou fugiria de quem ama?
  • Em Terra Morta, sua escolhas são limitadas. Sobreviva!

[Terra Morta RPG] Capítulo 14 - Johan




Dispunham apenas da luz da lanterna para enxergar ali, nos esgotos da cidade.
            Amy e a irmã caçula não diziam palavra desde que começaram a explorar os túneis, mas Beth, por sua vez, não parava de reclamar consigo mesma; ora se queixava do fedor, ora da escuridão, e não poupava esforços para gritar quando avistavam um rato – que, aliás, pareciam estar por toda parte.
            Em seus quarenta e tantos anos, a mulher era bastante gorda, com os cabelos escuros presos num rabo de cavalo que balançava para lá e para cá enquanto se esforçava para caminhar sob roupas que visivelmente não lhe serviam bem. Johan se perguntava como ela conseguira sobreviver durante tanto tempo.
            Já Amy... É linda, havia pensado, na primeira vez que a viu. Seus cabelos eram de um louro pálido, como areia, emoldurando o rosto enquanto desciam até abaixo dos ombros. Tinha a pele bronzeada e os olhos, verdes, dotados de um olhar profundo, desafiador. A irmã mais nova, Ana, era um reflexo da mais velha em seus nove anos de idade.
            A moça o havia salvo durante sua fuga da escola; correra tanto quanto podia, mas os malditos canibais pareciam não se cansar  de persegui-lo. Quase chegou a ser pego, num momento, quando em um ato de desespero saltou para cima do muro de um terreno baldio, torcendo para que o portão ao lado estivesse trancado...
            ... mas não estava! Invadiram o lugar assim que Johan aterrissou do outro lado, espalhando-se como vespas, para todos os lados, enquanto tentavam alcançá-lo.
            Só então se deu conta de que se repetisse o processo, parte deles ficaria presa ali e, assim, teria a chance de escapar. Mas quando o fez, viu-se em uma rua diferente da qual usara antes. Havia inimigos em todas as direções. Todos se viraram, e sentiu no corpo o peso de todos aqueles olhares insanos, famintos por morte. Seus grunhidos se somaram uns aos outros quando investiram em sua direção, e por um momento achou que tudo estivesse acabado. Mas então a ouviu gritar.
            – Você aí! Venha por aqui, rápido!
            Mal acreditou quando avistou a loira do outro lado da rua, em um beco, acenando para ele. Conteve a gargalhada que ameaçou estourar em seus lábios e, sem pensar duas vezes, tratou de correr para lá.
            Viu a luz do dia ser engolida pela tampa do bueiro que se fechou sobre suas cabeças quando desceram para os túneis de esgoto, e no momento seguinte não enxergava mais nada além do mais puro breu.
            – Quem é esse? – ouvira uma voz feminina perguntar.
            Quando a lanterna se acendeu, descobriu que não estavam sozinhos.
            – Deu sorte, rapaz – Amy havia dito. – Estava prestes a descer quando os ouvi gritando na rua. Sabia que não tinha sido vista, portanto minha curiosidade me levou para lá a fim de saber o que estava acontecendo – em uma das mãos, Johan reparou enquanto ela falava, trazia a lanterna. Na outra, um pé-de-cabra enferrujado e manchado de sangue. – Não teria conseguido escapar deles, eram muitos.
            E Amy tinha razão. Estaria morto, àquela altura, se não fosse por ela.
            Calculava que estavam ali embaixo a cerca de uma hora, talvez duas, mas para ele parecia que o tempo se arrastava bem mais devagar do que desejava. Uma eternidade...
            – Vamos fazer uma pausa – Amy sugeriu logo após alcançarem uma bifurcação. Sentaram-se ali mesmo, usando a parede de concreto como recosto. Ana abriu a mochila e distribuiu alguns pedaços de pão e bolo amanhecido.
            A água carregada de dejetos seguia lentamente seu curso, logo ao lado, e o fedor era tanto que chegava a embrulhar o estomago. Mas o seu, Johan concluiu, literalmente doía de fome, e devorou o que lhe foi entregue sem reclamar.
            – Você ainda não nos contou sua história, Johan – ouviu Amy comentar ao seu lado.
            – Minha história?
            – É. Como sobreviveu durante esse tempo todo, antes de nos encontrarmos.
            E ele contou. Falou sobre a escola, sua fuga pelas ruas e o desespero que sentiu ao pensar que morreria, algumas horas atrás. Em momento algum mencionou a garota que deixara para trás. A garota que deixara para morrer.
            – E quanto a vocês? – quis saber quando terminou o relato.
            – Nos escondemos em um prédio durante vários dias – disse Ana, de repente. Era a primeira vez que a ouvia falar qualquer coisa. – Mas então os monstros entraram, e tivemos que fugir.
            – Éramos quatro – Amy explicou. – Por um tempo o lugar pareceu um bom lugar para se esconder, e pretendíamos permanecer lá até que o governo ou o exército enviasse ajuda. Mas, de alguma forma, os mortos conseguiram invadir nosso refúgio, e nos vimos obrigados a sair de lá – fez uma pausa, e então completou: – Os outros dois morreram na fuga.
            Johan olhou para Beth.
            – E quanto a ela? Não estava com vocês?
            – Oh, não, não – a própria tratou de responder. – As encontrei quando saía da igreja.
            – Igreja?
            – “O Juízo Final chegou!” – Beth levantou a voz. – Era a frase que eu mais ouvia nas emissoras de TV quando tudo isso começou. Diziam que estaríamos seguros em nossas igrejas, mas não me atrevi a sair de casa nos primeiros cinco dias. Quando o fiz, meu objetivo era chegar até a paróquia do bairro em que vivia – umedeceu os lábios, então continuou. – Queria me salvar, por mais tola que aquela ideia parecesse. Precisava acreditar em algo, manter minhas esperanças vivas, sabe?
            “Nunca fui uma mulher religiosa, mas aquilo que vi mexeu comigo. Oh, sim! Não sei se um dia conseguirei esquecer aquela cena. Havia corpos estirados por todos os cantos, homens, mulheres e crianças. Crianças! Todos com aqueles malditos olhos cegos, arregalados, encarando a morte.
            “Nem mesmo o padre escapou. Acredite, o filho da mãe me atacou quando me aproximei do altar. Num momento observava todo aquele sangue a tingir os degraus de vermelho, e no seguinte corria para longe dali com o servo de Deus em meu encalço, louquinho por um pedaço de mim!”
            Beth olhou para Amy, que encarava a escuridão.
            – Amy deu cabo dele.
            Um silêncio desconfortável se seguiu ao relato de Beth.
            Neste meio tempo, uma grande e feia ratazana acinzentada se esgueirou para dentro da área iluminada pela lanterna, farejando a comida. Arriscou alguns passos na direção de Ana, os olhinhos negros e perversos focados no ultimo pedaço de bolo que a menina segurava.
            Ana e Beth gritaram em uníssono, assustadas, quando a ratazana se aproximou ainda mais. Amy se levantou com um pulo e, brandindo o pé-de-cabra, acertou o animal que fugiu dali guinchando, voltando a desaparecer no breu.
            – Acho melhor irmos andando – Johan se levantou. As três repetiram o gesto.
            Seguiram em fila indiana: Amy na dianteira, seguida por Ana e Beth. Johan protegia a retaguarda, embora arriscasse dizer que não encontrariam nenhum inimigo ali embaixo. Descobriram que a primeira bifurcação levava a uma outra, e esta, após um tempo, conduzia até uma terceira. Estamos perdidos, pensou, ela não deve ter noção nenhuma de para onde está nos levando.
            Arriscou perguntar:
            – Tem alguma idéia de para onde estamos indo, Amy?
            – Não – ela respondeu, direta. – Tenho em mente encontrar alguma escada que nos leve novamente para a superfície. Ou, quem sabe, o fim desses túneis.
            – Entendo – disse ele com um suspiro desanimado.
            Então continuaram em frente, adentrando cada vez mais na escuridão. Não ouviam qualquer som senão o dos próprios passos e o rumorejar da água que corria logo ao lado. Permanecer ali, debaixo da terra, o incomodada, sim, mas enquanto estivessem ali estariam seguros.
            Ao menos era nisso que se obrigava a acreditar.




