Capítulo 15 - Sob as ruas de São Paulo



Seus gritos são de esmagar o coração, como uma mão de pedra. Derrubam tudo que está pelo caminho, tornando o barulho da perseguição mais intimidador. Todos já entenderam a gravidade da situação. O medo em seus olhos me diz isso.

- Mas o que há de errado com essa gente?

LC grita enquanto manobra a van habilidosamente pelas ruas de São Paulo. Parece o cenário de um filme de guerra. Carros tombados, ônibus em chamas, corpos boiando no Tietê, lixo espalhado pelas ruas, fumaça por todo lado.

Olhando pelo vidro da porta traseira vejo a multidão enraivecida nos perseguindo. Depois que os vimos se aproximando e entramos correndo no veículo, ninguém se arriscou a dar uma olhada fixa neles. Estão muito assustados pra fazer qualquer coisa além de segurar-se firme pra não cair dos bancos. Sinto os baques dos infectados atingindo a Van de frente. Jogam-se contra a mesma. O para-brisa está todo manchado de sangue. Isso tudo sem contar o calor infernal que faz no interior do carro. Depois que um homem agarrou o braço da mulata Carla pela janela aberta, todas as possíveis entradas foram travadas. Sinto o oxigênio se esgotando.

Me seguro numa alça de couro presa ao teto da van em mais uma curva que quase nos joga pro chão. O que me admira é como ninguém se manifesta pra ajudar a moça ruiva a se segurar enquanto tem que segurar o bebê em seus braços. O único que lança breves olhares pra ela é o quarentão de olhos claros ao meu lado, mas nem sequer a oferece ajuda. Apenas a observa, curioso. Será que se conhecem?

O pior é que ninguém teve tempo de se apresentar. Aconteceu tudo tão rápido que só tivemos de tempo de bater a porta e ouvir o motor ligar antes deles nos alcançarem. Fracassei em mantê-los na LAQUARTZ. Tudo que eu precisava fazer era trancar aquele maldito portão e impedir que saíssem. E não pude fazer isso. Algo tão simples, tão banal. Agora está tudo perdido. Mais uma vez.

Olho pro lado e vejo Daniela me encarando. Sua expressão é de angústia, incredulidade. Ela sabe tanto quanto eu que isso é só o começo. O começo de um fim próximo. Um fim lento, violento e injusto. Sinto pena dos ocupantes do veículo. Nem fazem ideia do que está por vir. Não fazem ideia de um terço do que passarão. Se estão com medo agora, não sei como reagirão quando forem cercados por eles, quando dependerem das próprias pernas pra sobreviver, quando tiverem que matar alguém pra não morrerem. Eu sei bem o que é isso. Sei o que se sente quando é preciso acabar com uma vida pra não ser dilacerado até a morte, mesmo que a vida alheia se trate de um desses dementes.

Aliás, nunca parei pra pensar se eles pensam, sentem, sabem. No meio de tanta correria não dá tempo de tentar entendê-los. Tudo que é preciso saber é uma coisa. Correr.

- Pra onde você tá indo, LC? – grita Pooh. Parece um boneco de cera. Sua expressão séria não muda nunca.

- Calma, Ivan! Fica na tua! – responde Carla, sem olhar pra trás. – Isso aqui tá um inferno!

De relance posso visualizar o inferno a que ela se refere. Obrigado a adentrar cada vez mais pro centro da cidade, LC vai nos levando por paisagens destruídas, pintadas de sangue. Pessoas fugindo de outras aos berros fazem a tensão aumentar. Até o Pastor Alemão aos pés do cara encapuzado sente o perigo. Não pára de latir um minuto. Dizem que os animais tem uma sensibilidade maior, como as crianças. Ele deve saber que sua vida vai se tornar bem mais difícil daqui pra frente. Ou mais curta.

Os próximos minutos passam como uma eternidade. Ninguém arrisca dirigir uma simples palavra a qualquer um. Nem mesmo Lizzy e Pooh. Cochichavam tanto no laboratório e trocaram poucas palavras depois que fugimos. Eles viram do que os infectados são capazes, mesmo que por pouco tempo. Sabem com o que estão lidando.

O negão no fundo da van se limita apenas a observar pela janela. Sua expressão carrancuda não dá margens para uma conversa. Mesmo em caso contrário, esse não é o momento apropriado pra conversar.

O choro do bebê é outro fator que torna tudo mais angustiante. Parece tão frágil, tão indefeso, tão minúsculo. A ruiva o segura com insegurança e isso o fez quase cair duas vezes. Parece jovem demais pra ter um filho tão novo. A boquinha emitindo o berreiro me aperta o coração. Não sou muito chegado a crianças, mas também não desejo ver uma sendo comida viva.

