Capítulo 21 - Claustrofobia



Dois infectados vagam no meio da rua, cheirando, rosnando. O mais alto, negro, veste um uniforme laranja da Prefeitura, com várias manchas de sangue no lado direito do corpo. Há uma mordida em sua face, onde a pele foi estraçalhada deixando o globo ocular direito totalmente exposto. Parece uma bola de gude prestes a cair e espatifar-se no asfalto escuro. O outro, um tanto rechonchudo, veste terno cinza escuro e, em meio à calvície, parte do crânio está à mostra, com o sangue brilhando a luz do sol. Olham para baixo, como se estivessem procurando algo que deixaram cair. Vez ou outra se esbarram, rosnam como cães, para logo depois voltarem à eterna busca.

Faço sinal para os irmãos permanecerem quietos. Vendo a curiosidade e terror estampados em suas faces, quase acredito que sairão correndo, gritando, a qualquer momento.

Pego um pedregulho solto no chão e, com toda força, arremesso-o o mais longe possível. Se eu tivesse planejado o que aconteceu, não teria acertado. A pedra foi parar dentro da garagem de uma casa, espatifando o para-brisa do Palio estacionado com a porta do carona aberta.

O barulho chama atenção das duas aberrações instantaneamente, pois num repente se viram e vão em direção à residência, adentrando o portão escancarado. Com o caminho livre, seguimos sorrateiros.

Várias vezes nos deparamos com pequenos bandos de infectados caminhando, barrando nosso caminho. É mais prudente desviar e pegar outras vias na maior parte das vezes. A sorte geralmente não acompanha uma pessoa por muito tempo, e quando resolve ir embora, sai sem avisar. Não deixa nenhum bilhetinho.

Após longos minutos – quase uma hora inteira – chegamos em frente ao supermercado principal de Jaboticabal. De longe, avisto a praça onde fica a delegacia de Jaboticabal. No estacionamento do mercado há vários carros deixados pra trás. Provavelmente seus proprietários nem tiveram tempo de alcançá-los antes do ataque. Nem me passa pela cabeça entrar no local, ainda que atacar aquele monte de comida seja tentador. Quem sabe se a fome apertar.

Há vários infectados vagando. Mantenho-me abaixado detrás da baixa mureta que circunda a calçada, seguido pelas crianças. Minhas costas doem, não só pela posição, mas por tanta adrenalina. Já ouvi que adrenalina faz bem e tudo mais, mas tudo em excesso cansa. Queria tanto poder deitar e dormir. Mas dormir de verdade, e não apenas fechar os olhos por algumas horas e, mesmo estando inconsciente, continuar tenso. Sinto como se estivesse acordado há um mês sem pregar os olhos.

Atravessando a rua, escondemo-nos sobre alguns arbustos. Ainda vigio por detrás das folhas. Alerta total. Se eu conseguir chegar ao pai dessas crianças – preferencialmente vivas – e o mesmo estiver, milagrosamente, também vivo, posso ter uma chance de escapar desse inferno. A esperança é a última que morre. Isso se esses filhos da mãe não a devorarem também.

- E aí, onde vocês moram?

Pergunto tão baixo que penso em repetir para que os dois escutem. Mas, apesar de serem crianças, não são burros e entendem que a situação pede que se evite qualquer barulho. Carlinhos responde na mesma altura.

- Naquela casa amarela na frente da polícia. – e aponta uma casa, não amarela, mas bem próxima da cor.

A rua parece deserta naquele ponto, graças a Deus. Há dois carros batidos logo adiante. Aproximando-me, vejo o corpo de um homem estirado sobre o capô amassado. Este não teve tempo de ser “zumbificado”. Espero que continue mortinho da Silva. Aproveitando a porta entreaberta, chamo os dois e, com um sinal breve, mando-os entrar.

- Fiquem aqui e não saiam! – ordeno de cara fechada. Crianças costumam obedecer mais quando somos firmes. Leia-se grossos.

Fechando o vidro, encosto a porta, a fim de mantê-los vivos. O que diria ao bater na porta, além de “Vim trazer seus filhos mas eles foram comidos no caminho. A propósito, me salve, obrigado” se entregasse um par de defuntinhos?