O texto acima não tem qualquer vínculo com a história original de Terra Morta e nem foi escrito por Tiago Toy. É uma adaptação do RPG mestrado no Orkut por Luan Matheus, escrita pelo próprio.
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A palestra de Neil Gaiman na Digital Minds Conference

Fonte: http://pensarenlouquece.com/palestra-neil-gaiman-digital-minds-conference/

Ano passado, Gaiman já havia feito um discurso simplesmente magnífico aos formandos de uma turma na University of the Arts da Filadélfia, conhecido com o nome de “Make Good Art”(e que já virou livro). Pelo visto, o criador de Sandman está se especializando em dar ótimas palestras também. E assim, graças ao trabalho de Cíntia Citton, que transcreveu e traduziu a fala de 30 minutos de Neil na Digital Minds Conference da London Book Fair, publico a seguir o relato de Gaiman sobre o futuro dos livros impressos, suas experiências com internet e suas reflexões sobre os rumos da indústria cultural.
* * *
Em 1976 eu era um roqueiro punk e tinha uma banda, porque é isso que se costumava fazer. Fomos convencidos pelo homem que nos vendeu os instrumentos de que seria uma boa nos sindicalizarmos. E tudo que lembro sobre pertencer ao sindicato dos músicos é que eles nos davam adesivos amarelos, para serem colados nos instrumentos, com esta frase: “Gravações caseiras estão matando a música.” O que esses adesivos queriam dizer é que a possibilidade do público reproduzir em cassetes a mesma música que estava sendo vendida na forma de vinis tiraria os músicos do negócio e faria com que parassem de ganhar dinheiro. E, é claro, gravações caseiras realmente mataram a música. Ou algum tipo de música. E foi uma morte incrivelmente demorada e saudável.
Pessoas que usavam gravações caseiras e fitas K7 para fazer mixtapes, espalhando música por aí, e que descobriram novas canções através dessas fitas, ficaram comoventemente surpresas ao descobrir que eram as responsáveis pela morte da música. Especialmente quando os CDs surgiram, obrigando a gente a sair e comprar de novo toda a música que já tínhamos antes, fazendo muita gente ficar rica. Muito, muito dinheiro estava sendo gerado. Mas tudo isso não passou de um grão de areia.
Mudando de assunto. Sou completamente fascinado por calendários. Há uma história sobre um homem que gastou uma quantidade absurda de dinheiro fazendo calendários velhos e depois não tinha onde colocá-los. Ele lotou sua própria casa com os calendários, pilhas e pilhas na cozinha. Sua mulher disse que ele era um idiota por gastar tanto com aquelas coisas que ninguém queria. Ele respondeu: “Isso é o que você acha, mas se o ano de 1993 algum dia voltar eu venderei tudo!”.
Antes de Douglas Adams morrer, lembro de um papo que tive com ele sobre e-books, muito antes deles começarem a ser conhecidos com esse nome. Mas Douglas havia previsto e descrito os e-books em O Guia do Mochileiro das Galáxias, e era óbvio que eles seriam criados algum dia. Perguntei se ele acreditava que e-books significariam o fim dos livros impressos.
Douglas respondeu: “Neil, lembre-se de que tubarões já existiam na época dos dinossauros. E que alguns até mesmo antecederam os dinossauros. Mas os tubarões ainda estão por aí, porque nunca, jamais surgiu algo tão bom em ser um tubarão quanto eles próprios. Por isso eles permanecem.” E continuou: “Livros são muito bons como livros. Funcionam até com energia solar, é genial! Eles não estragam se caem na banheira. Podem inchar, mas permanecem legíveis. E são incrivelmente portáteis!”. E, é claro, até certo ponto ele tinha razão.
Mas o mundo digital representou o fim de alguns dinossauros: enciclopédias. Eu lembro de ter visto vendedores de enciclopédias batendo na porta de casa. Apenas um, na verdade. Mas ele era, sim, um vendedor, e eu ainda tenho enciclopédias em casa. A clássica Enciclopédia Britânica, um conjunto de livros antigos comprados pelo meu pai nos anos 60. Eram pesados, enormes, ocupavam espaço, raramente eram consultados e já estavam desatualizados quando você os recebia. O Guia do Mochileiro das Galáxias, conforme previsto por Douglas, era uma enciclopédia que poderia ser atualizada em tempo real. E as enciclopédias desapareceram.
Livros podem ser tubarões, ao menos alguns, mas bibliotecas particulares definitivamente não. Quando eu estava escrevendo Deuses Americanos, tive que comprar um carro só pra poder transportar as obras que precisava para fazer pesquisas sobre a Flórida, que é onde estava escrevendo o livro. Bibliotecas particulares são pesadas e nem um pouco portáteis.
Ganhei um Kindle antes dos Kindles estarem disponíveis pra vendas, só para testá-lo. Dei uma olhada nele e pensei: “Você é feio, um pouco desengonçado e parece estúpido.” E então, alguns dias mais tarde, entrei num avião rumo à Hungria, onde iria passar duas semanas com minha filha de 12 anos, quando nos demos conta de que ela não tinha nada para ler, e de que em Budapeste dificilmente haveria algum livro que pudéssemos comprar para ela. Entre nos darmos conta disso, sentarmos no avião, as portas se fecharem e o voo decolar, fiz o download de uma dúzia de livros, suficientes para distraí-la por duas semanas. Ao ver como ela pegou o Kindle, me dei conta de que o conteúdo já estava sendo consumido de outras formas. A era digital estava definitivamente chegando.
Não estava completamente certo disso, porém. E ainda tinha dúvidas se esse era o caminho do futuro, até que notei que podia aumentar o tamanho das letras, tornando-as mais legíveis, e reduzindo o brilho da tela. Pensei: “Taí um aplicativo matador.” Porque normalmente a tecnologia é voltada para os jovens, mas no caso do Kindle ela é dirigida justamente para os luditas. Porque, conforme vamos envelhecendo, nossos olhos já não são os mesmos, e a ideia de um livro no qual você pode tornar a letra mais legível mudaria tudo.
A certeza veio quando estive em Manila, pouco depois do lançamento comercial do Kindle, e comecei a conversar com o pessoal de uma livraria que me disse que, se dependesse deles, parariam de vender livros impressos. Porque lá nas Filipinas todos compravam livros se baseando pelos preços, e os livros digitais seriam muito mais baratos. Percebi aí que o futuro seria mais estranho e diferente do que qualquer coisa que eu tivesse imaginado.
Em 1997, estive num jantar organizado pelo jornal Cleveland Plain Dealer. Estávamos eu e um dois autores da lista de best-sellers do New York Times. Naquela época eu não tinha escrito best-sellers ainda. Eu era o esquisito, o cara estranho que serviria de distração. Um deles foi autor de best-sellers, não muito famoso, mas os livros dele o tinham sido no passado. Já o outro era um dos grandes, um poderoso e importante autor de policiais, com lugar cativo no topo das listas.
Quando os autógrafos começaram, após o evento, na minha fila havia gente que parecia deslocada, que nunca tinha estado num jantar do Cleveland Plain Dealer na vida deles: crianças mal comportadas, geeks, colecionadores de quadrinhos. Mas eles estavam lá, e bem animados. Quanto aos outros autores, suas filas tinham belas e elegantes senhoras, daquelas que usam casaco e blusa combinando e colar de pérolas. Eram pessoas de aparência respeitável, e eu pensei: “Isso é tão interessante, eu nunca vou ter uma dessas senhoras que usam twin-set e pérolas na minha fila, elas não são o meu público.” Mas então aquele autor incrivelmente famoso olhou para um livro que foi entregue a ele por uma senhora muito distinta (usando twin-set e pérolas), e ele ficou de pé e disse: “Me recuso a autografá-lo, olhem para isso!”. Ele segurou o exemplar de modo que todos pudessem vê-lo, e disse: “Isto veio de uma biblioteca! Por que eu o autografaria? Não ganhei nada com isso.” E ele se sentou, recusou o autógrafo e chamou o próximo da fila, que segurava um livro novinho em folha nas mãos.