Tudo gira tão rápido que nem tenho tempo de me segurar. Rolamos uns por cima dos outros várias vezes até que pára tão de repente como começou. Sinto a cabeça zonza, gosto de sangue na boca. Ouço apenas gemidos, latidos e o choro do bebê. Olho pro lado e o vejo ainda nos braços da garota ruiva, que se encontra caída sobre o cara de capuz enquanto tem a manga da blusa sendo puxada pelos dentes do cão.

- Estão todos bem? – pergunta Lizzy, ajoelhada sobre a janela da van tombada.

- O que diabos aconteceu? – berra Pooh, com o rosto vermelho. Em seguida, tira um caco de vidro do antebraço sem expressar o mínimo de dor.

- Não consegui controlar a van... – explica LC, tentando se desprender do cinto de segurança que o mantém quase que pendurado sobre Carla. – Tem muito sangue no chão!

- É melhor sairmos rápido daqui! – orienta Carla, já saindo pela janela destruída.

Cientes da urgência da situação, todos saem do veículo rapidamente. Sofreram escoriações mínimas. O susto foi maior do que os danos físicos.

Consigo ser o primeiro a sair. Sou experiente nesse assunto. Ficar preso em escombros não é muito recomendado para a própria sobrevivência. Daniela vem logo atrás, a quem dou uma mão. Os outros vão saindo pelas outras janelas.

Observando ao redor, estendo porque LC não conseguiu controlar a direção. Os pneus devem ter derrapado na imensa poça de sangue que se estende pela rua, decorada com tripas e outros órgãos humanos. Houve uma carnificina aqui, disso não há dúvida. A violência e rapidez de como isso ocorre é de assustar. Parece que acabamos de sair da LAQUARTZ, onde tudo recomeçou. Por um instante posso ver Ricardo transformado em uma dessas coisas e atacando Daniela. Como permiti que chegasse a tal ponto? Ricardo... Tudo que queria era salvar a própria mãe. Queria nos ajudar. E agora está morto. Abigail maldita! Se você não morreu no laboratório, morrerá em minhas mãos. Isso eu prometo.

O grito me desperta do transe momentâneo. Um infectado saíra de trás de um ônibus e atacara a ruivinha. Por sorte, o negão com cara de líder do tal grupo fora mais rápido e usara sua arma, em cheio na cara do infeliz. Um senhor com não mais de cinquenta anos. A orelha esquerda não existia mais, deixando à mostra um buraco ensanguentado. Um buraco feito a mordidas. Pobre coitado.

- Você está bem? – pergunta Lizzy à ruiva.

Ela apenas encolhe os ombros, lançando-nos uma expressão confusa e, ao mesmo tempo, assustada. Abre um pouco os lábios, mas não fala.

- Você é muda? Te fiz uma pergunta! – continua o grandalhão.

Quando ela responde, todos fazem cara de desentendidos. Que língua é essa?

- Você não é brasileira? – pergunta o encapuzado.

- Meio óbvio, não? – debocha Carla, com uma arma nas mãos.

Aliás, todos os amigos de Lizzy e Pooh empunham o mesmo modelo de arma. Já a vi na Internet, quando passava horas navegando. Trata-se da submetralhadora Sub PM 12A. É usada pela polícia de São Paulo e por criminosos em todo o país. Ou pelo menos era. O que me intriga é que nenhum deles parece ser policial, muito menos criminoso. Afinal de contas, quem são eles? E o que estavam fazendo na LAQUARTZ, aparentemente infiltrados?

Minhas dúvidas dão lugar ao medo quando percebo o que acontecera. Não devíamos ter ficado tanto tempo no mesmo lugar, ainda mais depois do tiro. O som os atraíra. Estávamos cercados. Eles vinham de todos os lados, aos montes. Parecia um exército.Um exército de demônios.

- Caralho, o que essa gente tem? – grita LC, erguendo a arma e disparando contra os mais próximos.

- Não hesitem em matá-los! – explica Lizzy. – Eles não hesitarão.

Formando um círculo humano, Lizzy, Pooh, LC, Carla e o negão começam a descarregar incontáveis tiros contra os infectados. Parecem não ter fim. Quanto mais são derrubados, mais vão aparecendo. Daniela e eu nos mantemos dentro do círculo, próximos a van, juntamente com os outros estranhos, tão ou mais assustados do que nós.

- Tiago, é o fim? – Daniela parece prestes a explodir em lágrimas.

- Não pode ser. – respondo. Não pode terminar agora, assim! Não pode!

Olhando pros lados, buscando uma saída, vejo um beco por onde vêm poucos deles. É a única chance.

