Capítulo 16 - Não há vagas



Assim que Victor dispara, não demora e os infectados surgem por todos os lados. Aparecem como um enxame de abelhas, ferozes, sedentos. Ao grito de ordem do líder todos corremos rumo ao saguão do hotel. Apenas temos tempo de puxar as portas de vidro da entrada, sentindo o impacto da multidão contra, quase fazendo-nos ceder.

Enquanto Daniela, Lizzy, Pooh, Victor, LC, Carla, Pablo e eu forçamos a porta, impedindo-os de entrarem, a ruiva se mantém afastada, protegendo o bebê nos braços, assustada. Thor não para de latir, inquieto, avançando contra alguns, mas logo recuando. Deve entender o nível do perigo. Conrado se encontra sem ação em um canto, de costas para um corredor, apenas atento ao redor.

- Victor, essa porta é resistente, mas não inquebrável! – grita Lizzy.

- Eu percebi! – responde ele, apontando pra cima.

Algumas partes da porta começaram a trincar. É questão de tempo até que nosso escudo se parta.

O grito da estrangeira chama atenção de todos. Olhando, vejo-a apontando para o lado, assustada, dizendo qualquer coisa, incompreensível. Um dos malditos conseguiu quebrar o vidro da janela.

- Lizzy! – grito, alertando-a.

No mesmo instante, ela o acerta em cheio na têmpora com um tiro. O sangue mancha a parede. Pooh corre até a janela e a bloqueia com uma pesada cadeira, derrubando os que tentam entrar com poderosos e certeiros socos. O cara é forte como um touro. Usando o corpo, mantém a cadeira impedindo a passagem.

Outro grito chama atenção do outro lado. Conrado berra enquanto tenta se desvencilhar de uma mulher vestindo a parte de baixo do biquíni, com os seios de fora, um deles totalmente dilacerado, por onde escorre sangue sem parar. Ela o segura por trás, sendo impedida de mordê-lo pelo próprio, que a segura pelos cabelos. Deve ter sido surpreendido enquanto estava de costas para o corredor.

- Tirem essa vagabunda de cima de mim!

Lizzy faz menção de ir ajudá-lo, mas ouve a porta trincar outra vez. Há várias rachaduras na parte de cima e no meio. Eles gritam como animais, manchando o vidro de sangue, tornando tudo cada vez mais assustador. Tornando quase impossível imaginar sobreviver. Conrado berra outra vez, quase perdendo o controle sobre a infectada. Lizzy corre até ele e a puxa pelos cabelos, jogando-a contra a parede.

- Não podia ter demorado mais? – pragueja Conrado, levantando num pulo, tropeçando no próprio pé.

Lizzy o ignora e observa a mulher, que rosna cuspindo sangue. Rápida como um demônio, ela levanta e avança, mas cai novamente com um tiro entre os olhos. O sangue escorre na parede. Mais alguns segundos e esse saguão ganhará uma nova cor. O vermelho de nosso sangue.

A ruiva grita novamente, e corre. Atrás dela surgem mais dois homens, igualmente uniformizados e ensanguentados. Pooh faz sinal para ela sair da frente e atira. Dois tiros rápidos e seguidos. Dois tiros decisivos.

Lizzy se posiciona diante do corredor por onde a mulher surgiu e começa a atirar. Pooh se mantém no outro, também dando alguns tiros.

- Esse lugar não é mais seguro do que lá fora, Victor! – grita ele.

Victor olha pra trás enquanto bloqueia a porta com as costas. Sigo seu olhar, mantendo-me também contra a porta. A ruiva aperta desesperadamente os botões dos elevadores. Lizzy para de atirar e recarrega sua submetralhadora rapidamente. Antes de voltar a atirar, desvia de um homem magro e alto, dando-lhe uma rasteira. Atirando rumo ao corredor, espera-o se levantar, vira, atira, e volta ao corredor.

- Eles não param de aparecer, Deus! – grita ela.

Vejo os elevadores chegando quase juntos, por sorte vazios.

- Pro elevador! AGORA! – grita Victor.

Assim que soltamos a porta, corro como nunca corri antes. Pooh entra em um dos elevadores protegendo a ruiva e o bebê, e já aperta um botão, impedindo-o que se feche. Lizzy faz o mesmo no outro. Conrado entra correndo, mantendo-se atrás dela. Jogo-me dentro do elevador onde estão Pooh e a ruiva, seguido por Carla, Pablo e Thor. Vejo Daniela entrando no elevador ao lado com os restantes. A porta se fecha bem a tempo de impedir que viremos comida de canibal.