Caminho em direção a casa o mais cuidadosamente possível. Ouço apenas o pio de alguns pássaros empoleirados no alto de uma árvore e o som de uma folha seca caindo próxima a meus pés. Olho de relance a delegacia, tão próxima. Como não vim aqui antes? É segura e certamente há um meio de comunicar-me com alguém fora de Jaboticabal. Não é possível que, o que quer que esteja bloqueando qualquer meio de contato de dentro pra fora da cidade, tenha poder também ali. Sem mencionar as armas que poderão me ajudar, e muito, embora não faça a mínima ideia de como manusear uma. Acredito que serei obrigado a aprender.

A casa das crianças parece bem silenciosa. Não há sinais de arrombamento nem marcas de luta. Nem sangue. Bom sinal. Virando-me, vejo-as olhando pelo vidro, abaixadas. Seus olhinhos brilham. Medo? Saudade dos pais? Esperança? Sinto o mesmo, parceiros.

Abrindo devagar o portão baixo, sinto o frescor da sombra da varanda em minha cabeça. O sol não está forte, mas a sombra é sempre melhor. Caminho sem fazer um barulho sequer. Não é difícil. A vontade de não morrer ajuda bastante.

- Mamãe!

Giro cento e oitenta graus ao ouvir a voz de Pâmela. A garota corre em direção a uma mulher que surgiu não sei de onde. De repente para. Não. Não é sua mãe. Pelo menos não a que ela esperava encontrar. A infectada rosna, cuspindo sangue, que desce pelo pescoço e mancha o vestido branco.

- Cacete!

Quando vejo a garota dar meia volta e correr em direção ao carro, onde Carlinhos a espera chorando com a porta aberta, ajo num impulso e dou um passo em direção ao portão, planejando desviar a atenção da maldita. Paro assim que ouço a porta de casa se abrir atrás de mim.



♦ ♦ ♦



A chuva continua incansável.

Permaneço parado próximo a vidraça assistindo aos infectados sendo lavados sob a água. Vagam sem rumo, mas nunca deixam as proximidades do hotel. Pelo menos não a maioria. Analisando melhor, parece que aumentam de número a cada vez que me viro. Imagino se estarão sentindo nosso cheiro. Nossa presença.

Minha vista sempre foi boa. Nunca tive problemas de visão, ainda que passasse várias noites acordado lendo ou assistindo TV. Nunca precisei de óculos. Da distância que os vejo, até consigo notar alguns detalhes. Por exemplo, o sangue escorrendo da boca de muitos e perdendo-se na água, manchando o asfalto em algo vermelho claro. Quando rosnam, espirros d’água chocam-se em outros, e assim sucessivamente. Não parecem incomodar-se com o frio. Não parecem incomodar-se com nada. Talvez estejam apenas esperando um deslize nosso pra conseguir o que querem. E, por falar nisso, será que essas coisas pensam?

Uma respiração mais alta me traz de volta ao quarto.

Viro-me e vejo Daniela ao lado de LC, os dois de olhos arregalados. Lizzy levanta-se devagar da cama, onde estava sentada, e mantém uma postura defensiva. De relance, vejo Pablo do lado de fora, esperando no corredor. Está de braços cruzados, encostado na parede de cabeça baixa. Thor está ao seu lado, deitado na soleira da porta. Pooh saiu há alguns minutos e não voltou. Carla também não se encontra, e não faço ideia de onde esteja. O mesmo digo de Victor. Oliver é o mais próximo, com uma expressão curiosa estampada no rosto.

Yulia, deitada sobre o lençol branco e macio, foi limpa e teve os braços enfaixados por Elizabeth enquanto estava desacordada. Quando abre os olhos, de início calmamente, mas num estalo logo em seguida, nem percebe estar vestindo uma camisola púrpura acetinada, encontrada por Daniela em um dos armários no quarto ao lado. Achamos melhor transferir a ruiva de quarto. O outro não estava num estado muito apresentável. E após o que aconteceu...

- Yerik!

É a primeira palavra que a russa emite – grita – assim que posta-se sentada na cama. Enxergo a angústia em seus olhos claros, pulando de rosto em rosto no quarto. Suplicante.

Thor levanta a cabeça e as orelhas um segundo antes de Pablo se mexer e entrar no quarto, de braços ainda cruzados. Na verdade está segurando algo. Ainda o olhando.