- Vamos por ali, Dani. – e aponto.

- Não tem outro jeito, né? – confirmo com a cabeça. – Mas e eles?

- Eles que nos sigam!

Quando me preparo pra correr, o choro do bebê se torna mais alto. Olho-o e vejo o medo em sua face. Olhinhos tão pequenos e transbordando tantas lágrimas. Não é justo!

- Lizzy! – grito, ganhando sua atenção. – Vamos todos por ali. Se continuarmos aqui, não teremos a mínima chance.

Aos berros ela faz todos entenderem o plano e em seguida me dá sinal pra ir. Acompanhado de Daniela ao meu lado, corro como era obrigado a correr em minha cidade. Assim que entramos no estreito beco, apenas ouço os tiros contra os monstros que nos perseguem aos gritos, insanos. Nem preciso olhar pra trás, pois sinto-os próximos. Essa sensação já faz parte dos meus sentidos. Sinto-me como um cervo fugindo do leão. A caça correndo do caçador. O ser mais inferior da cadeia alimentar.

- Mais rápido, gente! – grita Carla.

- Fácil dizer, mulata! – provoca o quarentão de olhos azuis.

- Rápido, rápido! – apressa Lizzy.

Vamos pulando sacos de lixo, latões revirados, caixas de madeira e cadáveres. É uma perseguição na pista da morte. Sinto o fôlego se esvaindo. Meu cabelo suado bate na testa à medida que avanço, destinado a sobreviver. Os tiros não cessam nunca. Parecem ter munição infinita. Não que isso me desagrade, muito pelo contrário. Vamos precisar de toda a artilharia disponível na cidade – ou no mundo - pra conseguir exterminar todos eles. Isso se eles não resolverem ir para as rodovias. Nem quero pensar na possibilidade.

- Tiago, olha! – Dani grita ao meu lado, apontando pra frente.

Olhando na direção indicada, vejo a tampa de um bueiro semiaberta, com um pé de cabra ao lado. Além dos infectados que nos seguem no beco, aparecem mais do outro lado, vindo de um parque, e outras dezenas surgindo das esquinas ao redor.

O cão deve ter lido meu pensamento, pois vai na frente e puxa o pé de cabra com a boca.

- Thor! – grita o encapuzado. O cachorro deve ser dele.

Jogando-me quase de joelhos na boca do bueiro, puxo a tampa com a ajuda de Daniela, quase sem fôlego. O barulho do metal arrastando contra o asfalto me faz quase sorrir. São sensações estranhas, todas juntas, sem explicação.

- Vocês vão entrar no esgoto? – retruca o quarentão, incrédulo.

- Se quiser, pode ficar aqui e jogar truco com eles. – brinca Carla, apontando pra trás e atirando contra três quase ao mesmo tempo.

No beco, uns vem capotando sobre os outros, lutando para ver quem nos mata primeiro. Sem um pingo de curiosidade pra descobrir, sou o primeiro a entrar pelo cano, literalmente. Dani me segue, ligeira. Logo em seguida vem a ruiva estrangeira, que encontra certa dificuldade em descer pela escada tendo o bebê em um dos braços. Já percebi que ela não solta a criança pra nada. Enquanto o encapuzado desce, trazendo o Pastor Alemão no colo, ouvimos os tiros lá em cima. Lizzy e Carla descem logo depois do homem de terno, seguidas dos homens restantes. Pooh vem por último, dando um último disparo contra um infectado que o agarra pelo braço, e fecha a tampa do bueiro.

A água alcança nossas canelas. Nas laterais há suportes de pedra, onde sentamos pra recuperar o fôlego. A pouca luz que entra pelos bueiros nas sarjetas nos permite enxergar sem dificuldade. Ainda assim, LC e Carla acendem lanternas.

Permanecemos quietos por um longo minuto, apenas respirando e limitando-nos a olhar pro alto. A algazarra que eles fazem lá em cima é medonha. Parece que estamos sob um bando de animais selvagens. O bebê aos prantos não ajuda a tornar o lugar mais harmonioso.

- Alguém faz esse capetinha calar a boca! – grita o quarentão, sentado mais afastado.

Todos o olham admirados, menos a ruiva. Ela não deve entender nossa língua.

- Se estiver tão incomodado, pode voltar lá pra cima. – diz calmamente o líder, equipando a submetralhadora. – Senhor..?

Sem resposta.

- Parece que crianças e adultos estão em corpos trocados aqui. – suspira o negão, virando-se em minha direção. – Obrigado, garoto. Sinceramente eu não sabia o que fazer após o acidente com a van.

- Ele é experiente nisso, Victor. – fala Lizzy, pondo-se ao seu lado, me olhando.