E então vi muitas das senhoras que estavam no fim daquela fila – senhoras distintas, trajando twin-sets e pérolas – indo até a livraria, comprando cópias de Stardust e passando para a minha fila. Porque eu autografo tudo. E autografo qualquer coisa com prazer, porque me dou conta de que gostam do que eu faço, de que gostam de mim. Se agora mesmo não podem pagar por um livro novo, talvez algum dia possam fazê-lo. Enquanto isso, eu lhes dou algo para amar, e espero que eles saiam por aí dizendo aos conhecidos deles que têm um livro que eles adoram e digam: “Dê uma olhada.” Não me importo que sejam cópias de Belas Maldiçõesque rodaram o mundo com eles, que em algum momento foram derrubados na sopa e permaneceram inteiros, graças a fita crepe e amor. Não ligo. O importante é que eles tenham os livros, que gostem deles e que falem disso aos seus amigos.
Quando as pessoas me perguntam, ao longo dos anos, sobre acabar com a pirataria, sobre impedir que elas leiam coisas e baixem coisas de graça, costumo pedir, nessas salas lotadas, para que as pessoas que tenham um autor favorito levantem a mão. Muitas mãos se erguem, e então eu pergunto: “Ok, quem descobriu seu escritor predileto…” – e vocês sabem, um autor favorito é o tipo de pessoa que quando escreve e lança algo novo você vai lá e compra, porque você precisa ter aquele livro ou qualquer outra coisa que ele faça – e as mãos permaneciam no alto – “… indo a uma livraria e comprando um livro?”. Algumas poucas mãos continuaram levantadas. “E quem encontrou esse autor por indicação de alguém, ou porque alguém lhe deu o livro, ou porque você simplesmente o achou em uma livraria, o abriu em alguma parte e gostou da capa?”. Na maior parte das vezes alguém simplesmente lhe entregou um livro e disse: “Dê uma olhada nisso, você vai gostar.” É aí que as mãos se levantam. Não encontramos as pessoas que amamos comprando-as. Primeiro nós as encontramos e só depois é que descobrimos que as amamos. Por isso decidi desde cedo que não iria entrar em uma guerra. Prefiro incentivar, apostar no boca a boca.
“Gravações caseiras estão matando a música. Gravações caseiras estão matando os livros.” Bem, agora a música é cada vez mais e mais fácil de ser copiada, basta fazer isso com um clique. E assim, pouco a pouco, o que passa a ser valioso na música é o que é considerado único, o que não pode ser reproduzido com um clique: ir a um concerto, comprar uma camiseta que só é vendida naquele show. Pessoas pagam o triplo por uma camiseta dessas. E você faz isso em um show porque é a prova de que você esteve ali, participando de uma experiência única.
A indústria editorial existe para criar um monte de coisas que são exatamente as mesmas. Copyright é como, o porquê e quem tem o direito de copiar. O desafio que estamos encarando agora é o da mudança. Na maior parte da história da humanidade, a questão que surgia com os livros era a de como obtê-los, eles eram objetos escassos. A informação era escassa, os objetos físicos eram escassos, tudo era escasso.
De novo, 1976. O Neil roqueiro punk, com aqueles adesivos amarelos: “Gravações caseiras estão matando a música.” O único meio que eu tinha de encontrar obras dos escritores que eu adorava era encarando longas horas em viagens de ônibus a lugares tão remotos quanto West Croydon, talvez tão longínquos quanto Stratton, onde era possível comprar livros cujos carimbos estampados em suas capas diziam que se você os trouxesse de volta poderia trocá-los pela metade do preço. Era difícil encontrar coisas na solidão das livrarias.
De repente, o mundo mudou. Agora a questão é: tudo está lá fora, como encontrar as coisas boas, como nos fazer ouvir num mundo de excesso de informações? Passamos dos problemas de escassez a problemas tão reais quanto, mas agora de abundância. O segredo agora é encontrar o sinal em meio ao ruído, é conseguir ser ouvido. Um mundo no qual qualquer um pode publicar qualquer coisa, de excesso de informações, é um mundo no qual já não confiamos em guardiões de portas tanto quanto no passado, acreditando mais em guias e recomendações que nos apontem o que é bom. Nós confiamos no boca a boca, e na sorte, e em nos transformarmos em dentes-de-leão.
Todos nós somos mamíferos – assim espero -, e nos esforçamos tremendamente para educar nossos filhos: 15, 16, 17, 18 anos – com educação superior, até uns 22 ou 23 anos -, e você ainda os está criando, depositando esforços e vida nisso. Dentes-de-leão não se importam, eles simplesmente têm milhares de sementes e as jogam ao vento. E, até certo ponto, conforme passa o tempo, estou apreciando muito essa coisa de ficar atirando coisas ao vento.
Há dois dias eu estava em Nova York, entediado em um almoço, e comecei fazer desenhos na toalha de papel da mesa. Quando acabei a refeição, estava levantando da mesa quando minha mulher olhou para baixo e perguntou: “Você vai fazer algo com isso?”. E eu respondi: “Não, vou deixá-lo aqui pra que joguem fora.” E ela disse: “A gente deveria fazer algo com isso, é um belo desenho.” Então ela o pegou, o dobrou, saiu, colocou o desenho debaixo de uma pedra próxima ao restaurante, tuitou uma foto dela mesma fazendo isso e informando a localização. E ela disse: “Retuite isso, algum de seus fãs vai encontrar esse desenho e ficará feliz.” E eu disse: “Ok!”.
Do Instagram de Amanda Palmer.
Então caminhamos uns setenta segundos até nosso hotel, subimos até o quarto e ela disse: “Ei, você já não precisa dar RT, alguém já o achou.” E eu disse: “Muito bem!”. Então ela disse: “Ah, as pessoas que encontraram o desenho trabalham na edição americana do The Guardian.” E eu pensei: “É, isso é legal.” Ela disse: “Fica ali do outro lado da rua.” E assim, no dia seguinte, assumi a conta do Twitter do @GuardianUS. Tinha ido lá só para dar um alô ao pessoal que encontrou o meu desenho e eles disseram: “Você quer tuitar em nosso perfil?” Respondi: “Claro!”.
E fiquei pensando: “Será que é cedo demais? Eu posso inventar notícias, eu estou com o @GuardianUS, eu tenho o poder! Devo postar que a Margareth Thatcher se levantou dentre os mortos? É cedo demais! Será cedo demais? É, acho que é cedo demais.” Tive uma experiência maravilhosa assumindo aquele perfil de Twitter. No fim do dia, um dos lugares que estão vendendo meu novo romance, The Ocean at the End of the Lane, postou no Twitter que houve um enorme aumento nas vendas de exemplares, algo que eles atribuíram ao fato de eu ter assumido a conta do Guardian. Pensei: “Taí um estranho, inesperado resultado.”
No dia seguinte, estávamos almoçando com Art Spiegelman, que fez Maus, e contamos a ele o que tinha acontecido. Ele disse: “Que ideia genial!”. E desenhou em um guardanapo inteiro. Era um guardanapo Art Spiegelman! Um guardanapo de cardápio. Um cardápio do Art Spiegelman, que fantástico! Coberto de desenhos! E, de novo, nós o escondemos, e Amanda tuitou, e as pessoas saíram em busca daquilo. Mas alguém o achou e o jogou fora. Algumas vezes isso funciona, outras não. Não tenho certeza de porque algumas coisas vingam, outras não. Divulgo no Twitter um novo projeto de crowdfunding, as pessoas olham, ficam absoluta e totalmente indiferentes, e aquilo fica ali parado sem que nada aconteça. Mas, ainda assim, eu abraço esse tipo de iniciativa. Nós temos que nos tornar dentes-de-leão.
Recentemente fui contatado pelo pessoal do Humble Bundle – um sistema de “pague o quanto quiser” por um pacote de conteúdos digitais -, e eles disseram: “Vamos subir alguns livros e disponibilizar alguns romances e graphic novels que adoramos, você tem alguma coisa pra gente?”. E eu olhei e vi que ainda tinha os direitos de um livro chamado Signal to Noise, publicado há alguns anos na The Face. Era antigo, os direitos digitais estavam totalmente livres e liberados, e eu disse: “Claro, vocês podem usá-lo”. Nós o disponibilizamos online e eu chamei mais algumas pessoas para essa iniciativa, como John Scalzi, que colocou Cory Doctorow no circuito. Um livro aqui, um outro acolá, e o Humble Bundle juntou todas as nossas obras. Resultado: arrecadação de cerca de 1 milhão de dólares, e quase tudo foi para a caridade. Eu e Dave McKean, o ilustrador de Signal to Noise, ficamos com cerca de 78 mil dólares, graças a uma obra que estava parada e que a gente mal lembrava que tinha feito. Isso foi incrivelmente educativo.
