Capítulo 13 - Precisamos impedir que eles escapem


Diante da legião de infectados nos observando com uma curiosidade assassina, sinto o coração gritar. Os grunhidos que emitem me fazem relembrar o terror que vivi em minha cidade. Uma cidade do interior, pequena, nada comparada a São Paulo. Se o caos se espalhar aqui, será o fim. Não posso permitir que o pesadelo recomece. A questão é: como impedir?

Num baque, sinto o corpo sendo lançado pra frente, dando-me tempo de proteger o rosto contra as costas do banco da frente. Sem espaço pra dar meia-volta, Pooh se viu obrigado a dar ré, assim que os monstros investiram, enraivecidos.

- Não acredito nessa porra! – grita Pooh, enquanto guia habilidosamente o jipe olhando pra trás. – Estão fora de si!

- Já dissemos o que há de errado com eles, mas parece que vocês não escutam! – discute Daniela, tremendo, enquanto segura firme nas laterais. – Eles estão infectados! Infectados!

- Calma! Nós entendemos. – fala Lizzy, apenas mantendo a pistola em direção à massa que nos persegue. Mesmo em um momento de tensão, sua voz soa leve. – Agora não é hora pra discussão! Pooh, nos tire daqui, rápido!

- Só se o jipe criar asas, mulher! – retruca ele, ainda olhando pra trás, com apenas uma das mãos no volante.

Respirando fundo, tento raciocinar, ignorando as vozes à minha volta. Se conseguirmos sair daqui vivos, é porque há uma saída. Se há uma saída, eles também conseguirão escapar. E isso não está em meus planos.

- Dani... – cochicho. – Não podemos deixar que eles escapem pra cidade.

- E o que vamos fazer pra mantê-los aqui dentro? – pergunta ela, com os dentes cerrados. – Você viu quantos deles há?

- Sim, muitos. – por um momento flagro Lizzy nos observando, mas logo volta à frente, mirando sua arma. – Mas se conseguirem fugir, diga adeus a qualquer esperança de ter sua vida normal de volta.

É o que basta pra encher seus olhos de lágrimas. Dani olha pra frente, vendo-os em nosso encalço. Mira-os por breves segundos antes de me dirigir a palavra.

- Ok! O que tem em mente?

- Precisamos levá-los pra dentro e trancar todas as saídas.

- E depois?

A resposta não vem. Ora por eu não tê-la, ora pela pancada forte vinda de trás, logo após o palavrão emitido pelo motorista. Sentindo tudo girar a minha volta, ouço um “Se segurem” pouco antes de cair de costas no asfalto, próximo ao pneu de um grande carro branco.

Sentindo a cabeça zonza e dolorida, apóio-me nos cotovelos, fitando os infectados se aproximando aos montes por todos os lados. Sem olhar pelos outros, viro-me rápido e me arrasto pra debaixo do carro, sentindo pequenas pedrinhas do chão roçando pela minha barriga nua. Quando uma mão agarra meu tornozelo, consigo me desvencilhar sem dificuldade, rolando por sob o carro adiante, fazendo um percurso pelos próximos quatro veículos, sentindo-os cada vez mais perto. De bruços, observo e só distingo a correria desenfreada que toma conta do estacionamento. Que droga! Quando parece que o pior aconteceu, vem algo e supera tudo. É como se Deus e o Diabo estivessem competindo pra ver quem ganha. E me escalaram pro jogo sem me consultar. Vão à mer...

- Tiago!

Sobressaltado, olho pro lado e vejo Daniela escondida sob um veículo adiante.

- Onde estão os outros dois? – pergunto, tendo que gritar devido à confusão.

No mesmo momento, tudo se silencia. Nos entreolhamos, imóveis. Nenhum som é ouvido. Nenhum grito, tiro, nada. Tremendo nas bases, me arrasto cautelosamente e fico ajoelhado diante do carro. A imagem que se segue é inacreditável.

Cada um dos infectados está parado, com uma expressão perdida, olhando pro nada. Desnorteados. Não saem do lugar. De suas bocas entreabertas, escorre saliva espumante misturada com sangue, sujando ainda mais suas roupas, na maioria brancas, já ensanguentadas o bastante. Parece que estão no meio de algum exercício de relaxamento. Seus troncos soltos balançam levemente para os lados, acompanhados por vagos gemidos.