- Como assim?

- Quer contar pra ele, Tiago? – ela sorri.

Olho pra Daniela ao meu lado. Encontro um olhar perdido, apagado. Onde está o brilho de quando a conheci?

- Bom, Victor. – finalmente o negão tem um nome. – Não sei o que vocês ouviram falar na TV sobre o incidente no interior.

- Incidente? – questiona ele. – Sobre aquele vírus na água? Qual era mesmo o nome da cidade?

- Jaboticabal. – respondo. – Eu vim de lá! Nós viemos. Daniela e eu.

Ele nos lança um olhar confuso.

- Não houve vírus em água alguma. Na verdade, o que destruiu minha cidade é o mesmo que está destruindo a sua.

- Não entendo. – diz ele, sem mover um músculo. Parece a estátua de um troglodita me fitando. – Seja mais claro.

- Ok! As pessoas na minha cidade viraram assassinas dementes que mataram umas às outras até que não sobrasse ninguém. É isso que está acontecendo em São Paulo. O vírus, ou o que quer que seja a causa disso, se espalhou dentro da LAQUARTZ e escapou pra cá.

- LAQUARTZ? – não sinto tanta surpresa em sua voz quanto ele parece querer passar. –Então quer dizer que...

- A Abigail tá envolvida, sim. – completa Lizzy.

- O que podemos esperar daquela macaca velha? – reclama Pooh, logo atrás.

- Eu não sei o que Abigail pretende com tudo isso... – falo rápido. -... mas sei que ela é a culpada por todas as mortes que aconteceram, estão acontecendo e vão acontecer. Não pensem que é fácil se manter vivo cercado por essas coisas te perseguindo o tempo todo, onde quer que você vá, te farejando como predadores, querendo sua carne, seu sangue, sua vida. Não pensem que, só porque eu, um simples garoto, conseguiu, qualquer um pode conseguir.

Dou uma pausa pra respirar. Lembranças surgem como pesadelos em minha cabeça.

- Vocês não sabem o que tive que fazer pra sobreviver. Não imaginam nem um terço de tudo que passei, de todas as decisões que fui obrigado a tomar pra poder estar aqui mais uma vez tendo que lutar pela minha vida. Nem todos aqui sobreviverão.

Olhando-os pelo reflexo na água, vejo-os se entreolhando, intrigados e assustados.

- Eu acredito que todos aqui possamos sobreviver. – olho para o lado e encontro Daniela me encarando, com um discreto sorriso nos lábios. – Eu só estou viva graças ao Tiago. Fiquei trancada durante semanas em um Ginásio esperando alguém pra me salvar. Estaria esperando até hoje se não fosse por ele. Na verdade, eu estaria morta se ele não tivesse aparecido pra me salvar.

Sinto um nó na garganta. Mas o que é isso? Me emocionar com simples palavras não faz parte de mim. Contraio o rosto e permaneço olhando pra baixo.

- Você me salvou, Tiago. – Dani coloca a mão em meu ombro. Uma mão firme. – E sei que pode salvar todos aqui. Assim como você quis salvar o Ricardo.

- Eu não quero ser um herói! – explodo. – Eu não quero salvar ninguém! Você não entende? Eu não quero ser a porra do cara bonzinho que todo mundo gosta. Eu só quero a minha vida de volta! Eu não preciso de... Eu não tenho... Eu...

As palavras me fogem. Há muito tempo eu não deixava as emoções extravasarem dessa maneira. Eu não posso fraquejar. Não sob tantos olhares desnorteados. Olhares pedindo por uma resposta, uma direção.

Virando-me, ando alguns metros pra longe deles. Sinto que estão respirando meu ar. Isso me irrita. Não quero ninguém perto de mim. Saiam de perto de mim! Saiam!

À medida que avanço, os cochichos vão se tornando cada vez mais baixos, e a luz mais escassa. Assim que sinto uma pontada na nuca, aperto-a com a mão direita e contraio os olhos. Quando os abro novamente, percebo algo deslizar sob minha pele. É como se as veias do meu pulso dançassem num ritmo lento e... Minha vista embaça e só tenho tempo de dar um passo à frente antes de cair de joelhos e, em seguida, de cara na água.




♦ ♦ ♦



Dois dias haviam passado desde que eu chegara à casa do senhor Moisés. Era visível seu choque por perder a esposa daquela maneira, mas ele evitava falar sobre. Eu também não fazia questão. Quanto menos envolvimento com estranhos, melhor. O que eu queria era dar o fora logo dali, mesmo ele tendo sido tão bom comigo. Cedeu-me sua casa como se eu fosse um amigo de anos. Na hora do desespero, as pessoas se tornam muito fracas e se apegam à primeira companhia que encontram.

