Capítulo 14 - Sobreviventes


Regina Ribeiro – 16h45min

Os corredores do hospital estavam mais movimentados do que de costume. Macas com feridos não paravam de chegar. A maioria vítima de acidentes automobilísticos. A Zona Leste de São Paulo estava um caos, e ninguém sabia o motivo.

No quarto 415, Regina estava apreensiva em sua cama, esperando a enfermeira para finalmente entrar em trabalho de parto. Os longos e negros cabelos grudavam em seu ombro devido o suor excessivo. Era seu primeiro filho, e ela esperava que lhe trouxesse algum conforto, uma mudança boa em sua vida. Os últimos meses não foram nada agradáveis.

Passados alguns minutos, Regina começou a sentir-se incomodada com a demora. Já não bastasse a ansiedade que não a deixava de jeito nenhum, ainda tinha que suportar o incômodo da espera.

- Daqui a pouco você vai sair desse espaço apertado, viu? – falava ela docemente enquanto alisava o barrigão. – Mamãe vai te proteger e te mimar muito.

Um grito ao longe chamou sua atenção. Em seguida, o som de um grande alvoroço invadiu pela janela.

- O que está acontecendo?

Olhando a porta entreaberta, Regina não via nada. Ninguém passara nos últimos dez minutos, se ela contara direito. Um grito próximo ecoou pelo corredor, fazendo-a quase pular do leito. Levantando com certa dificuldade, postou-se de pé ao lado da cama, receosa. Com passos curtos, alcançou a porta e olhou. Ninguém no corredor. Que estranho!

Caminhando lentamente e apoiando-se nas paredes, chegou ao quarto vizinho, ocupado pela colega de gravidez que fizera no hospital.

Uma mulher por volta dos cinqüenta anos, em estado deplorável, emitia um som de que estava comendo algo com voracidade ao lado da cama de Darla, sua colega, que permanecia imóvel. Dormindo, provavelmente. Como a estranha estava de costas, era impossível saber o que ela estava fazendo.

- Com licença... – disse Regina, arrependendo-se no mesmo instante.

Tentara calar-se assim que viu a poça de sangue aos pés da mulher, mas foi em vão. Assim que ela virou-se, Regina pode vê-la segurando algo. Não conseguiu identificar de imediato, mas assim que viu um pequeno pé se soltando da massa disforme e caindo no chão, não teve dúvida. Com um olhar curioso, a estranha deu um passo lateral, dando visão à Darla. Regina quase vomitou diante da cena, emitindo um grito mudo.

Sua colega encontrava-se deitada, com a barriga rasgada, destruída, e pedaços de carne e tripas ao seu lado, manchando o lençol de vermelho. Uma expressão de pavor tomava conta de sua face.

Jogando violentamente o pequenino cadáver contra a parede, a estranha avançou contra Regina, que foi mais rápida, puxando a porta e batendo-a com força. Fortes pancadas faziam a madeira tremer, dando a impressão de que cederia logo. Olhando pros lados, a grávida avistou um carrinho onde as enfermeiras levavam a comida bem ao seu lado, e o puxou. Era alto o suficiente pra impedir que a maçaneta da porta girasse pra baixo. Bloqueando-a, correu até seu quarto, trancando a porta, bem a tempo de evitar que o causador do som de passos que surgira repentinamente a alcançasse.

Indo até a janela e ignorando os berros e pancadas contra a porta, viu o caos dois andares abaixo. Uma ambulância derrubara um poste, que caíra na vidraça da recepção do hospital. Pessoas corriam aos berros, perseguidas por outras. Havia sangue no chão. Muito sangue. Ao longe, avistou um helicóptero, onde alguém atirava em direção as ruas.

- O que está acontecendo, meu Deus?



Yulia Smirnov – 16h47min

Sentada no último banco do vagão do metrô, Yulia ouvia uma cantora russa pelo discman no último volume. Além de fazer a viagem parecer mais curta, impedia que as pessoas puxassem assunto. Depois de uma viagem tão longa, tudo que queria era cair na cama e dormir, e não conversar.

Vestia um casaquinho marrom de couro, com alguns bótons, sobre uma blusinha curta de malha branca aberta, deixando sua barriga à mostra. Os seios, medianos e empinados, eram bem visíveis devido a blusa preta e decotada colada ao seu corpo. Duas fitas vermelhas caíam pela lateral da roupa. A saia de pregas cinza deixava suas lindas e bem torneadas coxas como em uma exposição, onde nenhum dos homens presentes no vagão conseguia evitar de olhar. Alguns nem se davam ao trabalho, admirando descaradamente. A garota parecia gostar, ainda que fingisse não perceber. Cruzando as pernas, roçou as longas botas de couro preto sem salto uma na outra. Puxando a toca do casaquinho, fechou os olhos, ignorando o homem ao seu lado, que só mexia a boca enquanto ela curtia a música.