Olhando para o lado, avisto Lizzy em uma posição muito estranha. Encostada na parede do laboratório, quatro metros acima, usa os pés para se apoiar contra uma das várias palmeiras que circundam a construção. Mantém a pistola empunhada, com mechas de seu cabelo loiro caídas sobre o rosto. Parece tão surpresa quanto eu.

Daniela sai de seu esconderijo, limpando os joelhos com as mãos. Tirando a franja dos olhos e prendendo-a atrás da orelha, olha estupefata a cena. É visível seu nervosismo devido às mãos exageradamente trêmulas. Tenta emitir uma palavra, mas tudo o que consegue é abrir a boca, muda.

- Ei!

A voz grossa me faz quase pular sobre o carro. Pooh vem em minha direção, andando calmamente, observando-os de perto, intrigado. Dessa vez, uma submetralhadora está em seu poder. Devia estar no jipe, escondida. Ou sob sua camisa. Não importa. O que importa são os vários atingidos pela arma, caídos pelo chão.

- Você foi mordido? – Daniela pergunta, nervosa.

- Não, embora tenha sido uma tarefa difícil evitar as mordidas, já que fui cercado por essa cambada de malucos. – diz ele, balançando o punho direito e abrindo e fechando os dedos, sujos de sangue. – Quebrei uns bons dentes no soco, mas não fui mordido não.

Daniela suspira.

- Você é rápida! – grita ele, se dirigindo a Lizzy, ainda apoiando-se no alto.

- E você é um valentão! – rebate ela, numa careta. – Falei pra você correr.

- Pooh aqui não foge de brigas. – e faz uma pose com a arma.

Daniela e eu nos olhamos. Não conseguimos entender ainda o que aconteceu. Por que eles permanecem parados, como se estivessem em transe?

Olhando-os, um brilho chama-me atenção no alto, vindo de uma das janelas no terceiro andar. Um vulto, parado. Irreconhecível. Deve ser um deles, tão perdido como os demais do lado de fora. Esse lugar é como a Caixa de Pandora. Se for aberto, o mundo cairá em total desgraça. Eu sei como isso se espalha rápido. Não seria a primeira vez. Espero que a última nem chegue a acontecer.

- Porra! – pragueja Pooh, dando um tapa na própria testa. – As amostras!

Virando-se, se dirige até o jipe, tombado. O caminho é barrado por um aglomerado deles, impedindo sua passagem. Faço sinal pra Daniela me seguir, ignorando Lizzy nos observando do alto.

- Não acredito que isso vá durar muito. – falo, enquanto caminhamos lentamente até o corredor por onde viemos. – É melhor nos protegermos antes que eles voltem a si.

- OK! – concorda Daniela, sem olhar pra trás, não dando ouvidos a Lizzy, que nos chama.

De repente, sons de tiros são ouvidos, fazendo-nos voltar o olhar. Pooh descarrega uma saraivada contra os infectados que impedem que ele alcance o veículo. Enquanto eles vão caindo uns sob os outros, em um monte de massa ensangüentado, alguns que ainda estavam no tal transe parecem voltar a si. Quando se jogam contra o grandalhão, vejo que é hora de correr.

Olho por Lizzy, mas apenas vejo suas pernas sumindo por uma janela próxima de onde estava. Enquanto Pooh descarrega sua arma aos berros, fazemos o caminho de volta pelo estreito corredor. Ouvindo os grunhidos nos alcançando, olho de relance pra trás. Há muitos deles vindo. Daniela grita desesperada enquanto corre na frente. Eu só faço respirar ofegante. Devido ao ferimento na coxa, não consigo ser tão ágil como antes. O sangue quente faz doer menos.

- Tiago, aqui!

Vejo-a dar um pulo e agarrar-se ao peitoril de uma janela com a vidraça destruída. Num vacilo quase cai, mas eu a seguro pelas pernas, ajudando-a a entrar. Seu ombro baleado deve tê-la enganado na escalada. Impulsionando-me com a perna boa, consigo segurar e subir, com o apoio da garota, a tempo de sentir mãos deslizando pela minha perna.

Daniela corre e tranca a porta. Um berro atrás de mim me faz virar num pulo, vendo um deles, um homem com metade do rosto arrancada às mordidas, subindo pela janela. Com um soco em seu nariz, faço-o recuar, mas ele se mantém agarrado ao peitoril. Quando ele se impulsiona pra entrar, Daniela vem correndo e lhe dá uma cadeirada na cabeça, derrubando-o.