Ele me cedera o quarto de hóspedes. Era uma casa pequena, mas aconchegante. Típica casa de idosos de classe média alta. O único ponto negativo era a vontade constante do velho de conversar. Como eu odeio ter que conversar. Sempre fui na minha. O jeito era escutá-lo e responder diretamente quando perguntasse algo.

Os dois dias passaram sem maiores contratempos. Nenhum dos loucos tentara entrar na casa. Talvez por Moisés sempre manter as luzes apagadas e qualquer aparelho que fizesse o mínimo barulho desligado. Janelas bloqueadas, portas fortemente trancadas. Em alguns momentos me atrevi a espiar pelas frestas da janela. Não vi ninguém passando. Nem uma alma viva sequer. Jaboticabal estava morta. E sem atestado de óbito.

Descobri que Moisés havia sido um sargento quando mais novo. Não acreditei até ver as fotos. Como alguém tão “dado” conseguiu ganhar a vida sendo líder no exército? Realmente era difícil de imaginar. Sempre visualizara esse tipo de posto sendo ocupado por homens com cara de quem chupou limão, voz grossa, imponência, alguém que pudesse intimidar um pelotão. Moisés não parecia ser capaz de fazer mal a uma mosca.

Quando o peguei chorando no banheiro, de frente pro espelho, a imagem dele como sargento fugiu para mais longe. Esse cara era um frouxo. Tudo bem que sua mulher morrera, mas a vida continuava. A minha vida também continuava, e eu precisava vivê-la. Cheguei à conclusão de que não seria trancafiado na casa com cheiro de naftalina de Moisés que eu daria continuidade a minha vida. No segundo dia, decidi que já era hora de partir.

Batendo na porta de seu quarto, abro-a sem esperar que responda. Encontro-o sentado em sua poltrona, lendo um livro que não posso identificar. Pouco me interessa seus hábitos de leitura.

- Olá, Tiago.

- Oi, Moisés. – entro e paro diante do velho. – É... Eu queria te agradecer pela força que me deu e...

No mesmo instante ele se levanta tão rápido que quando me dou conta estamos olho no olho, na mesma altura. Recuo um passo.

- Tudo bem com você? – pergunto. Sua expressão é estranha.

- Claro que estou bem, porque não estaria? – e sorri, um sorriso estranho. Está nervoso.

- Bom... – continuo. – Eu decidi ir embora e procurar por minha família. Acho que...

- Você não pode ir embora! – parece alterado. – Pra onde vai? Você não tem pra onde ir! Sua família está morta. Se você sair daqui, também morrera. Não entende?

Não, não entendo. O que há de errado com ele? Treme e sua enquanto fala, cuspindo ainda por cima.

- Bom, eu... Eu não vim pedir sua permissão. Eu vim avisar que eu vou embora.

Ele se cala. Fica imóvel. Seus olhos perfuram os meus. Uma energia estranha toma conta do aposento. Sinto hostilidade. Sinto-me... Intimidado.

Sem obter qualquer resposta, viro-me e ando em direção ao corredor. Coração a mil. O que acabara de acontecer?

Só tenho tempo de me jogar pelo corredor quando ouço o disparo. Sinto a bala raspar na barra da minha calça, na altura do joelho. Olhando pra trás, vejo Moisés empunhando um revólver, tremendo. Apontando em minha direção.

- Tiago, não vou deixar você se arriscar por aí. Eu te protegi e vou te proteger até o fim! Nem que para isso eu tenha que te aleijar.

E atira novamente. Mais uma vez consigo me jogar pro lado, apoiando-me no joelho e levantando. Ouço-o vir atrás de mim, engatilhando a arma. Que velho maluco!

Mais um disparo destrói a porta de vidro do armário de taças e cristal. Os estilhaços espalham-se pela sala. Sinto o ouvido zunindo. Essa passou perto demais para apenas aleijar. Indo direto pra dispensa, bato a porta atrás de mim e giro a chave. As pancadas logo começam.

- Tiago, abra essa porta!

- Você tá louco, Moisés? – grito tão alto quanto ele. – O que você tá fazendo, cara?

- É Sargento, soldado! SARGENTO! – definitivamente ele enlouqueceu. – Abra essa maldita porta, seu malditozinho!

As pancadas fazem a porta estremecer. Agora sim consigo vê-lo liderando um pelotão. E não me agrada estar sozinho com ele. Olho pra trás e sinto a cabeça dar voltas. O barulho dos tiros os atraiu. Há cinco deles rondando do lado de fora, o que posso ver pela vidraça da porta dos fundos. Quando me vêem, se jogam contra a mesma. Sorte o vidro ser reforçado. Mas não agüentará por muito tempo. A idéia que me ocorre requer agilidade. Muita agilidade.