- Yerik... – Yulia geme baixo.

Pablo olha pra garota e, após longos segundos, que acredito terem sido uma eternidade pra russa, sorri. Numa leve contração com os braços, o que percebo ao ver seus músculos inflando discretamente, estende o bebê. Yulia o pega carinhosamente e olha em seu rostinho angelical. Quando os olhinhos brilhantes despertam, Yulia rompe em lágrimas.

- Yerik!

O bebê está bem. Por um milagre muito filho da mãe. Pelo que percebemos, Thor conseguiu impedir a infectada antes de Yerik virar comida. Na briga, a colcha da cama enrolou e caiu do outro lado, com Yerik envolto pelo acolchoado do pano. Sem um arranhão sequer. Quando ouvimos seu choro assustado, seguimos o barulho e, desembrulhando-o, nos deparamos com um rostinho vermelho, depois fazendo beicinho, mais rosado, e rapidamente num sorrisinho sapeca. Yulia o abraça e diz algumas palavras incompreensíveis, porém as quais todos entendemos tratar-se de algo carinhoso. Com um beijo na pontinha de seu nariz, Yulia diz algo e olha para Pablo, com os olhos como duas estrelas sozinhas na imensidão da noite. E diz.

- Spasibo.

Pablo faz uma careta tímida e confusa. Yulia traduz, com um sotaque bem carregado.

- Obrigado.

- Ah, de nada! – Pablo arreganha um sorriso enorme, mais envergonhado. E aponta o cachorro postado aos seus pés. – Agradeça a ele. Thor quem salvou Yerik, querida!

E aponta de novo, dessa vez de Thor para Yerik e de volta para Thor. Yulia parece entender perfeitamente, lançando um sorriso de gratidão ao cão. Thor late alto, deixando a língua de fora.Assim que a ruiva volta sua atenção à criança, Pooh começa, sem pedir licença, olhando para Pablo e LC.

- Vamos começar?

Enquanto Yulia estava desmaiada, conversamos a respeito do ataque repentino. Quando foi feita a limpa no hotel, os agentes estavam convictos que nada fora deixado para trás. Não havia outras entradas além das já lacradas. Portanto, ninguém ainda conseguira entender de onde a dupla assassina surgiu. Não escalaram as paredes até as janelas nem brotaram do chão. Chegaram até a cogitar a hipótese de alguém – Conrado – tê-los colocado pra dentro, mas nem ele seria tão imbecil a tal ponto. Decidiram então promover uma segunda inspeção.

Pouco depois de Pablo e LC olharem-se e acenarem positivamente, Victor surge como um gigante na porta. Sua expressão não é nada convidativa.

- E aí? – Pooh pergunta.

Victor o encara com uma sobrancelha abaixada.

- Venham.



♦ ♦ ♦



O rastro de sangue que encontramos no corredor marca pegadas e espirros em uma linha quase reta. Saindo do quarto onde Yulia foi atacada, leva em direção ao próximo corredor e por um outro mais adiante. Termina – ou melhor, começa – descendo num fio vermelho já seco na parede, saindo d’uma entrada de ar destampada no alto. Clichê.

- Humpf. – Victor bufa em tom de deboche, olhando a entrada.

Tentando alcançá-la, nem faz muito esforço, pois devido ao seu tamanho “king size”, não conseguiria passar nem o braço.

- Não é preciso perdermos tempo confirmando o óbvio. – começa o grandalhão. – Alguém se habilita?

E aponta o buraco. Lizzy acena com a cabeça e vai até Victor. Retirando uma faca presa ao tornozelo, a loira sobe com o auxílio do parceiro, entrando com pouca dificuldade. Desliza para dentro do vão como uma felina, sumindo.

- Alguma coisa, gata? – pergunta Pooh, com um leve ar de preocupação no cenho.

Após um tenso e breve segundo, a resposta vem abafada.

- Não, pelo menos por aqui. Há mais sangue pro fundo. Vou ver.

- Melhor voltar. – orienta Ivan.

- Relaxa, Pooh.

Devido ao som do cabo da faca batendo no metal do duto, entendemos que Elizabeth se distanciou. Victor se vira para Pooh e percebe a aflição em seus olhos.