- O armário, Tiago!

Olho pro lado e vejo o alto móvel de metal. Ajudando-a as pressas, o empurramos, bloqueando a janela. Caio sentado no chão contra o armário, passando as mãos do rosto aos cabelos. Minha respiração está bem descontrolada.

- E agora?

Olho pra Daniela. Ela me encara com as mãos apoiadas sobre uma mesa branca, à espera de uma solução. Há alguma?

- Bom, a gente precisa dar um jeito de trazê-los pra dentro e prendê-los.

- Isso você já falou, Tiago. Mas como faremos isso? Convidando-os pra tomar um chá?

Em outra ocasião, eu até pensaria em rir da piada. Meu coração na goela impede que o riso saia.

- Uma arma viria bem a calhar... – resmunga Daniela. – Mas pelo jeito aqui só deve ter seringas.

Pegando uma injeção sobre a mesa, ela a atira violentamente contra a parede, virando-se e caindo em prantos. Eu sou péssimo pra consolar as pessoas, então fico na minha.

- Abigail estava armada. – lembro-me da emboscada. – E, se não me engano, os capangas dela também estavam. Isso aqui está parecendo bem mais do que um simples laboratório.

Daniela enxuga as lágrimas e olha pra mim, interessada.

- Como assim?

- Bom, está mais do que claro que essa LAQUARTZ ou o quer que seja tem o apoio do exército. Provavelmente há armas aqui, nem que seja uma pistola.

- E você quer sair dessa sala e vagar por um lugar que você nem conhece pra procurar uma possível arma que talvez nem exista? – Daniela me encara com uma expressão de deboche.

- Tem idéia melhor?

A verdade é que eu não sei o que fazer. Estamos num beco sem saída. Coloco o rosto entre os joelhos e penso, penso. O ideal seria explodir esse lugar. Mas tudo que pudéssemos usar como provas em nosso favor se perderia. E explodir como? Minha cabeça já está indo longe demais.

Vários disparos me trazem de volta à realidade. Dani e eu nos olhamos ao perceber que o barulho vem do outro lado da porta. Levantando-me, sinto a perna latejar. Abrindo a porta cautelosamente, vejo a confusão. Lizzy está recuando, atirando contra alguns infectados que a seguem.

- Ei, aqui! – grito.

Ela dá uma olhada rápida pra trás, e continua disparando contra eles.

- Saiam daí e me sigam. – é tudo o que ela diz.

Encaro Daniela.

- Não há saída se continuarmos aqui. – e saio, mantendo-me atrás da mulher.

Daniela vem logo depois.

- Tome. – Lizzy oferece uma das pistolas que está usando. Pego-a sem hesitar. – Sigam por esse corredor e encontrarão uma porta vermelha.

Enquanto dá as coordenadas, continua derrubando os que vão surgindo no fim do corredor.

- Virem à direita dessa porta e contem cinco portas. Entrem nela e me esperem lá. Se encontrarem algum desses filhos da mãe no caminho...

- Não precisa nem mandar. – aviso. Ela nem faz idéia do que passei em minha cidade.

- Por que não vem com a gente? – pergunta Daniela.

- Tenho que encontrar Ivan. Agora vão! – e recarrega sua arma.

Em seguida, derruba mais quatro deles, enquanto corremos pelo caminho indicado. Os corredores são mais longos do que parecem, pois andamos um belo bocado. Assim que chegamos a tal porta vermelha, o aviso em grandes letras amarelas me desperta uma curiosidade repentina.



ENTRADA PROIBIDA



O que há nessa porta? Algo que poderia me ajudar a exterminar esses malditos rapidamente, talvez. Seria bom demais. Num momento de hesitação, nem vejo a mulher sair da porta logo atrás e se jogar sobre mim, derrubando-me. Tentando me desvencilhar dela, agarro-a pelo queixo e jogo-a contra a parede. Procuro a arma, mas não a encontro.

Num repente, só ouço o disparo e, logo em seguida, sua orelha se transforma num esguicho de sangue, fazendo-a capotar bruscamente no chão.

- Tiago, você está bem?

É tudo o que ouço antes de minha visão embaçar e a escuridão tomar conta de tudo.