Quando eu conto essa história, as pessoas perguntam: “Isso quer dizer que vou ganhar uns 80 mil dólares se eu subir algo numa plataforma do tipo pague-quanto-quiser?”. E eu digo: “Não, quase certo que não. Sequer significa que da próxima vez que eu decidir fazer isso conseguirei esse tanto de dinheiro. Isso só quer dizer que aconteceu desta vez.” É como um dente-de-leão: as sementes partem, flutuam e somente algumas delas pousam em lugares nas quais podem crescer.
Mencionei anteriormente que adoro calendários. A Blackberry entrou em contato comigo recentemente, me perguntando se eu tinha alguma coisa que desejava fazer usando mídias sociais. Colocaram todos os recursos deles à minha disposição, e eu disse: “Posso testar seu novo aparelho antes?”. Fiz isso, gostei e propus: “Ok, vou fazer algo, quero experimentar algo que ainda não foi feito reunindo pessoas em mídias sociais.” E então tuitei doze posts com perguntas simples.
Não esperava o tipo de resultados que surgiram. Todas essas coisas tornaram-se trending hashtags. E senti, naquele primeiro momento, que coisas grandes e belas estavam acontecendo. Havia uma espécie de movimento artístico inédito acontecendo no Twitter, enquanto pessoas mandavam replies e eu retuitava suas respostas para o mundo. E então selecionei doze respostas, quase que aleatoriamente, entre as centenas de milhares que recebi, e eu as peguei e escrevi um conto para cada mês, durante três loucos dias. O quão rápido consigo escrever doze contos? A resposta foi: três dias, alguns deles terrivelmente longos. E, depois, eu os joguei de volta para o mundo.
Eles foram publicados em uma página, a BlackBerry Keep Moving, e eu disse: “Ok, agora façam arte. Vocês podem fazer qualquer tipo de arte que queiram: fotografar, pintar, desenhar, fazer teatro, vídeos.” Gravei áudios e disse: “Se vocês quiserem usar isso, como trilha sonora para os vídeos, vão em frente, façam arte.” E eu vi milhares e milhares de pessoas se envolvendo, e fiquei ali enquanto criavam, e dei uma olhada em mais de cinco mil peças únicas de arte, tentando selecionar algumas para serem apresentadas no site. E senti que o melhor de tudo isso tinha sido usar a internet, o Twitter, para fazer arte de uma forma literalmente inimaginável há uma década.
Comecei a trabalhar recentemente em um projeto intitulado Estas Páginas Caem como Cinzas, que será uma história contada por dois livros. Um deles será um belo livro artesanal de madeira, com informações dentro, no qual você poderá escrever coisas suas. O outro será um texto digital, escondido em hard drives espalhados pela cidade de Bristol, para ser lido em algum dispositivo móvel. A ideia é fazer dois livros juntos, criando uma experiência singular de leitura, que se tornará uma história sobre um momento em que duas cidades se sobrepõem, existindo no mesmo espaço e tempo, mas inconscientes uma da outra até agora, e as pessoas que encontrarem essas coisas em seus dispositivos móveis se tornarão parte dessa história. De novo: é aquela coisa de criar algo que seria literalmente inimaginável, porque não tínhamos as ferramentas ou a tecnologia para imaginar.
Me preocupa saber que muitos de nós, assim como o homem da minha historinha do calendário no início, estejam convictos ao pensar: “Ah, se a gente pudesse ter 1993 de volta para vender tudo.” Se prendermos nossas respirações e fecharmos nossos olhos, vigiando nossos portões com armas maiores e mais potentes, então o tempo voltaria para trás, e o ontem voltaria a acontecer, e todos nós conhecemos as regras do passado. Os passos para publicação eram simples: autores, agentes, livros, almoços incrivelmente demorados… Aquilo era o mercado editorial. Não mais.
Nos dias atuais, os portões vigiados estão em lugares onde há cada vez menos muros reais. Na música, os muros já caíram há tempos, junto com a venda de objetos físicos. As gravações caseiras não mataram a música. Ela está por aí, passando muito bem, sendo feita cada vez mais. O pulo do gato é descobrir como encontrar as coisas boas. Ou, para as pessoas que criam músicas, descobrir uma maneira de monetizar o que estão fazendo. As coisas mudam. Monges costumavam levar de 5 e 20 anos – de acordo com um link que me mandaram pelo Twitter quando eu perguntei – para produzir uma Bíblia completa. Uma porção de “horas-monge” e de scriptoriums integralmente utilizados. Aquele tipo de trabalho, aquele mundo, tudo desapareceu com a invenção da imprensa. E nada, jamais, vai trazer isso de volta.
As pessoas me perguntam quais são as minhas previsões para o mercado editorial, e de que modo a era digital está mudando as coisas, e eu digo para elas minha única previsão real, que é: “Tudo ainda está mudando.” Eu não sei como será publicar dentro de cinco anos. Qualquer um que diga que sabe provavelmente estará mentindo. Eu não sei, e ninguém mais sabe.
Amazon, Google, todas essas coisas provavelmente não são os inimigos. Eles publicam, não devem ser o inimigo. Os inimigos são aqueles que recusam entender que o mundo está mudando. As pessoas me perguntam se eu acho que elas deveriam estar vigiando melhor seus portões, com mais cuidado. E eu digo: “Sim, claro, por que não? Faz tanto sentido quanto qualquer outra coisa.” Não procuro soluções a longo prazo para os problemas e desafios encontrados pelos editores. Estou perfeitamente disposto a reconhecer a possibilidade de que nós, escritores, somos apenas um grão de areia em uma pequena fração de tempo na qual pessoas boas em inventar histórias podem negociar suas habilidades por um pouco mais que um jantar e algum reconhecimento.
Espero que uma de nossas tarefas nesta era da publicação digital seja fazer livros, livros físicos, que sejam melhores, mais bonitos, mais refinados. Deveríamos estar fetichizando objetos, dando motivos para que pessoas os comprem, e não só conteúdo, se o objetivo é vender objetos a elas. Mas poderíamos apenas voltar à ideia de que não se julga um livro pela capa.
Em Fahrenheit 451, Bradbury escreveu um livro sobre queimar livros. No final, ele nos fala que, se pessoas são livros, se livros são lembrados por pessoas, então o conteúdo é tudo. Não se julga um livro por sua capa, e algumas vezes essa capa pode ser uma pessoa. Ter lido isso quando era muito jovem foi provavelmente o que me fez pensar que capas e cópias não são tão importantes. Talvez possamos ir completamente além dos livros físicos, podemos decidir que aquilo que imaginávamos que eram tubarões na verdade não passavam de pombas passageiras.
Podemos imaginar um mundo no qual um autor não ganhe dinheiro vendendo livros, mas sendo remunerado por leituras. Um mundo em que você compra um exemplar impresso e automaticamente ganha também suas versões para e-book e audiobook. A verdade é que qualquer coisa que inventarmos provavelmente estará certa. Esta é a hora dos dentes-de-leão. Abrace o novo do mesmo modo que abraçamos o velho. Estamos na fronteira e não há regras aqui. Nos limites, podemos quebrar leis que nem existem ainda. Podemos entrar por portas que ainda dizem “saída” e escalar janelas.
O modelo para amanhã é o mesmo modelo que venho usando com entusiasmo desde que comecei a blogar, em 2001, e talvez o mesmo que uso desde que comecei a acessar a internet através da Compuserve, em 1988. O modelo é: tente de tudo. Erre. Surpreenda-se. Tente outra coisa. Fracasse. Fracasse melhor. Tenha sucesso de modos que jamais teríamos imaginado há um ano, ou há uma semana. Este é o momento de sermos como dentes-de-leão, lançando milhares de sementes e perdendo 900 delas. Se uma centena, ou mesmo uma dúzia delas sobreviverem, crescerem e gerarem um novo mundo, creio que isso será bem mais sábio do que esperar que 1993 volte outra vez.
Obrigado.
LBF 2013 | Digital Minds Conference | Neil Gaiman keynote
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5 pecados na arte de contar histórias