- Você sabe que ela se vira bem sozinha.

Ele ignora o comentário e se aproxima da entrada de ar, encostando-se à parede e cruzando os braços, esperando logo abaixo.

- Melhor vasculhar nos arredores. – palpita LC. – Nada impede que outro tenha saído sem deixar rastros.

- Ou outros. – Daniela cochicha quase consiga mesma de tão baixo.

LC empunha a arma e dispara até a esquina, sumindo no corredor adiante. Victor segue na direção oposta, mantendo-se a vista.

Deparo-me com dois pares de olhos me observando. Oliver e Daniela. Parecem esperar que eu diga algo. De repente trocam um olhar mais demorado do que de costume entre si. Aproveito a deixa para virar-me e estacar-me diante da janela mais próxima.

O aglomerado de canibais debaixo da chuva que não para nem por um decreto parece ter multiplicado. Em vários pontos nem se trombam de tão próximos. Estarão sentindo mesmo nosso cheiro, como suspeitei anteriormente? Por quê? Por estarmos, de uma forma ou de outra, vivos? Ou não infectados? Se for isso, não devemos ser os únicos sobreviventes em São Paulo. Seria muita sorte.

Sorte... Engraçado o termo.

Olhando adiante vejo o metrô mais próximo. Brigadeiro, escrito em letras brancas numa faixa verde. Há duas entradas, uma de cada lado da larga avenida. Do nosso lado saem mais infectados, enquanto que do outro a entrada se encontra fechada.

Há um ônibus caído sobre um carro completamente amassado. O incêndio que ali existiu – o que posso notar devido à escura fumaça saindo de ambos os veículos – cessou. Percebo um corpo estirado através do para-brisa. Morto. De verdade.

Por incrível que pareça, alguns locais não foram destruídos, pelo menos não ainda. O prédio em frente ao hotel está de portas fechadas. Intacta. As janelas permanecem inteiras. Olhando andar por andar, finjo estar interessado em algo para evitar que alguém se aproxime para uma eventual conversinha fiada.

Quando bato os olhos no quarto ou quinto andar, não sei, algo me chama atenção. Alguém. Parece estar fazendo o mesmo que eu. Observando a multidão na avenida. Olhando mais atentamente, percebo que está nos olhando. Me olhando. Deve ser outro sobrevivente, tão curioso quanto eu. O mais estranho é que, ao perceber que foi descoberto, some como num passe de mágica. Tímido?

- Tiago.

Caramba, Daniela. Que susto!

- Eles estão nos cercando, né? – sussurra ela. A tristeza em sua voz é bem perceptível.

- É o que parece, mesmo que involuntariamente.

- Hum... Isso não vai ter fim, vai?

- Gostaria de saber, Dani. Gostaria muito.

Não deve ter percebido nosso vizinho do outro lado, pois se aproxima da janela e não diz mais nada. Apenas observa os canibais agitados lá embaixo.

Do reflexo na vidraça vejo Oliver nos olhando logo atrás, com as mãos nos bolsos, parado. No mesmo instante nossa última conversa vem como uma martelada em minha mente.

“E se eu dissesse que meus pais podem nos tirar daqui”?

“Como assim? Do hotel?”

“De São Paulo. Do Brasil, se necessário. Tenho uma condição. Eles não vão ajudar todos. Um, no máximo dois.”

“Pense na proposta.”

Parece um eco, sumindo gradativamente. Provoca um dor prazerosa em meus pensamentos. A dor da escolha. O prazer do fim. Se fosse mesmo possível, quem eu escolheria?

“Eu não poderia deixar Daniela pra trás. Ou poderia?”

O toque repentino de sua mão suave e trêmula em meu braço me faz voltar à realidade, assustadoramente fria. De um lado, Daniela. Olho-a nos olhos. Ela esboça um meio sorriso. Do outro, Oliver, o qual vejo pela vidraça. Seus olhos cravados em mim.

“Pense na proposta.”



♦ ♦ ♦



Lizzy ajeitou o cabelo com a faca, evitando que caísse novamente em seus olhos. Já estava difícil seguir em frente no estreito duto. O desconforto do metal frio contra a pele lhe trazia rápidas câimbras. O silêncio, embora significasse que não havia nada nem ninguém por perto, era de matar. Os calafrios aumentaram.