♦ ♦ ♦



Vagando por entre as árvores altas e densas à beira do rio, mantenho-me fora da visão dos assassinos que vagam por toda parte. Finalmente alcanço a rua principal. O caos é total. Corpos e sangue por toda parte. Carros batidos, casas em chamas. Faz-me lembrar uma cena de um filme de guerra que vi há muito tempo.

Uma mulher surge detrás de uma casa, gritando pela rua, perseguida por duas outras pessoas. Dois homens, com roupas rasgadas e sujas de sangue. Emitem um som assustador enquanto tentam alcançá-la, e conseguem. Jogando-a no chão, a atacam como animais. Assisto horrorizado enquanto um deles morde seu pescoço, dilacerando as cordas vocais, emudecendo-a. Ela ainda esperneia um pouco, mas pára à medida que o outro lhe mastiga um dos seios, por cima da blusa.

Uma voz infantil chama minha atenção.

- Mamãe!

Olho ao redor, mas não vejo ninguém. Quando um deles dá uma parada na “refeição” e olha pra trás, em direção a casa por onde vieram, entendo. Assim que ele adentra a residência como um selvagem, engulo seco ao som dos gritos de agonia da criança. Definitivamente, o inferno tomou conta desse lugar!

Caminhando pelas ruas desertas, tento me manter o mais oculto possível, por detrás de carros, árvores, muros. Preciso encontrar um local seguro, mas à medida que avanço, começo a duvidar que esse lugar exista. Os cadáveres pelo caminho vão formando uma trilha que não parece ter fim. O cheiro de morte se choca contra minhas narinas, fazendo meu estômago revirar. É tudo tão nojento e tão louco que é quase inacreditável. Como um pesadelo real.

Avisto um cão sair de um beco correndo. É um cachorro de porte médio, um Pastor Alemão. Ganindo de medo, é perseguido por um garoto nos seus onze anos de idade, no máximo. Por alguma razão, o infeliz decide olhar em minha direção, e muda seu percurso sem parar. Choco-me contra a grade atrás de mim, assim que ele avança. Quando se joga, gritando, eu desvio e corro. Nem sequer olho pra trás.

Olhando por algum muro baixo que eu possa subir, nem percebo a mulher surgir na esquina e entrar em minha frente. Capotando sobre ela, caímos no asfalto frio. Viro-me e tento fugir, mas a estranha é forte, e me puxa. Só tenho tempo de afastar seu rosto com uma das mãos espalmada. Com a outra empurro seu ombro, mas ela me pega pela camisa e a rasga aos puxões.

Na briga, olho por sobre seu ombro, e vejo o menino se aproximando, rápido. Se eu não me livrar dela agora, vai ser difícil segurar os dois.

De repente, vejo um senhor sair de uma das casas com um facão em punho, em direção ao garoto. Quando o pequeno o vê, muda mais uma vez o alvo, mas é atingido em cheio no crânio pela lâmina. Sua cabeça praticamente parte ao meio.

Diante da violenta cena, me descuido por um segundo de minha atacante, permitindo-lhe investir e abocanhar em minha direção, mas a afasto mais uma vez com as mãos. Em seguida, empurro-a com os pés, fazendo-a cair de costas na calçada. Nem bem ela levanta pra outra investida, sua cabeça é lançada contra a parede, espirrando sangue por toda parte. Quando seu corpo cai, inofensivo, olho pra cima.

- Vamos! Podem aparecer mais deles. – e me dá a mão.

Sem emitir uma palavra, aceito-a e me levanto, limpando a sujeira do asfalto de minha roupa. Seguindo o velho, entramos em sua casa.

- Por sorte eu te vi correndo, garoto. Se aquele malditozinho tivesse te alcançado... – e solta uma risada baixa e nervosa.

Tudo que consigo fazer é me sentar no grande sofá marrom e olhar pra baixo, regularizando minha respiração. Minhas mãos estão trêmulas. Também, pudera. Há pouco, se esse homem não tivesse aparecido, eu teria virado presa fácil praqueles dois.

- Que diabos foi aquilo lá fora? – é tudo que posso dizer, sem tirar os olhos do chão.

O velho se dirige a cozinha logo ao lado, próximo o bastante pra conversar comigo.