- Puta merda! – grita Carla. – O que foi isso, mermão?

- Você tá bem? – Pooh pergunta à garota, que continua não entendendo uma palavra do que dizemos.

O choro do bebê e os latidos incessantes de Thor fazem o apertado espaço se tornar menor. Quando penso que o pior já aconteceu, vem algo e me mostra o quão estava errado. Minha esperança de ter uma vida normal de novo ficou no esgoto, literalmente.

Lizzy usou aquele discurso todo apenas para me proteger. Eles podem se virar muito bem sem mim. Nunca que um simples garoto seria mais requisitado que um par de submetralhadoras numa situação desse tipo. Só aceitei continuar para poupá-la do esforço. Mas o fim já chegou. E isso eles vão perceber logo. Ou será que precisam mesmo de mim? Lizzy e Pooh na LAQUARTZ. Lizzy filha de Abigail. Lizzy praticamente me implorou pra não ir embora. Será?

Não, é muita viagem! Isso tudo está me fazendo imaginar coisas.

Carla e Pooh se colocam a frente tão logo o elevador aparece. Assim que a porta se abre, somos surpreendidos por mais um grupo de infectados. Pooh os mantém afastados com pontapés e murros, enquanto Carla os derruba com tiros. Gritando, a mulata é derrubada contra Pablo. Um velho conseguiu atacá-la. Pooh é praticamente puxado pra fora, se engalfinhando com dois deles. O velho rosna, aproximando a boca do bebê, sendo protegido pela ruiva. Pablo dá um chute em cheio no rosto do filho da mãe, chamando atenção pra si. Quando ele investe contra, Thor o puxa pelo paletó, dando tempo de Carla levantar-se, atordoada, e dar-lhe um tiro na cabeça. Mais dois tiros e Pooh se levanta, sem um arranhão.

- Droga! – reclama Carla, olhando o elevador ao lado.

O painel mostra exatamente onde os outros foram parar. Dois andares acima.

- Vamos pelas escadas. Rápido! – grita ela.

Seguindo-a, vamos direto até a escada. Barra limpa. Subindo os degraus, somos surpreendidos por mais um grupo deles, que nos forçam a descer correndo. No corredor por onde viemos há oito, e descendo a escada mais doze. Avançam decididos a nos trucidar. Se não formos duma vez, conseguirão.

- Por aqui! – chama Pablo, que segue os latidos de Thor no fim do corredor.

Pomo-nos a correr, perseguidos pelos malditos. À medida que avançamos, vemos corpos destruídos sobre as camas de alguns quartos com a porta aberta. Os corredores também não são a imagem mais bonita, exibindo várias marcas de sangue, vidros quebrados, móveis caídos. A cada passo piora.

Chegando ao fim do corredor, viramos à direita, mas voltamos. Há mais cinco saindo por algumas portas. Continuamos correndo, ofegantes. Uma corrida pela vida que parece não ter fim. Sinto-me a ponto de parar e desistir. Talvez a morte seja rápida. Um tanto dolorida, mas rápida. Se me morderem a jugular, eu provavelmente não sentiria muito. Apenas alívio. Sinto minhas pernas amolecendo, como se eu estivesse correndo sobre almofadas. Esse pode ser o fim. Agora.

- Aqui!

O grito de Pablo me desperta do transe repentino. Vejo-os entrando num quarto, enquanto outro grupo avança do outro lado do corredor, sem contar os que nos seguem. Entro logo atrás deles, e a porta é barrada. Ela treme um bocado devido as pancadas violentas dos infectados. Pooh, Pablo, Carla e eu a bloqueamos. A ruiva entra por um corredor estreito.

Suamos pra manter a porta fechada, já que não há chave para trancá-la.

- Alguém procure a chave pra essa porra! – berra Pooh, nervoso.

Eu me jogo no chão e olho por debaixo da cama. Nada. Reviro os lençóis, abro as gavetas dos criados-mudos, olho por todo lado no quarto. Nenhuma chave. Virando-me, quase bato de frente com a estrangeira, que parece bem assustada. Apontando por onde veio, olho, vendo a porta do banheiro escancarada. Há sangue no chão. Rapidamente vou até o cômodo, não muito surpreso com o que vejo.