- Tô aqui em cima, presa. – a voz infantil da garotinha suplicava.

- Lizzy, calma, vou te ajudar. – o menino tentava acalmar, sua voz vindo de algum ponto abaixo.

- Ele vai me pegar. Me tira daqui!

- Calma! Tô chegando.

Resquícios de memórias há muito esquecidas – ou bloqueadas – dançavam em sua cabeça. Forçando os olhos, tentou mantê-los focados no duto escuro. O suor deslizava pela testa, contrastando com o vento frio que acariciava seu corpo.

- Lizzy!

- Tô com medo!

- Vou te tirar daí!

- NÃO!

De olhos arregalados, Elizabeth afastou com muito esforço as memórias ruins.

- Respira. – disse a si mesma. – Você é forte agora. Você já venceu isso.

Limpando a testa molhada, piscou os olhos uma vez, demoradamente, e continuou o trajeto. A trilha de sangue seguia rumo à escuridão da passagem. Em alguns pontos formava poças, enquanto em outros era possível enxergar apenas mãos vermelhas marcadas, distorcidas por manchas maiores.

Após quase um minuto exato, chegou a uma parte que se dirigia pra cima. A subida não era muito íngreme, mas era escorregadia. A loira teria penado mais se não fosse habilidosa o suficiente para a situação. Teria que seguir o rastro até o fim. Não era mulher de desistir no meio do caminho.

No nível superior o rastro continuou. Adentrou um pouco mais, quando de repente ouviu algo.

Esperou.

Silêncio.

- Droga! – praguejou entredentes.

Percebendo algo se mexendo um pouco adiante, concluiu que havia mais de um. No espaço apertado seria quase impossível lutar. Era preciso voltar.

Na tentativa de não fazer barulho, virou-se com muito esforço, quase entalando. Infelizmente, descuidou-se por um breve momento, o suficiente pra deixar a faca cair e bater no metal. O som ecoou pela passagem, multiplicado em vinte vezes.

- Droga! – resmungou mais alto.

Sem perder um segundo sequer, começou a fuga. Sua missão era descobrir se havia mais algum infectado no duto, e não matá-lo. Os levaria pra fora e lá os outros dariam um jeito com as armas.

Quando ouviu o barulho deles se aproximando, percebeu que precisava ser mais rápida. Eles estavam perto demais pro seu gosto. Seus grunhidos pareciam mais assustadores ali. O som de suas mãos batendo no metal enquanto vinham dava mais gás pra fugir.

Numa bifurcação que havia ignorado há pouco viu surgir um homem. Sangue vazava de sua boca, os dentes à mostra. Assim que a notou, berrou como um animal selvagem e disparou em sua direção.

- Filho da puta!

Lizzy se viu obrigada a atracar-se com o maldito. Era ele ou sabem-se lá quantos logo atrás. Numa briga rápida, a loira conseguiu degolá-lo, encharcando a passagem com seu sangue nojento.

Olhando pra trás, viu que a briga a atrasara, pois era possível notar alguns vultos disformes aproximando-se em meio às sombras, trazendo os berros animalescos junto.

Deixando a cautela de lado, jogou-se em frente, nem vendo onde colocava a mão. O caminho parecia ter aumentado. Onde estava a saída?

- Malditos!

Virou uma vez por outra passagem, depois por outra, e mais outra. Nada da saída.

Quase deitada no duto em outra virada mais curta, sentiu o metal mais fino embaixo. Parecia estar pendurado naquele ponto. Desconfiada, tentou ser mais cuidadosa, mas os infectados aproximando-se com fúria não lhe davam escolha. Num impulso, continuou.

Ouviu pingos grossos caindo na parte de cima. Chuva? Onde ela estava afinal? Do lado de fora?

Sentiu o metal amassar sob seu peso. Se caísse, onde a levaria? Aliás, qual seria a altura? Melhor não pensar nisso agora.

Virando mais uma vez, avistou a luz da saída. Um pouco longe demais, mas era a saída. Apressou-se fazendo cada vez mais barulho. Sentiu-os acompanharem-na, cada vez mais perto.

No fim, viu-se presa. A passagem fora colocada de volta. Olhando pelas frestas, não viu ninguém. Onde foram?