- Tudo começou há duas noites. Eu estava saindo com minha velha da igreja quando vimos a confusão na quadra debaixo. No início, achamos que fosse uma briga, mas quando eles caíram no chão uns sobre os outros e os gritos começaram, percebi que era bem mais sério. Assim que o grupo de curiosos aumentou a nossa volta, os envolvidos na tal briga se voltaram em nossa direção, e vieram. Rápidos como demônios. Alguns recuaram, mas outros permaneceram imóveis. A curiosidade era maior.

Enquanto narra o acontecido, vai preparando um chá, tremendo. Parece tenso. Na verdade, não me chama atenção. A situação não é própria pra acalmar os nervos.

- Decidi tirar minha velha dali, sentindo-a puxar meu braço. Ela pressentia quando coisas ruins estavam prestes a acontecer, e essa foi uma das vezes. A última. – se cala por um momento, fitando a fumaça saindo do bule. – Ainda caminhávamos em direção ao carro quando os gritos começaram. Foi tudo muito rápido. As pessoas começaram a pedir socorro, a correr, a cair, a atacar umas as outras. Apressamos o passo e atravessamos a rua, alcançando nosso carro. Assim que entrei, abri a porta do carona pra minha velha entrar, mas um homem a atacou. Só tive tempo de ver o sangue espirrando contra o vidro, enquanto ele a puxava pro meio da rua, com os dentes cravados em seu ombro.

Uma longa pausa. Um silêncio constrangedor. Ele tira o bule do fogo e pega duas xícaras na prateleira acima.

- Saí do carro tão rápido quanto pude, mas era tarde. Assim que os olhei, o carro desgovernado os atingiu, arremessando-lhes pra longe. Vi seu corpo rolar pelo asfalto e chocar-se contra a guia, imunda. Corri até ela sem me dar conta do perigo. Levantando sua cabeça, vi que ainda respirava. – a história vai me cortando o coração aos poucos. – Ela tentou dizer algo, mas só o sangue saiu de sua boca. Num último suspiro, ela me mandou sair dali. E eu saí. Assim que entrei no carro e dei a partida, olhei pra frente e a vi levantando-se. Ela estava viva. De alguma forma, antes de morrer, ela encontrou forças pra se erguer. Minhas esperanças morreram no momento em que ela se jogou contra o para-brisa, gritando descontrolada. Aquela não era minha velha. Num arranque, saí dali, vendo-a rolar pelo capô e sumir.

Após despejar o chá nas xícaras, ele vai até o armário e abre um pacote de bolachas de água e sal. Enquanto vai colocando-as uma a uma em um prato, continua.

- Quando cheguei em casa, tentei alertar os vizinhos, mas eles já pareciam saber o que estava acontecendo, pois nem sequer abriram a porta. Vim pra cá e me tranquei. Pela janela, vi alguns serem mordidos e se transformarem nos mesmos loucos que os atacaram. Parecia uma doença contagiosa. Na rádio local, informaram que todos permanecessem em suas casas e que não tentassem sair da cidade, pois havia um esquadrão do exército atirando em tudo que se aproximasse. Tudo. A cidade parecia estar em quarentena. O pior é que ninguém sabia o que de fato estava acontecendo. E até o momento, sei tanto quanto você, meu rapaz.

Aproximando-se, me entrega a xícara quente, depositando o prato com bolachas sobre a mesa de centro. Sentando-se na poltrona ao meu lado, sorri.

- E você? Qual é sua história?

Dou uma curta golada no chá e o encaro. Enquanto conto como fui parar ali, tento evitar que ele perceba a mordida em minha mão.



♦ ♦ ♦



- L.C., precisamos de reforços. – a grossa voz é o primeiro som que ouço assim que abro os olhos.

Levanto-me apoiado nos braços, sentindo a cabeça dolorida. Daniela me olha, preocupada.

- Você tá legal? – pergunta.

Afirmo balançando a cabeça. Lizzy se encontra sentada do outro lado da sala, sobre uma mesa. Quando me vê levantar, vem até mim.

- Há quanto tempo você não come, garoto?

- Pode ter certeza que esse desmaio não foi devido à fome. – respondo, fitando-a nos olhos.

- Cara, isso aqui tá ferrado! – grita Pooh em um aparelho que lembra muito um Walk-Talk. Talvez seja um. – Você não vai acreditar!

- Se não foi fome, o que foi então? – pergunta a mulher, desafiando-me.

- Quanto tempo eu fiquei desacordado? – mudo de assunto.