Uma mulher nua caída dentro da banheira, de pernas pra fora, completamente dilacerada. Sua cabeça se encontra do lado de fora, caída sob o tapete. Olhos arregalados. A banheira está totalmente suja de sangue, com alguns nacos de carne humana espalhados. Provavelmente de seu pescoço. Um brilho em sua mão me chama atenção. Aproximando-me, quase não acredito. Uma chave.

Sem pensar duas vezes, pego-a e volto pro quarto, usando-a na porta. Trancando-a, nos vemos finalmente seguros. Ou menos em perigo.

Pablo vai pelo corredor do banheiro, visivelmente abalado.

- Cara, você não vai querer entrar aí! – tento avisar.

No mesmo instante ele volta, mais abalado. Thor pula sobre a cama e late sem parar. A ruiva se mantém num canto, ninando o bebê. Pablo a admira, curioso.

- Fim da linha! – fala Pooh, parado no meio do quarto, nos olhando sem ação.

- Não fala merda, Pooh! – retruca Carla. – A gente vai sair dessa.

- Com certeza, morena. Dessa pra melhor! – zomba ele. – Você não viu o que acabou de acontecer lá fora?

- Vi tanto quanto você. – ela senta na cama e recarrega a arma. – Tem que haver um jeito de dar um fim nisso.

- Bomba atômica? – solta Pablo.

Todos o olhamos. Tímido, ele volta a observar a ruiva.

- Como a gente vai sair daqui? – indaga Pooh.

- Peraí! – se admira a mulata. – Primeiro você diz que não tem saída, depois você quer sair do único lugar seguro? Você foi mordido ou tá bêbado mesmo?

- E você acha que ficar trancada nesse quarto vai salvar sua vida?

- Vai me permitir viver um pouco mais.

Os dois se encaram por um tempo. Parecem dois cães se estranhando. Nada pessoal, Thor.

- Que seja! – finaliza ela. – Quer sair, sai. Vai lá dar a eles o que comer.

Pooh apenas mostra o dedo do meio e dá as costas. Thor late.

Levantando-me, vou até a janela e olho pra baixo. Estamos no terceiro andar do hotel. As ruas estão infestadas pelos infectados. Carros batidos e muito sangue pintam a cena. Vejo um carro em alta velocidade, desgovernado, sendo perseguido por algumas pessoas. Não vai muito longe, pois capota e entra com tudo por uma vitrine, explodindo.

Carla vem correndo, atraída pelo barulho.

- A gente tá ferrado, não tá? – ela fala baixinho, sem nem me olhar.

Não sei o que dizer. Apenas suspiro, fitando o fogo consumindo o local do acidente.

No mesmo instante, sinto algo molhado em meu rosto. De novo em meu braço. Olhando pra cima, vejo o chuvisco começando. Fraco e silencioso. Fecho os olhos e sinto a água em minha face.

- Eu, - Pablo tenta se comunicar com a estrangeira, batendo no peito como o Tarzan. – Pablo. Eu, Pablo. Você?

Ele aponta pra ela, com um ar de interrogação. Após alguns segundos, ela finalmente fala algo que se possa entender.

- Yulia.

- Prazer, Yulia.- ele oferece a mão, a qual ela aperta, confusa. Depois, continua. – Aqui, Brasil. Pablo do Brasil. Yulia de...?

Quando ele abre os braços pra expressar o país, consegue roubar uma careta confusa da garota. Ainda assim ela não entende. Pablo tenta falar Brasil de várias maneiras. Depois de algumas tentativas, a ruiva finalmente entende.

- Rossíya.

- Isso é Rússia? – pergunta Pablo, olhando pra Carla.

- Parece que sim. – responde ela.

- Alguém aqui fala russo?

Ninguém.

- Foi o que pensei. – e volta a observá-la. – Agora eu não sei o que te falar.

Yulia o olha, curiosa. Parece mais calma. Não totalmente, mas mais do que antes.

O barulho de tiros assusta a todos no quarto. Não tiros de submetralhadora, e sim um revólver normal. Pooh se coloca contra a porta, e ouve.

- Serão eles? – pergunta Carla.

- Todos estavam usando submetralhas. – fala Pooh. – Espera.

Ouvindo novamente, entorta a sobrancelha.

- É um homem.

Empunhando a arma, Pooh destranca a porta e aguarda um segundo antes de escancará-la. Um homem negro grita olhando pra frente, mas Pooh chama sua atenção. Antes que possa atirar, o grandalhão vê a orelha do indivíduo explodindo numa bola de sangue. Um tiro, vindo do fim do corredor. Curioso, olha e vê Conrado correndo cego de medo.