Um solavanco a fez cair de joelhos no chão. Assustada, levantou-se rápido. Não fora a única a cair. Várias pessoas levantavam, atordoadas. Alguns xingavam irritados, mas ninguém ajudava ninguém. Todos estavam muito preocupados com si próprios. Nem mesmo a senhora que caíra de costas contra a porta recebera um apoio para levantar-se.

Yulia colocou sua mochila nas costas e foi até a idosa, oferecendo-lhe as mãos. Com um sorriso tímido, ela aceitou, mantendo-se em pé. Yulia olhou para os lados e não encontrou onde ela pudesse se segurar. O banco ao lado era ocupado por um rapaz na faixa dos vinte e cinco anos, com estilo de rockeiro. A garota o cutucou, apontando a senhora com a cabeça. O garoto a olhou dos pés a cabeça, e virou o rosto, ignorando. Sem muita paciência, Yulia o pegou pela camisa e puxou-o para o outro lado, fazendo-o quase cair novamente, permitindo que a senhora sentasse.

Virando-se, não percebeu o rapaz aproximando-se rápido, com um dedal nas mãos, pronto para atingi-la. No exato momento em que ele se preparava para golpeá-la, um barulho de vidro quebrando seguido de um grito feminino lhes chamou atenção, fazendo todos se voltarem ao som.

No fim do corredor, uma mulher gritava e esperneava enquanto um homem todo ensangüentado a mordia violentamente no rosto. Todos se afastaram, à medida que o estranho ia atacando outras pessoas. A confusão era tamanha que se tornou quase impossível entender o que estava acontecendo. Enquanto os passageiros batiam contra as portas, tentando abri-las, já que o metrô não voltara a movimentar-se desde o solavanco, Yulia foi até a última janela e, com um chute preciso, a quebrou, por onde pode sair, quase sendo jogada pelos empurrões.

Conseguindo manter-se segura na passagem lateral do túnel, viu vultos aproximando-se na escuridão, também pelas laterais. Recuando um passo, teve a visão bloqueada pelos passageiros que saíam pela janela. Em questão de milésimos de segundos, os vultos atacaram-nos.

Olhando pra trás, Yulia pode perceber que o túnel era iluminado por pequenas lâmpadas fluorescentes o suficiente para que ela seguisse até a saída. Correndo, não pode deixar de notar as centenas de pedaços de corpos espalhados pelos trilhos completamente ensangüentados. Então esse era o motivo do acidente. Mas o que essas pessoas estavam fazendo no túnel do metrô?

À medida que avançava, os gritos tornavam-se distantes, trazendo um silêncio aterrador, enquanto algumas lâmpadas teimavam em falhar. Depois de alguns minutos, Yulia avistou uma luz no fim do túnel.



Conrado Ceschin – 16h55min

Enquanto o noticiário informava sobre os inexplicáveis ataques, a garota, de quatro sobre a cama, segurava as lágrimas a cada estocada de Conrado. Ele penetrava com violência, xingando nomes como “putinha” e “piranha”, e vez ou outra aplicando fortes tapas nas nádegas já avermelhadas.

– Tá gostando, putinha? – sussurrava. – Diz que tá gostando, piranha!

Em êxtase, ignorava a TV sem volume. Cravou os dedos na pele sedosa da garota – que não devia estar muito além na maioridade – e começou a tremer e gemer alto, alcançando o clímax. Ainda gozando, a empurrou para o chão e caiu na cama apalpando o próprio membro. Se contorceu um pouco até se acalmar num suspiro áspero.

- Vá se lavar, depósito de porra. Você tá fedendo.

A jovem pegou suas roupas lentamente, enxugando algumas lágrimas que teimavam em escapar, e foi até o banheiro.

Conrado era um quarentão bem enxuto, de cabelos ralos e grisalhos e profundos olhos azuis. Seus braços grossos lhe davam um ar jovialmente saudável. Enquanto alisava o próprio peito coberto por pêlos brancos e encharcado de suor, acendeu um charuto importado e bombardeou o quarto com o cheiro nauseante da fumaça.

Sentando-se, abriu a gaveta do criado-mudo ao seu lado, onde pegou um revólver equipado com um silenciador. Pela fresta da porta do banheiro, olhava a jovem de costas, enquanto ela lavava o rosto na pia, vez ou outra soluçando, em ânsia.