Pecar em ser uma versão piorada de um autor famoso. É válido analisar como eles constroem suas cenas e descobrir como conseguem mostrar ao invés de contar, mas encontre sua própria voz, seu estilo, e os coloque em uso em seu trabalho. Do mesmo jeito que você não deveria querer plagiar o trabalho de alguém, também não deveria, sem querer querendo, "roubar" o estilo ou voz de alguém. Isso é péssimo por dois motivos: primeiro porque leitores vão notar a imitação e não gostarão nadinha; segundo porque você estará perdendo a parte mais gostosa de se tornar um escritor.

Pecar em diálogos empolados. Não faça "Minha mãe, Maria Aldegunda, ficaria muito feliz em vir à sua casa para o jantar, tio Dezêncio". Faça "Mamãe adoraria vir jantar, obrigado". Entendeu? Leia seu diálogo em voz alta. Se você estiver tropeçando nas palavras que seus personagens estão falando, é hora de revisar. Nem muito formal, nem informal demais. Estude o modo como todo o tipo de gente fala, desde oradores e médicos a engraxates e motoboys. Todos são personagens reais com suas falas reais.

Pecar fazendo nada acontecer. Se um personagem pega o carro e o leva para trocar óleo e nenhum evento importante ou interação ocorre, você pode e deve apenas resumir a cena: "Troquei o óleo pela manhã antes de ir à farmácia e à lavanderia". Ou ignore-a. Cada aspecto do dia não merece um maior desenvolvimento se não agrega nenhuma informação reveladora sobre o personagem ou a história. Não roteirize um episódio do Big Brother.

Pecar com problemas de credibilidade. Ou, se preferir, erros de continuidade. É quando uma cena contradiz outra. Se você tem uma mãe com três crianças em uma cena, e em outra a mesma mãe surge com sete crianças, apenas seis meses depois, há um problema de credibilidade (ou um sério caso de Síndrome de Angelina Jolie). Em um nível menos obvio, um exemplo seria quando crianças são extraordinariamente
sábias ou sempre mais inteligentes do que seus pais, como algumas crianças de sitcoms norte americanos conversam com a esperteza irônica de Jô Soares.