- Socorro! – grita ele, enquanto atira pra todo lado.

Pooh é obrigado a abaixar quando um dos tiros passa rente à sua cabeça. Conrado nem sequer pára. Continua correndo descontrolado, perseguido por vários infectados. Pooh bate a porta e some.

- Não acredito! – grita Carla, indignada. – Esse cara só dá trabalho! É parente de vocês?

Pablo nega.

- Amigo?

De novo.

- Então ele merece um tiro nos córneos! – pragueja ela.

Checando a arma, a morena abre a porta cuidadosamente e sai. Ninguém.

- Eu vou atrás dos outros. Fiquem aqui trancados e não façam barulho.

- Espera! – grito. – Eu vou com você. E não adianta reclamar.

Ela faz uma careta, mas cede. Eu não conseguiria ficar socado nesse quarto esperando. Ficaria louco.

Assim que saímos, ouço a chave trancando a porta. Estarão seguros. Carla faz sinal para segui-la e ficar em silêncio. Como se eu fosse sair gritando. Tudo que podemos escutar enquanto nos esgueiramos pelos corredores mal iluminados são os berros dos infectados, por todos os lados. Vez ou outra vejo algum deles passando no fim dos corredores. Por sorte não nos veem.

Tiros chamam nossa atenção. Vem do andar de cima ou, talvez, do próximo.

- Corre!

Parece a voz de Lizzy, seguida de berros ferozes. Carla apenas olha pro alto e ao redor. Está completamente perdida, embora tente passar uma imagem corajosa. Cautelosamente vai até o fim encostada na parede, empunhando a arma, e vira no próximo, mirando para um possível alvo. Ninguém.

Assim que faz sinal para eu ir, um homem gordo e nu usando apenas as meias e com o rosto dilacerado, onde falta um olho, sai de um quarto próximo e a ataca, os dois caindo ao chão. Ela tenta atirar, mas erra, acertando o lustre, que explode em faíscas. Eu pulo para o lado por reflexo, e me encosto à parede. Olho para os lados em busca de algo para ajudá-la e vejo uma luminária. Desprendendo-a com certa dificuldade, viro-me pronto para acertar o gordo, mas dois infectados correndo em nossa direção, no fim do corredor, me desorientam por um instante. Rápido, vou até Carla e golpeio com toda força a cabeça do maldito, que cospe sangue em sua blusa, rosnando em minha direção. Carla o empurra e rasteja para o lado. Quando ele avança, ela dispara contra o olho que restou, derrubando-o.

- Rápido! – grito, olhando para os dois que se aproximam.

Levantando-se num pulo, ela os metralha, fazendo-os capotar nas próprias pernas. O barulho certamente atrairá outros, então saímos correndo dali. Percorrendo o extenso corredor de carpete marrom, somos surpreendidos por outro homem. Aproveito a luminária que ainda está em meu poder e perfuro sua testa, sem piedade. Talvez eu tenha usado de muita força, mas a luminária enrosca na cabeça do infeliz. Não há tempo para soltá-la. Continuamos, ouvindo os lamentos dos “hóspedes” desse hotel sem vagas.

Na quebra de outro corredor surge uma velha de vestido longo e azul, completamente ensanguentada. Carla poupa munição, derrubando-a numa rasteira, e usa a base da arma para afundar seu crânio. Um golpe fatal.

- Isso aqui tá pior do que a favela, moleque! – dispara.

Nunca estive em uma favela, então nem respondo ao comentário. Mas não acredito que seja algo que possa se comparar com esse inferno. Nenhum filme de terror que já assisti pode ser comparado ao que estou passando. Ao meu próprio filme.

Avistando outro infectado vindo em nossa direção, pego a alça de um carrinho de café da manhã, ainda com o café para ser servido, como um dos pães de queijo, que para minha surpresa está morno, e empurrando-o, começo a correr. Investindo contra o homem, bato o carrinho com toda força em suas pernas, fazendo-o voar por cima do mesmo, desviando-me. Olho-o caído ao chão e chuto seu nariz com brutalidade, repetidamente. É o suficiente para matá-lo ou desacordá-lo.

- Ei! – Carla me chama.