Inclinando a cabeça com olhos levemente cerrados, Conrado mirava a arma de cima a baixo, como se alisasse a garota à distância. Respirando fundo, deslizou o dedo pelo gatilho, quando uma explosão do lado de fora chamou sua atenção. O mais estranho foi que o barulho aconteceu no mesmo momento em que um caminhão explodira na TV, no noticiário.

Correndo até a janela, presenciou a mesma cena que sucedia na tela do televisor, cinco andares abaixo. Um caminhão de bombeiros entrara com tudo no restaurante da esquina, transformando-se numa bola de fogo. Pessoas corriam desesperadas, algumas em chamas. Observando atento, percebeu que algumas atacavam as outras, que por sua vez, após um curto espaço de tempo, atacavam outras.

- O que aconteceu?

Conrado olhou pro lado e viu a jovem já vestida, com a maquiagem borrada. Estava trêmula, com uma expressão enjoada. Ignorando-a, voltou à cena logo abaixo. Assim que viu um numeroso grupo de pessoas correndo pro saguão de seu prédio, correu até a TV, aumentando o volume.

- O motorista provavelmente morreu no impacto. – dizia a repórter, visivelmente tensa, andando em passos apressados, seguida pelo câmera man. – Pelo que pudemos perceber, um homem se pendurou na janela do veículo e atacou os bombeiros, resultando o acidente. As pessoas continuam atacando umas as outras sem motivo. São Paulo está um caos! Não sei quanto tempo...

- Alice, corre! – gritou o câmera man.

Pela câmera tremendo, Conrado pôde ver pessoas perseguindo-os aos berros. A repórter tropeçou, sendo alcançada. À medida que seu parceiro se afastava, os gritos da mulher ficaram para trás. Nesse exato momento, gritos foram ouvidos no corredor.

Colocando rapidamente a calça de linho, o terno cinza jogado sobre a cama e os sapatos sociais, correu até a porta e abriu-a lentamente. Não viu nada, mas uma confusão era ouvida do quarto no fim do corredor. Chamando a garota com um sinal, ergueu o revólver e os dois colocaram-se a recuar em passos rápidos no sentido contrário.

Quando seis estranhos surgiram pela escada, aparentemente fora de si, e começaram a correr, Conrado viu que eram muito rápidos. Simplesmente apontou a arma para o joelho da jovem e atirou, pondo-se a correr. Assim que saiu pela janela e viu-se descendo a escada de emergência, não ouviu mais os gritos de dor de sua vítima.

Pegando o celular no bolso do terno, discou alguns números, mas o susto provocado pelo homem que surgira na janela logo acima o fez se desequilibrar e soltar o aparelho, que se espatifou alguns andares abaixo.



Pablo Bianchinni – 16h59min

O quarto se encontrava em total penumbra, exceto pelo abajur sobre a escrivaninha ao lado da cama baixa e bagunçada. O homem envolto nas sombras olhava o saquinho em sua mão, girando-o lentamente, com olhos fixos. Uma gota de suor deslizava pelo seu rosto, de aparência desgastada, perdendo-se entre os pêlos do cavanhaque.

Abriu o saquinho. Fechou. Olhou pros lados. Abriu novamente. Aproximou do rosto. Fechou e o afastou. Pressionou os olhos com os dedos. Abriu mais uma vez. Fechou e guardou-o no bolso. Levantou-se e abriu a porta, deixando a forte sol invadir o cômodo escuro.

Estava tudo deserto, exceto pelo pastor alemão parado em frente a sua porta. Os dois se entreolharam, imóveis. Pablo cerrou a sobrancelha e o animal balançou a cabeça duas vezes. Em seguida, encostou o focinho molhado no bolso da calça jeans, cheirando e emitindo um baixo ganido.

- Relaxa, Thor! – sussurrou Pablo, alisando a cabeça do cão. – Eu tô limpo!

Trancando a porta, saiu para uma volta, seguido fielmente pelo animal. O corredor se encontrava sujo o bastante para afastar qualquer possível hóspede. Mas não Pablo. Não havia lugar melhor no momento que esse. Vazio, antigo, escuro, esquecido. Ótimo pra refletir. Perfeito para não ser lembrado.

Passando pela recepção, não viu ninguém. A TV se encontrava fora do ar, com um chiado ensurdecedor no volume máximo.

- Olá?

Ninguém. Debruçando sobre o balcão, percebeu que o local estava vazio. Que ótima gerência! Jogando a chave sobre um pequeno armário por trás do balcão, saiu.