Pecar em cenas sentimentais. Há diferença entre sentimento e sentimental. Imagine açúcar e adoçante. Cenas sentimentais são tão superficiais quanto um vidro de Zero Cal. Elas tentam manipular a emoção do leitor, geralmente apelando para a piedade, nostalgia ou sentimentos mornos e distorcidos. Entenda, eu não sou contra uma cena mostrando ou provocando emoção a quem lê. Sou contra falsos sentimentos, emoção forçada. Se os personagens estão experimentando acentuadas emoções, mas você não, o escritor o deixou de fora por não mostrar as emoções de modo convincente.



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[Terra Morta RPG] Capítulo 13 - Vinicius




Sua cabeça doía terrivelmente quando despertou.
            Caído ao lado da caminhonete, no meio fio, Vini se esforçou para se colocar novamente de pé. Agradeceu em silêncio quando olhou ao redor, não encontrando nenhum sinal daquelas coisas por perto.
            Toda sua roupa estava encharcada devido a chuva que, àquela altura, havia dado uma trégua. O vento, entretanto, se esgueirava através da proteção de suas roupas e lhe acariciava o corpo com dedos gelados, proporcionando arrepios constantes. Praguejou.
            Antes de partir, procurou por sua “lança”, encontrando-a a poucos metros dali.
            Só então seguiu adiante pela rua, pensando no que faria. Aquela era a primeira vez que deixava o colégio desde que tudo aquilo começara. Nem sequer imaginava em que situação se encontrava a cidade, e portanto se preparou para o pior. Pensou em voltar para casa, mas tinha a amarga sensação de que todos aqueles que conhecia estariam mortos, o que o fez desistir da idéia.
            Mas onde, então?
            Pegou-se pensando se Matt teria sobrevivido após todo aquele tempo. Provavelmente não. Então, lhe ocorreu de súbito: a delegacia. Ficava a não mais que quarenta minutos dali, até onde se lembrava e, por mais óbvio que aquele destino pudesse parecer – certamente não era o primeiro a ter pensado em ir para lá –, qualquer coisa era melhor do que vagar por aí a esmo, esperando pela morte.
            A caminhada para fora do bairro seguiu tranquila; a desolação era quase palpável: havia carros acidentados em todos os cantos, casas com as janelas quebradas e sangue nas paredes. Arrepiou-se ao imaginar como estaria o centro da cidade. Mas de inimigos, nem sinal.
            Não que estivesse reclamando, longe disso! Poderia lidar com um deles, sabia disso, mas preferia evitar confrontos desnecessários e, portanto, quanto menos daqueles monstros encontrasse, melhor.


            Mas sua sorte só durou pelos primeiros vinte minutos de caminhada.
            Viu o primeiro deles virar a esquina da rua em que se encontrava: uma garotinha de não mais que oito, talvez nove anos, forçando o peso do corpo sobre um dos pés que, quebrado, parecia estalar a cada passo. Logo atrás dela vinham outros dois, caminhando silenciosamente por entre as poças d’água deixadas pela chuva enquanto farejavam o ar e olhavam para todos os lados.
            Vini se abaixou atrás de um carro, e os espiou por detrás da vidraça. Estavam no meio da rua, agora, então começou a engatinhar pela calçada, usando dos automóveis abandonados como barreira para que não fosse descoberto.
            Quando virou a esquina pela qual os desgraçados haviam vindo, avistou uma lanchonete não muito longe dali. Estava faminto, o que foi confirmado ao ouvir o estômago roncar. Direcionou-se para lá sem pensar duas vezes mantendo, entretanto, a cautela em primeiro lugar. Atravessar a rua não foi um problema: não havia nenhum morto-vivo por ali senão os que ludibriara na rua anterior àquela.
            Bastou entrar na lanchonete para que fosse invadido por um terrível fedor de morte e podridão. Havia sangue no chão, no balcão e nas mesas, e muito lixo espalhado por todo o estabelecimento.
            Olhou mais uma vez para a rua, apenas para se certificar de não ter sido seguido, e então deu a volta no balcão, ligou a torneira em uma das pias e tomou um longe gole d’água. Constatou, para seu desgosto, que a água tinha um gosto forte de ferrugem. Melhor que nada, eu acho.
            Havia, ali, salgados e velhos sanduíches deixados em uma pequena estufa próxima ao caixa, mas a aparência dos mesmos não era boa o suficiente para que se arriscasse a comê-los. Optou por vasculhar a cozinha.
            Descobriu, ao entrar no cômodo, que o fedor que sentira a pouco vinha dali. Estirados no chão, os dois cadáveres se encontravam em um estado avançado de decomposição. Uma centenas de gordas moscas pretas os cobriam como uma mortalha negra, mas esvoaçaram para longe dos corpos, zumbindo ao redor de Vini quando ele se aproximou.
            Fazendo o possível para conter a ânsia de vômito que lhe subiu pela garganta, virou o rosto para que não precisasse voltar a olhar para aquilo e deixou a cozinha, retornando para a área de atendimento da lanchonete...
            ... e viu uma mulher parada à entrada do estabelecimento, de costas, as roupas empapadas de sangue. Vini prendeu a respiração, pego de surpresa, e antes que pudesse ser visto se jogou para trás do balcão, onde apanhou sua lança e permaneceu abaixado, quieto.
            Ouviu-a gemer do outro lado, e então seus passos arrastados enquanto se encaminhava para dentro da lanchonete. Vini começou a suar frio, tentando pensar em algo antes que fosse tarde demais. Se a desgraçada desse a volta no balcão, seria visto.
            Pensa... pensa... pensa!
            Levantou-se com cuidado, apenas o suficiente para que pudesse espiá-la. Suficiente para que seu sangue gelasse ao perceber que havia sido descoberto. Sem hesitar num só segundo, a mulher pulou em sua direção, debatendo-se em fúria enquanto tentava passar por cima do balcão. Quando o fez, Vini se jogou para o lado, e ela se estatelou contra a parede.
            Se corresse, a maldita atrairia mais deles durante sua fuga. Sabia disso, mas não tinha escolha. A não ser que a atacasse, e foi exatamente o que fez: a estocada com a lança acertou em cheio na coxa da filha da mãe. Atravessando tecido, couro e carne, a ponta da lança se projetou do outro lado, e a mulher urrou encolerizada, segurando a haste de ferro para que tentasse puxá-lo para mais perto.
            Só então ele correu, abandonando sua arma para que pudesse sair dali sem ser perseguido. Ouvia os gritos proferidos pela inimiga que, trespassada com a lança, não conseguiu segui-lo. Então mais e mais gritos se somaram aos dela, e ele aumentou o ritmo de seus passos para escapar dali antes que fosse visto pelos demais mortos-vivos atraídos pelo barulho.