Virando-me, vejo-a saindo por uma janela enquanto um grupo deles surge do outro lado. Não há para onde ir, exceto pela janela. Ligeiro, a sigo, e encosto a janela. Usando como apoio um peitoril estreito, mas suficientemente largo para ocupar meus pés, sigo Carla, cauteloso. Estamos há três andares de altura. Olhando ao redor, vemos a piscina do hotel rodeada de cadeiras brancas reviradas e manchadas de sangue, e grandes palmeiras cercando-a. Corpos por toda parte, todos caídos. Nenhum infectado à vista.

O barulho de estilhaços nos chama atenção para a janela por onde saímos que acaba de ser destruída por várias mãos assassinas. Os berros pouco distantes me desconcentram, o que quase me faz despencar. Por sorte me seguro a tempo. Algumas partes da parede são cobertas por heras, o que ajuda a nos manter equilibrados. Carla continua cuidadosa, mas quando passa por uma janela, é atacada por um infectado. Ele a agarra pelos cabelos e tenta mordê-la, gritando, mas ela o puxa pelo colarinho com força. Só tenho tempo de vê-los cair em direção à piscina, por sorte. Se tivessem caído no chão, teria sido o fim pra mulata.

Quando vejo seis deles surgindo pelas portas e indo até a piscina, grito.

- Carla, cuidado!

Ela ainda golpeia o que a atacou algumas vezes antes de quebrar seu pescoço. No exato momento em que os outros pulam na piscina, aos berros, manchando a límpida água de sangue, Carla se vira e vai até a borda, saindo agilmente. Atira contra dois no caminho e corre, mas escorrega devido ao excesso de água pelo chão. Deve ter sido uma pancada e tanto, já que ela demora pra levantar, parecendo atordoada, com a mão na cabeça.

- Carla, levanta! – grito. – Eles estão chegando!

Os infectados que se jogaram na piscina saíram pela elevação do outro lado e se aproximam rapidamente da mulher.

- Carla! – grito mais uma vez.

Ela sente o perigo e levanta num pulo, ainda visivelmente zonza. Passando pela passagem na cerca ao lado, corre até uma grade na parede e a escala, já recuperada, bem a tempo de evitar que a alcancem. Foi por um triz.

Continuo pelo peitoril, bem mais cuidadoso quando passo próximo às janelas, e nos encontramos novamente quando ela alcança o terceiro andar.

- Vamos continuar por essa grade. – diz ela, subindo sem descansar.

Antes que possa segui-la, vemos mais deles na janela acima, esticando suas mãos em nossa direção, alucinados.

- Não vamos continuar por essa grade. – completa.

Continuamos pelo peitoril, dessa vez eu na frente, e chegamos a outra janela escancarada e quebrada. Olhando pra baixo vemos uma garota com a cabeça espatifada contra o chão. Deve ter sido ela que caiu por aqui. Nem tento imaginar como, já que há inúmeras possibilidades.

Mal entramos e outra mulher aparece, uma japonesa com roupas brancas, obviamente também manchadas de sangue. Por um breve momento me lembro de Ricardo. Ele não merecia aquele fim. Por que fizeram aquilo com ele? Maldita LAQUARTZ. Maldita Abigail.

Rápido, quebro um porta-retratos no criado-mudo logo ao lado e uso um caco de vidro para cortar seu pescoço. Ela ainda tenta atacar, mas Carla lhe golpeia com a coronha da arma na testa. Caída sobre a cama, tem sua garganta esquartejada de ponta a ponta por mim. Já quase não sinto remorso em fazer isso.

Saindo do quarto, vemos que o corredor está vazio. Não por muito tempo, com certeza. Vamos direto até a escada mais próxima e subimos, silenciosos mas com pressa. Assim que chegamos ao topo, Carla tromba de frente com outra mulher, e as duas miram suas armas. Lizzy.

- Graças a Deus! – diz ela. – Vocês estão bem?

- Nunca estive melhor. – Carla faz uma careta.

Logo depois LC aparece ofegante.

- Puta merda! Essas coisas saíram de algum filme de terror?

- Mais ou menos. – respondo. – Cadê a Dani?

- Não sabemos. – responde Lizzy. – Assim que chegamos ao andar de cima, fomos cercados por um bando desses filhos da mãe. Victor foi por um lado com sua amiga enquanto aquele Conrado tirou uma arma da cintura e saiu correndo por outro. Por sorte, atraiu a maioria atrás dele.

- Tomara que o tenham pegado. – cochicha Carla. É, não foi só eu que não simpatizou com o cara.

- Isso aqui tá um inferno. – continua LC. – A gente quase virou comida de canibal.