A rua estava tão vazia quanto o interior da pensão. Mas não era a falta de pessoas que chamou atenção, e sim os carros batidos na esquina adiante. Bolsas caídas pela calçada, veículos parados com as portas abertas. Estranho!

Thor correu até o fim da rua, em sentido contrário ao que Pablo seguia. Olhando pros lados, não via uma alma viva. Nada. Olhando pra baixo, apalpou o bolso e constatou que o saquinho ainda estava ali, intacto.

No momento em que se deu conta dos latidos de Thor, olhou pra trás e sentiu o coração saltar. Uma multidão corria em sua direção, virando a esquina. Recuou com dois passos em falso, mas assim que o cão o ultrapassou, pôs-se a correr.

- Cara, que viagem! – gritava ele.

Quase não se ouviu, devido ao barulho aterrador que os estranhos emitiam. Berravam como animais. Corriam como animais. Algo dizia que o matariam como animais. À medida que avançava, mais pessoas se juntavam aos perseguidores, vindos de dentro dos prédios ou surgindo dos becos e esquinas. Virando a terceira quadra, avistou Thor voltando. A praça adiante estava infestada deles.

Seguindo o som de um alarme incessante, avistou um carro parado. Por sorte, tinha a chave no contato. Entrou e bateu a porta e, no momento em que deu partida, o cachorro entrou pela janela do carona. Afastando-se rápido, olhava pelo retrovisor e via a multidão o perseguindo. Thor não parava de latir. Estava agitado, e com razão. Que diabos foi aquilo?

Na fuga, atropelou umas sete pessoas. Todas teimaram em se jogar contra o veículo. Estavam fora de si. Mantinha as mãos firmes envoltas na manga do moletom roxo contra o volante. Seus olhos dançavam de um lado pro outro. Sentia o coração mais acelerado do que o normal.

Ligando o rádio, demorou até conseguir estabelecer sintonia.

- Não sabemos o que está acontecendo, mas estamos tomando as devidas medidas. – dizia uma voz séria no rádio. – Pedimos que não saiam de suas casas e não entrem em contato com essas pessoas. Elas são extremamente perigosas e atacam sem pensar. Repito! Não saiam de suas casas!

Olhando pelo vidro, Pablo viu uma mulher se debatendo contra o vidro da janela do segundo andar de um prédio. Estava sendo atacada por alguém.

- Grande ajuda ficar em casa, ela diz! – comentou ele, apontando-a para Thor, que ainda não se acalmara.

Passando por cima de um corpo estendido na rua, fez o rádio perder a sintonia, chiando. Tentando reajustar, não viu o cavalo surgir na esquina. Alertado pelos latidos, conseguiu desviar a tempo, entrando em um beco e batendo numa pilha de sacos de lixo.

Thor não parava de latir.



Regina Ribeiro – 17h11min

As batidas na porta pararam há algum tempo, fazendo Regina pensar que era seguro sair. Realmente parecia, pois abrindo a porta viu que o corredor estava vazio. As pegadas de sangue mostravam que a mulher tinha ido embora. Pegou sua bolsa no armário e saiu.

Quase voltou a se trancar quando avistou pessoas no fim do corredor, correndo e gritando. Felizmente, não vinham pra esse lado. Cautelosamente, encostou a porta e caminhou, apoiando-se nas paredes. Alcançando o elevador, apertou o botão várias vezes.

Algo chamou sua atenção, fazendo-a olhar para o lado, onde viu a mesma mulher que tentara atacá-la antes correndo em sua direção. Sem conseguir correr, socou a porta do elevador, que surgiu logo em seguida. No exato momento em que a estranha a alcançou, a porta se fechou. Essa foi por pouco!

Chegando ao estacionamento no subsolo, constatou que não havia ninguém, embora a escuridão a impedisse de estar cem por cento certa. Procurou na bolsa durante alguns segundos e encontrou a chave.

Seguindo entre os veículos, avistou seu carro, mas foi obrigada a esconder-se atrás de um pilar quando viu um vulto vagando próximo. Segurando a respiração, tentou escutá-lo, enquanto caminhava sem rumo.

Uma contração muito forte fez Regina gritar de dor. O estranho começou a berrar no mesmo instante, enquanto corria por entre os carros, procurando-a. Segurando a barriga como se a mesma fosse despencar de seu corpo, caminhou por trás de uma caminhonete abaixada, esforçando-se para não gritar de novo, com os dentes cerrados. Num ato de desespero, correu em direção ao seu carro, com o braço esticado, ouvindo o perseguidor logo atrás.