            Correu até que o corpo pedisse por clemência. Não conhecia aquele bairro muito bem, e não sabia para onde ir. Então parou em um beco, recostando-se contra a parede para que pudesse retomar o fôlego.  Estava cansado, mal-humorado, desarmado e, para melhorar ainda mais as coisas: desprovido de qualquer mantimento.
            Após um tempo, ouviu o que pareciam ser passos vindos da rua pela qual acabara de vir. Apurou os ouvidos. Sim, eram passos. Com cuidado, se levantou tentando fazer o mínimo de barulho possível e aguardou.
            Não demorou para que a inimiga adentrasse sua linha de visão: tinha os cabelos compridos, levemente ondulados, de um loiro tão vivo que chegava a se destacar em meio a toda aquela destruição. Em uma das mãos trazia uma faca suja de sangue, e uma mochila pendia de suas costas. Não chegou a ver seu rosto, mas...
            Espera! Ela não é um deles!
            A idéia de encontrar outro sobrevivente o encheu de esperanças novamente. Talvez não estivesse tudo perdido, afinal. Tentando não fazer barulho, se esgueirou até a entrada do beco.
            – Não iria por aí, se fosse você – viu-se falando.
            Vini teria rido da expressão em seu rosto quando se virou para encará-lo se não estivesse tão chocado quanto a desconhecida. Ela o encarou por um logo momento, mas não demorou para que suas feições mudassem da surpresa à cautela.
            – Quem é você? – ela levantou a faca e manteve a guarda enquanto esperava por uma resposta.
            Vini ergueu as mãos, tentando acalmá-la. Não adiantou.
            – Ia te perguntar a mesma coisa.
            – Por que não devo ir para aquele lado?
            – Acabei de vir de lá – contou, arriscando um passo na direção da desconhecida, e ela recuou dois. – As coisas não estão muito boas. Olha, você é a primeira pessoa que encontro desde que tudo isso começou. Não sei pelo que passou, mas acredite em mim quando digo: não pretendo fazer nenhum mal a você.
            A faca continuou apontada para ele.
            – Hoje em dia, nunca se sabe.
            – Verdade – Vini forçou um sorriso para tentar quebrar o gelo. – Ao meu ponto de vista, vejo que temos duas opções – levantou dois dedos e, quando abaixou um deles, continuou a falar –, podemos ficar aqui conversando durante o resto da tarde e, no fim, cada um segue o seu caminho – abaixou o segundo dedo –, ou podemos confiar um no outro, pelo menos por ora, e sair daqui antes que um daqueles filhos da mãe apareça e nos mate.
            Ela hesitou, e um longo momento se passou até que enfim abaixasse a faca.
            – Tudo bem – disse. – Mas se tentar alguma coisa... – ela deixou a frase morrer, o olhar alternou entre Vini e a lâmina que tinha em mãos.  
            A convicção na voz da estranha o fez hesitar por um momento, mas tentou soar confiante quando disse:
            – Tem minha palavra – prometeu. – A propósito, meu nome é Vinicius. Pode me chamar de Vini, se quiser – obteve um leve aceno como resposta. – E você, como se chama?
            – Marissa – disse ela. – Meu nome é Marissa.





O texto acima não tem qualquer vínculo com a história original de Terra Morta e nem foi escrito por Tiago Toy. É uma adaptação do RPG mestrado no Orkut por Luan Matheus, escrita pelo próprio.
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Leia o início de Teoria e prática de como ser um zumbi



Não posso me queixar do planeta ter sido tomado por zumbis. As coisas não estavam indo lá muito bem. Violência desmedida imperava, líderes políticos preferiam roubar em vez de ajudar, crianças matavam e não iam a julgamento. O pior eram os programas de TV, uma ofensa à inteligência. Não, minto. Nada superava a música, uma tortura sonora recheada de pornografia e onomatopeias irritantes. Bons tempos os da MPB.
Ninguém sabe de onde os zumbis vieram. Houve todo o tipo de especulações. Uns diziam ser resultado de uma experiência governamental malsucedida; outros, castigo dos céus. Veja aí a eterna desavença entre ciência e religião, defendidas a unhas e dentes por seus seguidores até para provar quem ferrou com tudo. Não tenho uma opinião formada e não sei quem pode estar certo. Tanta porcaria jogada no meio ambiente, rios e mares poluídos, atentados com bombas químicas, o homem brincando de Deus. Sim, pode ser culpa da ciência. Por outro lado, há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. Sim, também pode ser castigo divino.
Quando os primeiros casos foram registrados, os ataques foram associados a uma nova droga – como se já não houvesse o bastante. Pessoas mordendo outras, as infectando e transformando. O problema foi quando os mortos saíram dos túmulos. Ninguém estava preparado para aquela merda. Era a versão real de tudo exibido à exaustão pelo cinema, mas mais visceral. Seria cômico se não fosse trágico ver um defunto levantando em seu próprio velório e comendo a tia gorda se debulhando em lágrimas ao lado do caixão. Pode rir. Não vou te julgar.
O governo gastou bilhões na tentativa de reverter a situação criando vacinas, mas, se nem as forças armadas tiveram êxito com suas metralhadoras e tanques de guerra, o que dizer de agentes médicos equipados com seringas? “Vem, zumbizinho, tomar injeção na bundinha”? E o homem ainda se acha inteligente. Por favor. Sem poder contar com o governo, o qual resolveu declarar estado de emergência tarde demais, provavelmente por puro orgulho, os civis passaram a agir conforme seu instinto. E, convenhamos, instinto humano é uma bela porcaria. Você pensa estar agindo corretamente, mas outra perspectiva mostra o quão errado você, de fato, está. Perdi as contas de quantos prédios, potenciais fortes de resistência, foram desperdiçados graças à burrice do homem. Pra começar, o maior erro era andar em grupos enormes e barulhentos. Era a mãe, a avó, o tio peidorreiro, a tia histérica, os sobrinhos mal educados. A família inteira agia como se estivesse de férias. Bastava chegarem ao local e logo os zumbis o cercavam. Indisciplina e despreparo resultavam em mortes lentas e agonizantes. Quando não, todos queriam governar em uma terra sem lei. Surgiram líderes insanos, governadores psicóticos ou apenas sujeitos armados fazendo de suas armas a nova lei. Nenhum vingou.
Desde antes do Dia Z, como gosto de chamar a data em que os zumbis surgiram, sempre fui um puro nerd, no sentido mais literal da palavra. Passava horas pesquisando sobre eles e continuei até a internet ir para o espaço. Podia não gostar de esportes e aventuras radicais, mas meu cérebro estava preparado para me auxiliar na sobrevivência. Não cometi nenhuma burrice, como andar em grupos grandes como uma ala carnavalesca, nem deixei o pânico me trair. Me juntei a um número mínimo de vizinhos em meu prédio, reunimos nossos recursos, saqueamos os outros apartamentos e nos enfurnamos no último andar. Não adiantava ir para o norte, sul, leste ou oeste. Conhecia bem aquele ditado: “a grama do vizinho é mais verde”. Se estava ferrado aqui, estaria lá. Não desperdiçaria minhas energias em viagens sem sentido.
A vista privilegiada nos permitia ver grande parte das construções e toda atividade ao redor. Nos permitiu ver também ondas de humanos lutando por suas vidas, pessoas tentando fugir enquanto outras as puxavam para poder passar na frente. Todas tiveram o mesmo destino, consumidas pela massa crescente de zumbis. O apartamento era propício para resistir. Mas há uma coisa que ninguém te conta sobre sobreviver: é extremamente tedioso.