- Se eu te contar o que nós passamos, garanto que ficaríamos quites, querido. – fala a mulata, dando-lhe uma piscadela.

- Mas afinal de contas, o que são essas coisas? – pergunta ele.

- Fruto dos experimentos da LAQUARTZ, sem dúvida. – responde Lizzy, lançando-me um breve olhar. – Abigail foi longe demais dessa vez.

- Dessa vez? – fico surpreso. – Por quê? Já houve outras vezes?

- É uma longa história, Tiago. – explica a loira. – Mas Abigail é bem pior do que você possa imaginar. Infelizmente, - ela empunha a submetralhadora e mira quase em minha direção. – não há tempo para explicar.

E atira, derrubando um que estava subindo as escadas, atrás de mim.

- Vamos!

Assim que nos viramos, vemos infectados por todos os lados. Estão prestes a dar o bote.

- O elevador. – grita LC, correndo.

Logo adiante ele aperta o botão, enquanto os monstros disparam em nossa direção.

- Vai, vai, vai! – grita ele, socando a porta.

O elevador chega bem a tempo de podermos entrar e escapar de uma morte dolorosa e cruel. Outra vez. Enquanto descemos, apenas ouvimos nossas respirações, descompassadas, secas. Não passa nem um minuto e a energia acaba, fazendo-nos ficar presos no escuro.

- Fala sério, meu! – grita Carla. – Tô começando a me sentir em um Reality Show.

- Calma! – pede Lizzy, chamando LC.

Ele usa uma faca e consegue abrir a porta, o bastante para Lizzy enfiar as mãos e puxá-la. Estamos na metade de cima do andar.

- Acho que eu consigo passar. – Lizzy realmente é magra o suficiente pra poder sair pela passagem.

Passando os braços e a cabeça, vai deslizando, e quando chega na cintura, sentimos o elevador tremer. Silêncio.

- Lizzy, não é por nada não, mas é melhor você ir mais rápido, gata! – brinca LC, nervoso.

- Eu to tentando. – fala ela, enquanto esperneia, forçando-se pra fora. – Minha bunda entalou! Me empu... RÁPIDO!

Olhando pela passagem, vejo um infectado correndo aos berros. Lizzy vai virar comida?

- Calma, Lizzy! – grita Carla, enquanto tenta acertá-lo. – Droga! Não consigo mirar.

- Rápido! Ele tá perto! – ela começa a perder o controle.

A poucos metros de alcançá-la, ouvimos um tiro, que faz o homem voar pro outro lado.

- Victor! – vibra Lizzy, sendo ajudada por ele a sair do elevador.

Em seguida, coopera para abrir a porta, e todos saímos.

- Tiago! - olho para o lado e encontro Daniela. – Você tá bem?

- Tô sim! E você?

- Como não ficar bem com um armário desses? – e aponta para Victor, cochichando. Esboçamos um discreto sorriso.

- Onde está Pool? – pergunta o grandalhão.

- Ele foi atrás do Conrado e sumiu. – explica Carla. – Você o conhece. Ele está bem.

- Todo cuidado é pouco, Carla. – responde Victor. – Vamos encontrá-lo.

E começa a marcha.

- Espera! – aviso. – Yulia e Pablo estão nos esperando.

- Yulia? – indaga Daniela.

- É o nome da ruiva. Ela é russa e não me perguntem como descobrimos isso. É uma longa história.

Assim que me calo, faço sinal para me seguirem, Carla ao meu lado. Por sorte, não encontramos nenhum dos monstros.

- É aqui? – Carla pergunta, assim que chegamos ao quarto.

- É. – respondo confuso, vendo a porta aberta e ouvindo barulhos estranhos. – Acho que...

Entrando, vemos um casal de infectados se debatendo contra a porta do banheiro. Thor late lá dentro.

- Ei! – grita Victor.

Os dois se viram e arregalam os olhos assim que nos veem. Rosnando, avançam, mas são detidos por tiros certeiros em suas cabeças. Carla vai até a porta.

- Podem sair.

Após breves segundos, a porta é destrancada. Thor sai correndo e sobe na cama. Pablo vem em seguida, protegendo Yulia e o bebê atrás de si.

- Vocês demoraram. – diz ele.

- Mas estamos vivos, é o que importa. – retruca Carla. – E vocês também, graças a nós. Disponha!

- O que aconteceu? – pergunto.

- Ouvimos tiros e achamos que vocês tinham voltado. Abri a porta e fomos atacados por esses dois cretinos. Só tivemos tempo de correr pro banheiro e nos trancar.