Rapidamente destrancou a porta e entrou, salvando-se no último instante. Completamente descontrolado, o homem se jogava contra a porta berrando e babando sangue. Regina gritava tentando encaixar a chave no contato. Quando conseguiu e saiu batendo nos carros ao lado, derrubou o homem e saiu com tudo pela rampa, chegando à rua, que se encontrava em total desordem.

Desviando dos vários carros desgovernados que surgiam por todos os lados, Regina se afastou em velocidade máxima do hospital.

Arregalando os olhos num arfar, olhou pra baixo. Suas pernas estavam encharcadas e o chão do carro inundado.

Sua bolsa estourara.



Yulia Smirnov – 17h19min

Túneis de metrô não pareciam tão grandes estando dentro do veículo. Andando era outra história. O pior era a falta de iluminação. Tropeçara muitas vezes na caminhada.

Não conseguira usar o celular por estar fora de área. Tentara bem mais de cinco vezes.

Chegando à estação, viu que não havia ninguém. Cestos estavam caídos, espalhando sujeira. Pertences pessoais de todo tipo eram vistos pelo chão, de canetas e bolsas até um Notebook. Tentando mais uma vez, conseguiu ligar o celular. Porém, o número discado encontrava-se desativado.

Praguejando, Yulia subiu rapidamente as escadas. Quando viu algumas poucas pessoas na saída, onde uns matavam aos outros, foi mais cautelosa e, com passos rápidos e precisos, alcançou um dos guichês, escondendo-se. Encontrando um telefone, tentou mais uma vez ligar para o tal número, mas foi em vão.

Olhando pra cima, viu um homem a observando, com um olhar de raiva. Levantando-se rápido, golpeou o vidro com o telefone e pegou um pedaço de vidro, acertando o pescoço do indivíduo no exato momento em que ele a atacara. Cuspindo sangue e cambaleando, caiu, esvaindo em sangue. Yulia aproximou-se, colocou o vidro em sua boca e pisou forte com a bota, cessando sua dor.

Avistando uma viatura policial parada do outro lado da rua, viu que era sua única chance. Inicialmente devagar, saiu em disparada até o veículo, desviando das pessoas que investiam contra ela. Alcançando-o, entrou e bateu a porta com tudo, travando-a. Cercada por um numeroso bando, abriu o porta-luvas e encontrou exatamente o que procurava. Uma arma.

Infelizmente, era impossível sair, mesmo armada. Passando a mão por dentro da bota direita, pegou um canivete e cravou-o no contato, conseguindo ligar o carro. Recuando, passou por cima de alguns deles, enquanto os outros a seguiam descontrolados. Freando, seguiu em frente dessa vez, atropelando-os.

Falando algo em russo, afastava os cabelos dos olhos, enquanto seguia rumo a qualquer lugar. Seus olhos emitiam uma expressão desorientada, um medo indescritível. Um medo que nunca sentira antes. Como ela desejava naquele momento estar em sua casa, em seu país.

Virando uma esquina, bateu de frente com um carro em alta velocidade.



Conrado Ceschin – 17h21min

Correndo pelo beco vazio, Conrado se escondia atrás dos latões de lixo enfileirados, a fim de evitar que os loucos o vissem. Chegando ao final do beco, olhou pro lados. A barra estava limpa. Atravessando a rua, ouviu berros ao longe. Duas pessoas o haviam visto.

Evitando gastar a pouca munição que ainda restava, entrou pelo beco adiante, mas qual não foi sua surpresa quando um pastor alemão se jogou contra ele, derrubando-o. Caído, olhava fixamente para os dentes afiados do cão, que rosnava. Assim que sentiu a saliva do animal escorrendo por seu rosto, ouviu uma voz.

- Thor, saia daí!

Obedecendo, Thor recuou e foi até Pablo, que o chamava de uma janela quebrada, escondido. Levantou-se rapidamente ouvindo os loucos aproximando-se.

- Rápido! – Pablo o chamou.

Sem pensar, Conrado correu e entrou pela janela, caindo no chão do cômodo escuro. Em silêncio, ouviram-nos se afastar aos berros.

- O que está acontecendo? – perguntou Pablo, com a voz baixa.

- Como se eu soubesse... – respondeu Conrado, levantando e limpando a poeira da roupa. – Tudo que sei é que todos viraram assassinos.

- Assassinos? Acho que é mais complexo que isso. – Thor rosnou mais uma vez pra Conrado por entre as pernas de seu dono, enquanto ele olhava pela janela. – Eles já foram! É melhor sairmos daqui antes que voltem.