- Duas horas e meia. – responde ela, não tirando seus olhos dos meus.

Putz, foi uma bela soneca a que eu tirei!

- O que aconteceu?

- Bom, a Daniela te arrastou pra cá e me esperou, enquanto fui procurar Pooh. O encontrei no andar de cima em uma sala, cercado por sete pessoas. Pessoas... Humpf! Depois que o ajudei, acabamos ficando presos em outra sala, e saímos pelo duto de ventilação. Chegamos ao refeitório e fomos cercados novamente. Nossa munição quase acabou, mas conseguimos. Eram muitos. Pareciam animais, estavam completamente fora de si. – e aponta pra Daniela. – Agora entendemos o porque. Sua amiga nos contou o que vocês passaram em sua cidade. Você foi muito corajoso, Tiago.

Passo as mãos pelo rosto e respiro fundo. Nunca é bom lembrar tudo que aconteceu, embora esses pensamentos estejam sempre comigo. Olho pra minha mão direita e vejo a leve cicatriz que a mordida daquele dia me deixou. E aquele velho... Ele me ajudou. E agora está morto, tudo por causa dessa mordida. Espero que me perdoe onde quer que esteja.

- Meu nome é Elizabeth. – se apresenta ela, deixando de ser apenas Lizzy, e aponta para Pooh, que permanece em sua ligação. – Ele é Ivan.

- Eles estão aí fora? – pergunto, apontando pra porta com a cabeça e ignorando a apresentação. – Os infectados. Nos cercaram também?

- Quando conseguimos chegar aqui, muitos ainda nos seguiam. Nos cercaram sim, mas isso há pouco mais de uma hora. Os barulhos pararam. – responde a agora Elizabeth.

- Bom, então a gente precisa dar um jeito de prendê-los aqui dentro, ou matá-los. – me levanto sentindo o corpo pesado. – Não posso permitir que tudo recomece.

- Nem quer saber quem somos? – pergunta ela, num ar intrigado.

- Moça... Elizabeth. – olho-a nos olhos. – A única coisa que me importa agora é evitar que eles escapem. O resto eu vejo depois.

Ela aceita o argumento inexpressiva. Apenas devolve o olhar penetrante. Então, se vira ao seu parceiro, que parece ter terminado a conversa no aparelho.

- Já chamei reforços. – explica Ivan, me olhando. – Mas perdi a freqüência. Ou melhor, acho que ele desligou na minha cara. Não gostou muito do que aconteceu.

- Nós não temos culpa! – questiona Lizzy. – Você contou sobre seu relato?

E aponta Daniela, que apenas observa, calada.

- Achei melhor conversar sobre isso pessoalmente. – diz ele, guardando o Walk-Talk na cintura e sacando sua submetralhadora. – Meio difícil acreditar nisso quando te contam cara a cara, imagina pela rádio.

Ela concorda com uma careta, e volta à mesa onde estava, sentando. Pooh recarrega a arma concentrado. Dani e eu mantemos um contato mudo, apenas com o olhar. Um olhar apreensivo, com medo do que possa acontecer.

- A gente vai ficar esperando aqui? – explodo. A tensão está me matando. – Se a Daniela lhes contou sobre o estrago que fizeram no interior, vocês devem saber que se isso se espalhar aqui na Capital, será o fim.

- O que você propõe fazer, valentão? – debocha Pooh, engatilhando a arma.

- Eu não sei quem vocês são, mas vi o que podem fazer. Se conseguiram escapar daquela multidão, então podem destruí-los antes que escapem. Precisamos trazê-los pra dentro e dar um jeito de prendê-los. Se vocês não fizerem nada, eu faço. – e me dirijo à porta, destrancando-a.

Eles se olham por um breve instante.

- OK! – Pooh vem até mim. – Mas eu vou na frente.

Tomando a dianteira, ele sai pelo corredor, seguido por nós. Lizzy vai por último, nos cobrindo. Tudo se encontra muito quieto. Será que eles entraram naquele transe de novo?

Um gemido nos deixa alerta. Pooh faz sinal pra fazemos silêncio e pomo-nos a escutar. Um gemido baixo e abafado, que vem da porta vermelha adiante. Nos dirigimos até ela em passos curtos e permanecemos calados. Cautelosamente, o grandalhão gira a trava da porta e a abre, com a arma empunhada.