O choro do bebê é contínuo.

- Esse bebê precisa comer. – fala Lizzy, aproximando-se.

- Alguém tem leite? – pergunta Pablo.

Obviamente ninguém responde. O som do walk-talk de Lizzy nos surpreende.

- Pronto!

- Lizzy! – é Pooh. – Preciso de ajuda, e rápido.

- Onde você tá, Pooh? – ela parece bem preocupada.

- Eu segui esse filho da mãe do Conrado até o térreo e evitei que mastigassem sua garganta. Estamos presos dentro de uma despensa, na cozinha.

- Onde fica isso?

- Sei lá, nos fundos. – responde, irritado. – Vá até a restaurante e entre pela porta à direita que você chega à cozinha. Depois disso, será fácil saber onde estamos, não se preocupe.

- Ok, estamos indo!

- Rápido! – desliga.

- Vocês ouviram. Vamos!

E saímos mais uma vez do quarto. Espero não ter que voltar aqui de novo, fugindo.

Assim que Victor sai por último e fecha a porta, mais deles surgem do outro lado. Pomo-nos a correr novamente. Os agentes vão derrubando os que aparecem no caminho enquanto descemos dois andares, chegando ao térreo. A situação ali é bem pior, já que além dos hóspedes e funcionários do hotel, mais infectados vem das ruas. Corremos adentrando mais o prédio e chegamos ao tal restaurante. Bagunça total. Mesas reviradas, comida por todo lado, corpos caídos. Sem mencionar o sangue. Muito sangue.

Lizzy toma a dianteira e vai pela porta mencionada por seu amigo. Todos entramos e trancamos a porta, por sorte com chave. Trancamos outra pra reforçar e nos vemos na cozinha, também completamente bagunçada. Em silêncio, ouvimos berros vindos dos fundos. Os agentes vão à frente com as armas empunhadas, prontos para atirar em qualquer coisa que atacar.

Finalmente chegamos a tal despensa, onde vemos vários infectados batendo contra uma porta de ferro, manchada de sangue e um tanto amassada. Pooh e Conrado devem estar ali. Victor faz sinal pra LC, e grita.

- Ei!

É o suficiente pra chamar atenção do bando, que se vira e rapidamente investe contra nós. Os dois são mais ágeis e fecham a porta, impedindo-os de nos alcançar. Enquanto se debatem contra a mesma, não percebem Pooh e Conrado saindo cautelosamente da despensa. Conrado se esconde atrás de um armário e Pooh fica atrás da porta, mantendo-a aberta, e grita como Victor fez. A maioria dos infectados corre até a despensa, sendo trancados por Pooh, que bate a porta violentamente, bloqueando-a com o corpo. O som da pancada chama atenção dos demais, que atacam ao verem Pooh, aparentemente indefeso. Victor abre a porta num chute e os metralha sem dó. Pooh abre a despensa, permitindo que os outros também sejam eliminados.

- Te devo uma, Victor!

- Estamos quites. – responde o negão, recarregando sua arma.

Lizzy se aproxima de Pooh e os dois conversam, enquanto ela lhe entrega alguma munição. Conrado sai devagar de seu esconderijo. Ninguém faz questão de puxar assunto.

- Eu estou bem, obrigado! – diz ele, sem resposta.

Todos estão conversando em duplas ou trios, perdidos e assustados.

- Vamos descansar aqui. – fala Victor. – Temos comida e água por algum tempo.

Pablo chama Yulia para um canto, e encontra leite. Os dois sorriem, e até arrisco em dizer que sinto um clima. Pablo coloca leite em um prato e o deposita no chão, o qual Thor ataca faminto. Depois, lhe entrega alguns pedaços de pão.

Conrado vasculha alguns armários em busca de comida. Não será tão fácil pra ele se enturmar.

LC, Carla e Daniela dividem um pedaço de bolo de chocolate, enquanto conversam discretamente.

Pooh, Lizzy e Victor recarregam suas armas e discutem sobre algo que os deixa claramente pensativos.

Por um momento sinto-me aliviado de todos estarem ocupados. Assim não percebem o quanto estou passando mal nesse momento.

Sinto algo queimar por debaixo da pele. É como se algo estivesse correndo pelo meu sangue, esquentando-o. Disfarçadamente saio da cozinha e entro por um corredor, encostando-se à parede. Tento fixar minha vista em algum ponto, mas é impossível. Tudo gira sem parar, numa imagem avermelhada e embaçada. Ouvindo as vozes deles na cozinha, me afasto mais e mais, saindo por uma porta de madeira. Vejo-me no estacionamento dos funcionários do hotel. Completamente vazio.