- E vamos pra onde? – Conrado parecia indignado com a proposta.

- Pra onde você estava indo? – Pablo perguntou, sem olhá-lo.

- Pra casa.

- E lá é seguro?

Conrado ergueu uma sobrancelha, encarando o homem pelas costas. Num piscar, teve uma idéia.

- Sim, é bem segura.

- Então vamos pra lá. – sugeriu Pablo, saindo pela janela, e chamando Conrado que, disfarçadamente, escondia a arma sob o paletó.



Yulia Smirnov – 17h25min

Atordoada, Yulia tentava se localizar, mas ainda estava bastante zonza. Um corte em sua testa permitia um fio de sangue deslizando pelo rosto. Tentou ligar o carro, mas não funcionava. Pegando a mochila, saiu.

Afastando-se cambaleante, quase não ouviu os gemidos de socorro vindos do outro carro. Forçando a vista, olhou pra trás, e viu alguém se mexendo no interior do veículo, com o pára-brisa estourado. Aproximando-se, viu que era uma mulher. Uma mulher grávida.

- Socorro! – falava ela, com muita dificuldade. – Meu filho... A bolsa estourou. Socorro!

Yulia não acreditava no que estava acontecendo. Seus olhos diziam isso. Tentava acalmar a mulher, mas era em vão por dois motivos. Primeiro, ela estava em choque, devido ao acidente e, possivelmente, às dores da contração. Segundo, não parecia entender russo.

Ajudando-a sair do veículo, conduziu-a até uma lanchonete do outro lado da rua. Parecia segura assim que ela fechou a porta e a bloqueou com uma mesa. Havia comida por todo o chão. Bagunça total.

Um gemido mais alto de Regina alertou a garota.

- Meu bebê... – era um martírio pra ela falar. – Preso. Meu bebê está preso.

Yulia não sabia o que fazer. Quando Regina abriu as pernas, ela finalmente entendeu, seus olhos quase saltando das órbitas. Balançando a cabeça negativamente, dizia algumas palavras em um tom trêmulo, mas as lágrimas da grávida a comoveram, de certa forma. Engolindo em seco, Yulia viu Regina fechar os olhos e segurar os pés das mesas ao lado, firmemente.

Receosa, aproximava as mãos por entre as pernas da mulher em prantos. Assim que o segurou, virou o rosto e fechou os olhos, numa expressão de nojo, puxando-o. Os gritos da mulher cessaram, dando lugar ao choro do recém nascido. Limpando o canivete no casaco, cortou o cordão umbilical do garotinho, que não parava de chorar. Sua roupa encheu-se de sangue.

Aproximando-se da mulher deitada no chão, Yulia a cutucou, mas viu que era tarde. O pavor tomou conta de seu semblante. Só podia ser brincadeira! Abrindo a mochila, pegou um lençol de cetim branco, o qual usou para envolver o pequenino.

Num repente, olhou pra trás e viu a porta tremendo. Aos poucos, percebeu que estavam tentando entrar, pois a mesa afastara-se da porta. Olhando uma última vez para a pobre mulher morta naquele chão de lanchonete imundo, Yulia jogou a mochila sobre as costas e seguiu para a cozinha, com o bebê nos braços.

Trancando a porta, saiu pelos fundos e viu-se em um beco sem saída. Ouvindo-os quebrarem as coisas dentro do estabelecimento, escalou uma pilha de caixas de madeira vazias e sujas e alcançou o alto do muro. Assim que os loucos a alcançaram, agarrando sua bota, ela se debateu e desvencilhou-se, caindo do outro lado.

Esperando a queda, não acreditou quando abriu os olhos e se viu nos braços de um homem de cavanhaque, vestindo um moletom roxo.

- Você está bem, moça? – perguntou ele.

Sacudindo-se, Yulia se livrou dele, e descobriu outro homem, mais velho, parado ao seu lado. Ele a olhava com uma expressão incrédula enquanto emitia murmúrios mudos. Não parecia estar acreditando em seus olhos.

- Bom, temos que sair daqui, agora. – disse Pablo. – Vamos!

E seguiu, acompanhado pela garota com a criança nos braços, Thor, que se encontrava mais calmo, curioso pela presença de Yulia, e Conrado, que não tirava os olhos dela. O choro do bebê permanecia firme.

- Deve ser gozação! – murmurou Conrado, alisando a arma sob o paletó.



♦ ♦ ♦



Alguns minutos depois, o grupo percorria um viaduto completamente vazio, exceto pelos veículos tombados ou parados.