Indo até a porta dos fundos, giro a chave, abrindo-a, onde os loucos entram no mesmo instante, sedentos. Mais rápido do que eles, giro a chave da outra porta, permitindo que Moisés entre num pulo. Por um momento ele se desorienta devido às visitas indesejadas, o que me dá chance de empurrá-lo pra cima deles, que vem grunhindo como animais. Abaixando-me, volto pra sala, puxando a porta e batendo-a novamente. Os berros de dor de Moisés duram pouco. Não teve chance nem de usar a arma para se defender. Velho doido!

Pegando minha mochila no quarto, guardo o que me pertence e saio dali rapidamente, antes que o cadáver do velhote não sirva mais como distração para os canibais.

Com cuidado, saio pra rua. Respiro fundo o ar livre por um instante antes de ouvi-los vindo. Pondo-me a correr, deixo pra trás a casa com cheiro de naftalina.



♦ ♦ ♦



As lambidas me fazem despertar cuspindo. Thor.

Assim que vê que acordo, late alto, atraindo a atenção de seu dono, o encapuzado. Ele se aproxima.

- Tú tá legal, moleque? – pergunta ele.

- Tô... – esfrego a testa. – Meio zonzo, mas tô bem! O que aconteceu?

- Antes ou depois de você desmaiar?

- Ah, tá explicado. – apoiando-me na mureta ao meu lado, levanto-me e encosto na parede, ainda tonto.

Minha calça encontra-se completamente encharcada. Torcendo-a, o cão se aproxima de novo, apoiando suas patas dianteiras em minha perna.

- Ele gostou de você! – se diverte o estranho.

- Eu também gostei dele. – e aliso sua cabeça. É bem dócil. Sempre gostei de animais. São muito mais confiáveis do que pessoas.

- Meu nome é Pablo.

- Prazer. Você já sabe meu nome. – e o cumprimento num aperto de mãos. Agora o encapuzado também ganhou um nome.

- Então quer dizer que todo aquele bafafá que os jornais anunciavam sobre o incidente no interior não passava de mentira. – e senta ao meu lado, alisando o cachorro, que vai pro seu lado e deposita a cabeça em seu colo.

- É, meio que isso. – forço a vista pra deixar de enxergar embaçado. Melhora.

- O que eles são exatamente? –encaro-o e ele aponta pra cima.

- São pessoas que agem como animais e não vão hesitar em te matar assim que você se distrair. – levanto-me, alisando Thor. – Então, não se distraia.

Virando-me, vou até Daniela, que está conversando com Lizzy.

- Tiago, você tá legal? – pergunta ela, aflita.

- Tô sim, Dani. Acho que foi só a fome, mas passou. Devo ter comido um rato quando cai de boca nessa água “tão limpa”. – e faço uma careta, o que rouba risos nervosos dela.

Lizzy me olha firmemente.

- Tiago, quero te pedir uma coisa. – começa. Apenas a encaro. – Por favor, não faça essa gente perder a esperança. Eu vi o que são essas coisas na LAQUARTZ. Não sei o que são, mas sei o que são capazes de fazer. Vai ser difícil manter-nos vivos se alguém fraquejar. A esperança é a única coisa que pode dar forças em um momento como esse. Te suplico que não diga mais que estamos condenados. Ok?

Permaneço calado por um instante.

- Combinado, Lizzy. Tanto porque não pretendo ficar com vocês!

- Mas, Tiago... – se surpreende Daniela. – Só conseguiremos sobreviver se ficarmos juntos.

- Não, Dani. Não quero ser responsável por essa gente toda. Eu nem sequer os conheço.

- Não tô te reconhecendo. – Daniela me olha entristecida. Se está tentando me tocar de alguma maneira, não está conseguindo. – Cadê aquele Tiago que queria salvar um Ricardo raptado mesmo sabendo que era tarde? E mesmo assim se arriscou. Cadê aquele Tiago que me ajudou pendurado de pernas pro ar no teto de um supermercado? Aquele Tiago que me permitiu saber o que estava acontecendo? Que me permitiu ter coragem de sair daquele vestiário? Esse não é o Tiago que conheci.

- Interessante seu ponto de vista. – respondo. – Então me responda. Onde está aquela Daniela cheia de vida e humor que conheci naquele banheiro? Aquela Daniela que debochava quando quase éramos pegos pelos monstros. E de repente se tornou uma Daniela pronta a atropelar um menino no meio da rua sem um pingo de vontade de ajudá-lo. Que atirou na mãe dele sem piedade. Que não estava disposta a ajudá-lo quando eu quis ajudá-lo, mesmo sabendo que era em vão.