Trecho do conto Teoria e prática de como ser um zumbi, escrito por Tiago Toy (euzinho) como autor convidado da antologia Vírus Z - Apocalipse Zumbi, a ser lançada pela Ed. Crescente e organizada pela escritora Silvia Vieira Fragoso.
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Resenha de Terra Morta no PsychoBooks


Resenha/ Sorteio: Terra morta – fuga


Boa noite, gentes!

Hoje vou falar de um livro distópico, com zumbis e que – que rufem os tambores – ocorre no interior de São Paulo! Bora lá saber o que achei do livro do Tiago Toy.

Terra morta: fuga

Terra Morta: Fuga

Tiago Toy

Skoob
Editora: Draco
Páginas: 248
ISBN: 9788562942327
Publicação: 2011
Preço de Catálogo: 44,90
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Sinopse:

Em ‘Terra Morta: Fuga’, o leitor acompanhará uma saga de sobrevivência ao terrível mal que assolou o interior de São Paulo e agora se dirige à capital. Tiago é um rapaz introspectivo que sempre sonhou em viver na megalópole de São Paulo e buscar novos desafios. Só não imaginava que sua chance chegaria da pior maneira possível. Jaboticabal, sua cidade natal, é o cenário de um terrível apocalipse zumbi, uma tragédia que parece saída de um videogame ou filme de terror. De repente, o jovem acostumado a treinos de parkour e muito trabalho precisa lutar para sobreviver. Nenhum local é seguro, ninguém mais é confiável, água e comida não são mais garantidas no dia a dia. Mesmo que a mente custe a acreditar, não há tempo para duvidar da realidade. A única opção é fugir. A cada pessoa que Tiago encontra, uma surpresa. Aliado ou inimigo? Nunca uma certeza. Tiago e seus companheiros deverão enfrentar o passado e seus medos, e em meio a um mar de zumbis canibais, descobrirão que o maior inimigo ainda são os humanos. Descubra a origem da infecção enquanto corre sem parar, uma aventura dramática que é sucesso na internet e agora se torna uma série de livros. Pegue apenas o necessário e corra sem olhar para trás.

Comentários

A premissa do livro é um convite à leitura, pelo menos para aqueles que, como eu, são aficionados por zumbis.
Minha primeira leitura sobrenatural com o enredo inserido no Brasil foi com a série “Bento” de André Vianco. Como no livro de Vianco, Tiago Toy usou o interior de São Paulo para ambientar sua fantasia urbana, ou para os que curtem o termo, sua distopia. A história se dá em Jaboticabal e região. Não conhecia a cidade, mas Tiago a descreveu com tantos detalhes e paixão que me senti inserida no ambiente.
Tiago (sim, o protagonista tem o mesmo nome do autor), já começa sua narrativa explicando para gente o inferno no qual se encontra e na correria louca que sua vida se tornou. Dentro de um freezer, fugindo de três zumbis, ele observa suas opções e vai revelando todas suas habilidades e pelo que já passou para chegar até ali.
A palavra “Fuga” que dá nome ao livro, pode ser considerada o cerne de toda a narrativa e a palavra que motiva todas as ações de Tiago. O ritmo do enredo é desenfreado, com muita coisa acontecendo o tempo todo e recheadíssimo de zumbis. Aliás, esse ponto em minha opinião foi o forte da narrativa: o protagonista é praticante de pakour, então, durante toda a correria ele explica seus movimentos, suas escaladas, enfim, suas ações e isso faz com que sua sobrevivência seja verossímil. Os zumbis do livro do Tiago (não são bem zumbis, mas abordamos isso mais à frente), são rápidos e ágeis, mas burros. Fica claro desde o início que uma pessoa sedentária – eu, por exemplo – morreria rapidinho nas mãos deles.
O protagonista é bem-construído e tem características marcantes. A narrativa é em primeira pessoa, passando para a terceira pessoa em apenas um momento, quando acompanhamos a história de Daniela, uma sobrevivente que, como Tiago, teve que lutar pelo direito de viver. Essa distinção deixa os limites da narrativa bem claros. A diagramação quando há lembrança também é diferente, com mudança na cor da página.
Agora vou falar de Daniela. Em nenhum momento me conectei com a personagem. Suas mudanças de humor e suas intenções me deixaram o tempo todo confusa sobre a sua personalidade. Há durante a narrativa uma intenção clara de criar um elo entre os dois personagens e com isso um possível romance. Não há química, os dois se repelem.
Quanto aos zumbis – ou os seres humanos acometidos pela estranha doença -, também fiquei sem entender bem suas características. Talvez por já termos uma ideia pré-concebida a respeito das características desses seres, não me conformava quando algum deles morria com um simples tiro na barriga. Também não ficou claro quanto tempo demorava para um ser humano se transformar e como se dava a infecção. Faltaram explicações mais claras sobre esse universo.
As cenas de ações têm suas descrições instáveis… Ora me via completamente imersa na cena e entendendo tudo o que acontecia e em outros momentos o autor me perdia, como se tivesse esquecido de inserir alguma explicação importante. Algumas coisas também tinham seu desenrolar muito simplificado, quando tinham que ser mais esmiuçadas e, em outros casos, uma ação que deveria ser corriqueira e não tomar mais do que dois parágrafos, se estendia mais do que o devido.
Do meio do livro pro final, quando as verdades sobre a história começam a ser reveladas, fica impossível não fazer relação com a série “Resident Evil”. Como conheço tanto os filmes quanto os jogos de videogame, as similaridades me frustraram bastante.
No geral, o livro é de leitura rápida e envolvente. Vi alguns defeitos, mas a narrativa do autor é contagiante, e nos leva em questão de horas até o desfecho final. Espero que o próximo volume da série tenha menos similaridades com a série Resident Evil e que o Tiago me surpreenda com algo realmente inovador.
Um ponto positivo da obra é sua arte gráfica: a foto tirada para a capa da igreja descrita no enredo ficou ótima! A forma como foi manipulada para parecer abandonada e o joguete com o nome da cidade com os dizeres “Jaboticabou” foi uma grande sacada. A revisão está ótima e diagramação facilita muito a leitura.

Odeio ter que chegar perto deles. Odeio ter que matar pessoas que conheci em vida. Lembrar de como eram em vida, andando pela rua principal, olhando as vitrines, fofocando com as amigas. (…) Não sou eu quem devia ditar seu destino. Não sou eu quem devia cravar o facão no meio de suas cabeças para evitar ser um deles. (…) Eu não pedi isso. Eu não mereço essa merda.
Página 65
3 Estrelas

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