- Qual seu nome? – perguntou Pablo, olhando para Yulia, enquanto caminhavam.

Ela apenas balançou a cabeça, confusa.

- Eu sou Pablo. Ele é Conrado. – e apontou o homem que os acompanhava.

Yulia o fitou por alguns segundos, o que o deixou bastante incomodado.

- Parece que ela não consegue entender o que você fala. – explicou Conrado. – Talvez seja estrangeira.

- Pode ser. – disse Pablo, analisando-a. – De onde você é?

Nada.

- Where... Are... You... From? – perguntou em inglês.

Mais um sinal confuso veio dela.

- Cara, sua vez! – brincou Pablo. – Só sei inglês, e olhe lá!

Conrado abriu levemente os lábios, mas calou-se assim que Thor começou a latir, inquieto.

- Thor, para! Quieto! – repreendeu Pablo.

Mas era tarde. Um som distante logo se transformou na multidão que surgiu correndo aos berros na esquina adiante.

O grupo recuou enquanto Thor os encarava, latindo.

- Thor, vem! – gritava Pablo.

No mesmo momento, viu alguns deles caindo. Outros. E mais alguns. Olhando pra trás, viu uma Van preta, onde três pessoas atiravam contra a multidão.

- Venham, rápido! – chamava a mulher, uma mulata com cabelo canecalon amarrado em uma trança.

Yulia foi a primeira a correr até o veículo, entrando na parte de trás com a ajuda de um homem negro e alto.

- O bebê está bem? – perguntou ele, mas Yulia simplesmente balançou a cabeça, sentando num banco dentro da Van.

Pablo veio logo em seguida.

- Thor, vamos!

Assim que Conrado entrou, o africano fechou a porta, pouco depois de Thor entrar também, indo direto até Pablo, lambendo-o.

- Ei, amigo! Nunca mais banque o herói. – e alisava o pêlo do animal. – Os corajosos sempre morrem.

- Se segurem! – avisou o motorista, um rapaz jovem de cavanhaque e com entradas no cabelo.

Logo em seguida, pisou fundo, afastando-se rápido.

- O bebê tá legal, moça? – perguntou a garota do canecalon, olhando Yulia, que nem sequer mexeu a cabeça. Só olhava fundo nos olhos do pequenino em seus braços.

- Ela tá bem! – avisou Pablo. – Os dois estão.

- Legal! – finalizou a mulata. – Só paramos mesmo por causa do bebê.

Um silêncio constrangedor tomou conta do interior do veículo. Yulia mantinha uma conexão visual com a criança. Pablo alisava a cabeça de Thor, debruçada sobre sua perna. Conrado encarava a garota com o bebê firmemente. O negro alto colocava mais munição em sua submetralhadora. A morena segurava no teto da Van imóvel. O motorista não deixava nada roubar sua atenção do caminho que seguia, passando por cima de qualquer um que entrasse na frente.



♦ ♦ ♦



Estacionando em frente à LAQUARTZ, o motorista liga um radiotransmissor.

- Pronto! – responde uma voz do outro lado.

- Pooh, estamos do lado de fora da LAQUARTZ. Conseguem chegar aqui? – pergunta ele.

- Acho que sim, LC. Como está aí fora?

- Bom, cara. – dá uma pausa. – Aqui está bem calmo. Pode vir sem medo. Não tô vendo ninguém.

- OK! – e desliga.

Poucos minutos depois, LC vê Pooh e Lizzy saindo pelo portão tombado. Não estão sozinhos. Dois adolescentes os acompanham.

- Vocês não mencionaram companhia. – dispara o rapaz, desconfiado.

- Está tudo bem, LC. – avisa Elizabeth.

Assim que a porta é aberta pelo grandalhão, os ocupantes veem os dois jovens fitando a cidade ao longe. Parecem não acreditar em seus olhos.

Helicópteros sobrevoam a grande São Paulo, sobre fumaça e fogo. Destruição total.

Começou tudo de novo.

 
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18 mordidas:

João Pedro ^^) disse...

STYYYLEEEEEEEEe

14 de outubro de 2008 12:52
Thomaz Ribeiro disse...

Notei que sua escrita melhorou sensivelmente de um capítulo para outro. Só acho que a mudança narrativa da primeira para terceira pessoa pode causar um pouco de confusão. Afinal, se não era a personagem central que narrara a história até o caítulo 13, introduzir as novas personagens numa perspectiva narrativa diferente é um salto muito grande. Mas o caótulo novo está ótimo. Parabens.
Um abraço.

14 de outubro de 2008 17:01
Alexandre "Perdiga" disse...