Sua expressão parece chocada. Acho que consegui atingi-la.

- Não é tão simples, Tiago.

- Realmente, Daniela. Não é nada simples.

Balançando a cabeça, ela dá as costas e se afasta de mim. O que ela queria que eu fizesse? Me responsabilizasse por essa gente? Por qual razão?

- Tiago. – Lizzy chama minha atenção. Todos estão nos olhando. – Ninguém aqui está pedindo que você salve o mundo. Isso não é culpa sua. Eu lembro que você queria manter aquele portão fechado a todo custo... Mas não é sua culpa.

- Não fiz nada pra evitar. – minha garganta dói.

- Você tentou.

- Em vão. Inútil.

- Mas tentou. E é isso que importa. Você não pode desistir depois de perder uma partida. O campeonato ainda tá de pé. E você pode ajudar muito ainda.

- É esse o problema, moça. – sorrio, sarcástico. – Talvez eu não queira ajudar.

Lizzy apenas me observa, fundo nos olhos. Me fazendo sinal pra segui-la, a acompanho.

Quando ela pára diante da ruiva estrangeira segurando o bebê nos braços, penso que talvez tenham conseguido se comunicar com ela, de alguma forma.

- Tá vendo esse bebê? – pergunta Lizzy.

- Lógico. Ele tá na minha frente. – debocho.

- Sabia que esse bebê tem poucas horas de vida?

- Como assim? Ele vai morrer? – estou confuso.

- Ele nasceu há poucas horas.

- Ah, entendo.

- Sabia que essa garota que o carrega não mostrou sinais de que pariu uma criança há algumas horas atrás?

- Não, não tive tempo de examiná-la. – onde Lizzy quer chegar, Deus?

- Tiago! – Lizzy grita. – Essa garota de alguma maneira cruzou com esse bebê durante o caos e decidiu ajudá-lo. Mesmo que ele a atrasasse, a atrapalha-se, ela escolheu ajudá-lo. Foi uma decisão difícil. Ela não é a mãe da criança, mas decidiu ser. Não conseguimos compreendê-la ainda, mas ela não largou esse bebê desde que a vimos. Ela está dando uma chance para que essa nova vida vingue e se torne algo bom. Por que você não pode fazer o mesmo por eles?

Vejo-me diante dos olhares perdidos de todos ao longo do túnel, até que encontro o olhar de Daniela.

- Eu...

- Você não pode ter perdido a esperança, Tiago. Pra quem passou pelo que passou e chegou tão longe... Desistir não combina com alguém como você.

Essa mulher sabe como convencer alguém. Que lábia!

- Tá bom! – sinto Daniela sorrir, sem nem mesmo olhá-la. – Eu continuo com vocês. Vai ser difícil, mas eu ajudarei com o que sei sobre esses monstros. Não é muito, mas o necessário pra se manter vivo durante uns di... Digo, o necessário para que todos possam sobreviver.

Lizzy sorri.

Palmas chamam atenção de todos no fim do túnel. O quarentão aparece aplaudindo.

- Agora que convenceram o Robin Hood aí a permanecer com os cavaleiros da Távola Redonda, será que podemos sair desse lugarzinho nojento? Não sei vocês, mas o perfume desse esgoto está começando a me enjoar.

Lizzy lhe dá as costas e vai até Pooh e Victor. Daniela se aproxima de mim, acanhada.

- Valeu por não desistir.

Retribuo timidamente o sorriso. Olhando pro lado, a estrangeira também sorri. Não tinha reparado antes, mas ela é muito bonita. Muito mesmo. Lizzy chama nossa atenção.

- Pessoal, vamos atender ao pedido do educado senhor... Qual é seu nome mesmo? – pergunta Lizzy, com desprezo.

- Conrado. Conrado Cesch...

-Vamos atender à vontade do senhor Conrado e procurar um lugar mais apropriado onde possamos nos preparar melhor.



♦ ♦ ♦



Liderados por Victor, Pooh e Lizzy, os seguimos pelos túneis fétidos do esgoto. Todos os agentes estão com lanternas ligadas. Devo ter ficado desacordado por um bom tempo, já que não enxergo um mínimo feixe de luz vindo de cima. Virou mania eu desmaiar. Preciso urgentemente de vitaminas.

Após andarmos um bocado, sendo atacados por baratas e ratos, o que resulta em cenas hilárias das garotas dando chilique, Victor faz sinal para pararmos e sobe a escada adiante. Cautelosamente, abre a tampa do bueiro. Com metade do corpo pra fora, nos chama.