O corredor que se segue abriga cinco câmaras de vidro de cada lado. Em cada uma delas, há uma pessoa e uma ficha presa à porta. Seis estão imóveis, caídas. As outras quatro vagam sem rumo, enclausuradas e nuas. Sua aparência me dá um misto de pena e nojo. Estão quase cadavéricos, completamente desnutridos, com pouco cabelo, alguns totalmente carecas. Andam com tanta dificuldade que não parecem apresentar qualquer perigo. Emitem um gemido baixo assim que nos percebem. Encostando contra o vidro, seus olhares perdidos em fundas olheiras clamam por algo. Comida? Água? Sangue?

- Mas que diabos...? – Elizabeth resmunga, engatilhando sua pistola.

Andamos pela sala, observando-os de perto, enquanto nos seguem, sujando o vidro com sangue e saliva em pouquíssima quantidade.

- O que esses pobres coitados estão fazendo aqui? – pergunta Pooh, com um olhar indignado. – O que essa maldita LAQUARTZ fez?

- Você sabe do que eles são capazes, tanto quanto eu. – Lizzy observa um em especial. Uma mulher. – Você sabe do que Abigail é capaz.

O nome pronunciado me desperta. Abigail. O que será que aconteceu a ela? Não duvido nada que tenha conseguido escapar. Mas, naquele corredor cheio de infectados, seria muita sorte...

- O que sabem sobre Abigail? – pergunto, fitando-os.

A dupla se olha por um momento, então Pooh se volta às cobaias presas. Lizzy mantém um olhar vago, até que me encara.

- Abigail é minha mãe.

Nem tenho tempo de raciocinar devido ao choque que a informação me causa e ao barulho de passos vindo do corredor. Alguém correndo, o que faz todos se voltarem à porta, entreaberta. A mulher vai até o corredor com a arma erguida, mas não vê ninguém.

- Se quer trazê-los pra dentro, Tiago... – e me olha. – Melhor sermos rápidos!

Vagando pelos corredores que parecem não ter fim, não encontramos um infectado sequer. Só papéis espalhados, alguns corpos caídos e muito sangue. O aparelho de Pooh apita alto, assustando a mim e a Daniela.

- Pronto!

- Pooh, estamos do lado de fora da LAQUARTZ. Conseguem chegar aqui? – uma voz masculina fala do outro lado.

- Acho que sim, LC. Como está aí fora?

- Bom, cara. – dá uma pausa. – Aqui está bem calmo.

O ênfase no “aqui” não me agrada muito.

- Pode vir sem medo. Não to vendo ninguém.

- OK! – Pooh desliga.

Sem dizer uma palavra, retoma o percurso até a recepção. Passando por uma porta aberta, uma pilha de papéis no chão me chama atenção. Na verdade, uma foto. Entro na sala bagunçada sem nem perceber, guiado por uma força maior. Abaixando-me, pego a foto e observo. Não acredito no que vejo. Como essa foto veio parar aqui?

Assim que me levanto e guardo a foto num dos bolsos, dobrada, Lizzy aparece.

- Ei, caminho errado! – mais uma vez, a costumeira careta.

Sem questionar, a sigo. Chegamos à recepção logo em seguida, onde a desordem toma conta. A porta de vidro da frente se encontra estraçalhada. Cacos ensangüentados se espalham por todo o local. Daniela é ajudada por Pooh a atravessar os cacos, pois ainda está descalça.

Do lado de fora, é fim de tarde. A brisa fria me faz tremer. Ainda não coloquei uma camisa. O frio não é nada diante da cena que se segue. Não há absolutamente ninguém no pátio. Olhando adiante, sinto meu coração ser esmagado por uma mão gigante. O portão está tombado. Eles conseguiram escapar.

Saindo do complexo, uma grande Van preta nos espera. Há o motorista, um rapaz jovem de cavanhaque e com entradas no cabelo, e uma garota mulata, com cabelo Canecalon amarrado em uma trança nos observando curiosos.

- Vocês não mencionaram companhia. – dispara o rapaz, desconfiado.

- Está tudo bem, LC. – avisa Elizabeth.

Indo para a parte detrás do veículo, Pooh abre a porta, onde há mais quatro pessoas. Nem sequer os olho direito, pois o que vejo mais adiante é muito mais importante. Uma visão assustadora.