Nossa cara, muito bom... muito bom MESMO!
Estou adorando!
Gostei muito do que você fez nesse capítulo, "voltando" no tempo e mostrando o que está acontecendo com outros, e depois juntando todo mundo...
Continue assim ;)

14 de outubro de 2008 17:56
Guga disse...

MUITO bom!
Parabéns =D

16 de outubro de 2008 16:06
Anônimo disse...

Sei lá, achei que você exagerou na cena que Conrado está praticando sexo com a outra garota! Certas palavras e o excesso de detalhes pode deixar deixar de ser uma história de classe, como está sendo, e se tornar um simples conto de um adolescente tarado que gosta de zumbis! Fora isso, estou gostando bastante da sua história, e espero que o próximo capítulo não demore tanto como esse!
Abraços

20 de outubro de 2008 22:04
Toy disse...

Valeu pelos elogios, de coração!

Quanto ao palavreado usado, não tem nada haver com ser tarado. Eu precisava passar aquele momento, fazer vocês sentirem a sujeira da cena. Se você escreveu isso, é porque consegui. Só que você confundiu o tarado da história: não sou eu, e sim o Conrado!
Mas de boa, opinião é opinião.
Não senti prazer escrevendo a cena, pode ficar sossegado.

20 de outubro de 2008 22:30
Demian disse...

Curti a mudança de pessoa na narrativa, dá uma sensação da história estar começando agora, pra quem ainda não leu os outros capítulos. Como se tudo que veio antes fosse apenas um pano de fundo.

A cena de sexo passou bem o caráter do personagem, não achei excesso de detalhes. Uma história sobre zumbis não precisa ser pudica.

Parabéns

21 de outubro de 2008 21:58
brunorizzieri882 disse...

Pow cara,

Começei a ler a sua história ontem sem muitas perspectivas, encontrei o seu blog meio sem querer enquanto fuçava na net, mas me intriguei tanto que acabei lendo tudo numa pancada só, rsrsrs........ estou ancioso pelo cápitulo 15 !!!

Abraço e continue por favor !!!

22 de outubro de 2008 11:59
Vivi Flowright vi Britannia disse...

Está ficando emocionante, estás conseguindo prender a atenção do leitor de forma sutil, porém eficiente.
A história está muito boa, mal posso esperar pra ler o que vai acontecer, daqui pra frente.

31 de outubro de 2008 12:57
alves rafael disse...

FODAAAAAA...Esse capítulo foi fantastico!!!
Sou teu fán cara, continue assim!!!

3 de fevereiro de 2009 01:45
Bodones disse...

realmente, inventar historias assim. nao é pra qualqer um, gênio é o nome q sa da a pessoas assim;

19 de fevereiro de 2009 18:59
Erukusu disse...

Haha! Legal. Tudo se ligou, como estava imaginando, muito bom.

Conrado do mal mano!

16 de julho de 2009 17:16
Um Par disse...

gente a cena em que ele fala da cidade destruida me faz lembrar de madrugada dos mortos quando toda a cidade esta infestada e aparecem explosões e pessoas correndo assustadas...

está otemo!!!

13 de agosto de 2009 19:04
Matheus Parkour disse...

UMa trilha sonora perfeita ara o final deste cap.:same mistake

10 de março de 2010 14:24
Anônimo disse...

o que é que tem a ver? ↑

26 de março de 2010 19:36
Diana disse...

Bom, não posso deixar de comentar.

Até agora, o blog está nota 10!
Muito bom MESMO!!!
Tô amando ler.Virou um vício!

E o cap. 14 merece um elogio à parte.Uma tacada de mestre: na minha opnião, a mudança de 1° pra 3° pessoa ficou muito boa, ainda mais no final, que tudo se entrelaça.

Você tem talento para isso!

xD

Bom, vou ler o resto antes que eu tenha uma crise de abstinência rsrsrs

Parabéns!

5 de junho de 2010 07:35
Tiago Toy disse...

Agradeço de coração os comentários, galera.


Sejam bem-vindos novos infectados, e aos antigos, espero que continuem sobrevivendo.

Grande abraço!

6 de julho de 2012 23:53
nadson disse...

Cara gostei muito achei esse site quando estava vendo the walking dead procurei na net algo que fosse sobre zumbi no brasil e descobri isso aqui agora quero ler os livros esse episodio pra mim foi o melhor ate agora valeu um abraço e quando vai disponibilizar o livro pra baixar online mesmo pagando pro que moro em salvador bairro de aguas claras e acho que se eu compra nao vai vir ate aqui

6 de novembro de 2012 22:23

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