Sou o quinto a subir, depois de Victor, Lizzy, Pooh e Carla, seguido de Daniela. Já é noite. A rua ao redor está completamente destruída. Caos total.

O hotel de sete andares à nossa frente ergue-se imponente, destacando-se das construções a sua volta. O letreiro luminoso no alto brilha na noite. MAKSOUTH PLAZA.

- É aqui que vamos ficar. – decide Victor.

Assim que um infectado sai do saguão do hotel, descontrolado, Victor empunha a submetralhadora e mira calmamente. A poucos metros de nos alcançar, dispara um único tiro, que acerta em cheio a cabeça, fazendo capotar aos pés do grandalhão.

- Vamos começar a limpeza!


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19 mordidas:

Rock Lost disse...

Ow, esse foi um dos melhores capítulos que eu li, o jeito que Tiago perdeu a esperança foi perfeito. Só ficou meio emo, mas, faz parte.

18 de novembro de 2008 20:44
U3 disse...

EMO que nada...
Numa situação dessas qualquer um fica assim...
Mas o capítulo foi um dos melhores!
Toy tu é sinistro!

19 de novembro de 2008 23:48
Thomaz Ribeiro disse...

A história está ficando melhor e seu desfecho torna-se cada vez mais imprevisível.
Abraços.

20 de novembro de 2008 00:32
rfafla disse...

Muito Bom!

Bom estou aki para lhe dizer o seguinte:
hj meu blog 'Boteco de Inutilidades Úteis'
recebeu um selo, chamado Seu Blog Merece Um Brinde, bom recebendo esse selo vc tem q escolher mais 3 blogs para presentiar e eh isso:
um dos meus escolhidos foi o seu...agora eh soh vc salva o selo e publika-lo num post...
entre no http://botecodeinutilidades.blogspot.com/
e salve o selo...
abração

4 de dezembro de 2008 11:54
Luis Filipe disse...

Gosto muito de histórias de terror
e tambem tenho um blog com isso,
parabens, seu blog é muito bom.
http://www.thesecretchronicles.blogspot.com/

4 de dezembro de 2008 18:30
eRRoR disse...

Puta mano mto loko tua historia li td numa oancada sóh to esperandu o proximo capitulo



Parabens ae

6 de dezembro de 2008 22:42
nicolas disse...

se isso virar um filme sera um sucesso!!!ótimo capitulo

20 de abril de 2009 14:00
Luiz disse...

Muito bom mesmo esse capitulo cara

Muito dez o fato de vc usar uma cidade brasileira como local, tipo, a gente sente a estória como se fosse de perto, muito massa mesmo, parabens!!

15 de julho de 2009 02:50
Erukusu disse...

Está bom, mas não apoio a idéia de virar um filme.

16 de julho de 2009 22:01
Anônimo disse...

Poderia ter rolado um sexo grupal dentro do esgoto...

30 de setembro de 2009 17:37
Anônimo disse...

12 milhoes de zumbis
caçete

25 de fevereiro de 2010 13:28
Ratchê disse...

carambaaaaa...

isso aki dá um filmassoooooo!!!!!

mtoooo bom Tiagooo.. ótima criatividade a sua!!!

4 de março de 2010 03:47
Matheus Parkour disse...

kkkkkkkk


Mais um voto para adaptação cinematografica

11 de março de 2010 17:30
Anônimo disse...

Meio Harry Potter esse Tiago... mas bacana a estória!

12 de outubro de 2010 05:21
Pedro Henrique disse...

Realmente, um conto incrivel, mais um voto para adaptação cinematografica (com direito a Oscar!)

18 de outubro de 2010 01:16
felipe disse...

Filme, Srie de TV e ate Desenho animado

vai ficar otimooooooooo \O/

9 de fevereiro de 2011 20:48
Tiago Toy disse...

Não custa nada sonhar, galera!
Se Terra Morta virou livro, por que não poderia virar um filme, não é? Ou uma série, talvez.

Sejam bem-vindos novos infectados, e aos antigos, espero que continuem sobrevivendo.

Grande abraço!

6 de julho de 2012 23:54
nadson tm disse...

To achando que esse tiago ta gostando de daniela. A final acho que isso nao deviria vira filme mas sim serie por muitos capitulos. acho que se virase se serie ia ganha audiencia mas que the walking dead uma serie tb que sou fan valeu ai

6 de novembro de 2012 23:08
Anônimo disse...

Realmente daria uma grande série. Terra morta é meio real, conheço São Paulo como a palma da minha mão, e só apenas piscar os olhos que posso imaginar milhares de zumbis em plena Av. Paulista, Toy tá de parabéns!

10 de dezembro de 2012 04:43

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