Minhas pernas me guiam pelo lugar, sem que eu possa evitar. Parece que algo me puxa, me chama. Cambaleio bastante pelo caminho. Minha cabeça dói. Meu sangue ferve mais.

Sem controle, desço por uma rampa e vejo-me dentro de um lugar mal iluminado e cheio de máquinas. Ao lado, um lugar mais claro me chama atenção. Entrando, chego à lavanderia. Finalmente encontro lençóis limpos, sem uma mancha sequer de sangue. Encosto-me na parede e observo as veias de meu braço pulsando. Em alguns momentos acredito ver algo as serpenteando. Fecho os punhos e gemo de dor.

- Deus! O que... – nem tenho tempo de terminar a frase.

Detrás de alguns lençóis pendurados, um rapaz surge gritando, com o braço erguido. Desvio a tempo de evitar que ele me afunde a cabeça com um ferro de passar roupa, mas não consigo ser tão rápido para desviar de seu soco, que me derruba sobre a mesa, que vira e me joga ao chão.

Quando ele investe novamente contra mim, querendo me golpear com o ferro, dou-lhe uma rasteira, derrubando-o de costas no chão. Usando as últimas forças que me restam, jogo contra ele e seguro seus braços pra cima, impedindo-o de se mexer.

- Me solta, monstro! – grita ele.

Seguro-o com força, olhando em seus olhos. Sinto meus olhos revirarem e a sensação ruim finalmente passa. Vejo-me sobre o garoto, segurando-o, enquanto ele me observa, assustado.

 
.

12 mordidas:

Anônimo disse...

To gostando da historia

mas essa fonte que vc ta usando doi a cabeça.

É cansativa demais para ler em tela!

Volta para a inicial!

14 de dezembro de 2008 19:19
Anônimo disse...

To gostando da historia

mas essa fonte que vc ta usando doi a cabeça.

É cansativa demais para ler em tela!

Volta para a inicial! [2]

30 de dezembro de 2008 22:58
=D disse...

Perfeito!

mas essa fonte que vc ta usando doi a cabeça.

É cansativa demais para ler em tela!

Volta para a inicial! [3]

30 de janeiro de 2009 20:33
Bodones disse...

pqp mais um piazinho @_@ UHDSHUDASHUDHU

eu gostei das letras o.x

20 de fevereiro de 2009 01:29
Huntress disse...

Eu não vi diferença nas letras x.x

Será que o Tiago ta tendo os mesmos ataques que o Ricardo e a Daniela tiveram??

20 de fevereiro de 2009 05:51
Anônimo disse...

historia eh muito boua, mas tipo... a muniçao dos "agentes" nao acaba numca? XD

8 de maio de 2009 21:13
Erukusu disse...

Tenho quase certeza que é os mesmos ataques.

Legal esse carinha atacando ele, parece até que ele tá parecendo com um zumbi.

17 de julho de 2009 02:14
Gustavo disse...

kraleo maluko
a sua história é sinistra,
não consigo parar de ler!
qria eu ter uma criatividade e paciência dessas meu!!! :)

30 de agosto de 2009 03:23
Anônimo disse...

provaveumente ele eles tem aquelas metralhadoras de 30 balas no pente
normalmente soldados assim levam uns 3 pentes consigo dando um total de 90
balas por agente como sao treinados e vem a quantia de inimigos eles provavelmente dao um tiro por zumbi
economizando municao

25 de fevereiro de 2010 15:27
Matheus Parkour disse...

To gostando da historia

mas essa fonte que vc ta usando doi a cabeça.

É cansativa demais para ler em tela!

Volta para a inicial![4]

Obs: Bacana, um sobrevivente criança, pelo menos acho

11 de março de 2010 18:33
Tiago Toy disse...

A fonte usada no livro não vai doer a vista de ninguém, rs
Sem contar as partes dos flashbacks, onde as páginas dão uma escurecida. A atenção dada ao livro ficou soberba, vocês precisam ver.

Sejam bem-vindos novos infectados, e aos antigos, espero que continuem sobrevivendo.

Grande abraço!

6 de julho de 2012 23:55
nadson twd disse...

Tiago ta gostando da daniela

7 de novembro de 2012 20:19

Postar um comentário