Helicópteros sobrevoam a grande São Paulo, sobre fumaça e fogo. Destruição total. Uma explosão ao longe, no alto de um prédio, nem me permite ouvi-la, mas faz-me sentir. Sentir as esperanças morrerem.

Começou tudo de novo.

 
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16 mordidas:

Juão disse...

Tiago é imune?
é a cura?
aiaiiaa
e o inferno reacende

26 de setembro de 2008 18:00
Iury disse...

Perfeito como sempre... E em
consideração a ''cicatriz'' de
mordida na mão do Tiago ou ele não
tem muito tempo, ou é imune, acho.
mais provavel a opção 2. Ele deve ter
Alguma coisa no sangue e_ê...

27 de setembro de 2008 02:31
Huntress disse...

A doença dele deve ter criado alguma imunidade pro vírus.. Isso me lembrou o menino asmático de Sinais.
Caraleo.. São Paulo Infectada.. é o apocalipse...

18 de fevereiro de 2009 07:14
Bodones disse...

haaaaaaa por isso prefiro mora aki no meo finde mundo ;xxx

19 de fevereiro de 2009 05:25
Erukusu disse...

Pensei que o Ursinho Pooh tinha virado um.

Thiago imune. ¬¬
Não virando um cara superpoderoso, ok.

15 de julho de 2009 23:20
Um Par disse...

coitados!! tudo outra vez...e parece que foi o tiago que matou o senhor..

:S

13 de agosto de 2009 18:43
Felipe disse...

kkkkk q massa,mas afinal de contas os infectados parecem com o filme Exterminio,se q o narrador so fala q mordem ,e ela eles atacaum ate a mae xD

8 de outubro de 2009 17:21
Anônimo disse...

eu aposto q o pai dele tem a ver com o virus

24 de fevereiro de 2010 17:25
Matheus Parkour disse...

tente usar menos a frase : "só tive tempo de..." falou?

10 de março de 2010 13:31
Anônimo disse...

Então o tiago é imune. Aposto que o pai dele tem haver com o virus[2]
Esse tal liquído roxo que ele injetou assim que chegou em casa após a infecção começar, certeza que não era remédio coisa nenhuma! Ele era uma cobaia. Sem nem saber, ainda mais depois de achar uma foto dele no laboratório.

30 de agosto de 2010 14:44
marcos disse...

Tiago bem para mim vc e o cara que virou um zumbi pela mordida e a suspeita de vc ter matado o velho mais se não foi isso vc achou a cura e a gente não sabe

19 de outubro de 2010 16:30
felipe disse...

Uma questao
o Tiago e imuni?
ele tem o D.N.A alterado geneticamente ou naturalmente?
Naturalmente quer diser se ele ja nasceu imuni ao virus O_O


espero que responda
Vlw ^-^

9 de fevereiro de 2011 18:47
felipe disse...

mais uma pergunta

como jogo TERRA MORTA RPG ONLINE ?

espero resposta O_O

9 de fevereiro de 2011 18:48
Anônimo disse...

Acho que o pai dele trabalhava pra LAQUARTZ e inventou o virus zumbi e prevendo que as coisas ficariam fora do controle ele fez o Tiago tomar esse "remedio" roxo mas esse liquido deve modificar o virus transformando em uma cura caso o Tiago fosse contaminado e como ele foi contaminado ele tava com a cura otempo todo e nem sabia

ASS:Jadson Kira

17 de fevereiro de 2011 12:33
Thiago disse...

Dra. Abigail disse que Tiago era uma pessoa "especial". Ela deve ter se referido a essa tal "imunidade" dele...
Quanto a história, magnífica. Diferente das outras histórias de zumbis. Infelizmente minhas esperanças de sua história virar filme está longe da realidade, já que estamos no Brasil e o investimento em filmes nesse país é muito baixo. Seria muito legal termos um filme sobre apocalipse zumbi produzido no Brasil, com as ruas de nossas cidades na grande telona.

Obs: Meu nome também é Thiago, mas com H. Só pra constar mesmo. xD

Abraço!

12 de abril de 2012 20:31
Tiago Toy disse...

Quantas teorias!
Será que alguém acertou?
Só saberão quando a saga Terra Morta estiver completa!

Sejam bem-vindos novos infectados, e aos antigos, espero que continuem sobrevivendo.

Grande abraço!

6 de julho de 2012 23:52

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