Estava presa. E eles estavam chegando.



♦ ♦ ♦



A pancada em minha nuca é tão forte que desequilibro e caio em meio aos arbustos no jardim ao lado da varanda.

- Pam! – grita uma voz feminina. - Entra no carro. Rápido!

Esforço-me pra manter o foco mesmo caído. Vejo a imagem embaçada da mulher saindo portão afora com algo nas mãos. Um utensílio de cozinha, provavelmente. Sinto o sangue quente e pegajoso escorrer em minha nuca.

A porta por onde ela saiu encontra-se fechada, com a chave ainda na fechadura. Pancadas contra a madeira envernizada fazem-na tremer violentamente. Algo está querendo sair, isso é certo. Tenho certeza absoluta do que seja esse algo.

Ainda tentando apoiar-me nos braços, a dor lancinante arrasa com meu equilíbrio. Consigo discernir a imagem trêmula da mãe das crianças correndo em sua direção, onde estão trancadas no carro, cercadas por uma infectada. A maldita quebrou parte do para brisa com os punhos, dilacerando a própria pele. Grita ferozmente enquanto destrói o veículo. Nem percebe a aproximação da mulher que golpeia sua cabeça com o objeto.

Caída, rosnando, recebe outras pancadas na cabeça, e após alguns espasmos, para.

Assim que sinto as forças voltarem o suficiente para me levantar, o estrondo que explode ao meu lado quase faz meu coração parar. Da vidraça da sala surge outro infectado que cai e se levanta sem me dar tempo de pensar em agir.

Pra minha sorte o homem alto e robusto dispara em direção à mulher, como uma mancha no ar. Consigo enxergar as crianças saindo do carro com o auxílio da mãe, desesperada.

- Mamãe, é o papai! – Pâmela aponta.

- Não é o papai! Corre!

A mulher tira as crianças às pressas do automóvel e foge em direção à delegacia logo em frente. Levanto-me e vou até o portão, assistindo a cena.

Subindo a escadaria na fachada a mulher encaixa o molho de chaves com habilidade e escancara a porta, puxando os filhos pra dentro e batendo-a logo em seguida. Mesmo sendo rápida, não foi o bastante. O infectado se joga contra a porta, impedindo-a de ser trancada.

O lugar tem dois andares e possui janelas com grossas grades. Há um pequeno estacionamento em frente onde uma blazer da PM permanece estacionada, intacta. Um gramado mal cuidado rodeia o local por todo o quarteirão. Algumas árvores, todas bem altas e antigas, curvam-se para os lados.

Se alguém pode me ajudar no momento é essa vadia louca que quase decepou meu crânio. Melhor ajudá-la. E é bom ser rápido, pois, devido ao tumulto, os canibais que estavam no estacionamento do supermercado ouviram o barulho e estão se dirigindo em nossa direção. Alucinados. Antes dentro da delegacia do que nesta casa com a janela arrombada.

Saindo pra rua dou um berro, conseguindo a atenção do infectado sem dificuldade. É uma questão de meio segundo para seu alvo se tornar o bonito aqui. A mulher nem sequer fica curiosa, pois bate a porta e a tranca assim que seu marido dispara em minha direção.

Dando meia volta, corro o máximo que consigo e sigo até o outro lado da delegacia, perseguido de perto. Esse parece ter mais fôlego do que os outros. Grita furiosamente, capotando nos próprios pés. Cai uma vez e esfola o rosto no asfalto, o que não o impede de levantar num pulo e continuar a caçada.

Rodeando a delegacia chego à parte de trás, quase sorrindo quando avisto uma parte mais baixa onde posso escapar. Escorrego na grama molhada em um ponto onde não me atentei antes de pisar, proporcionando ao infectado uma aproximação maior. Nada de burrice, Tiago!

Levantando tão rápido quanto ele quando caiu, continuo a corrida. Perto da parede, bato o pé direito na altura de minha cintura e impulsiono-me para o alto, agarrando a borda – com bosta de pomba – e subo sem dificuldade. De pé encostado na parede vejo-o esticar suas mãos para o alto a fim de me alcançar. Em vão, camarada.

As janelas do segundo andar são apenas vidraças, sem grades. Obrigado, arquiteto. Deixando os urros pra trás, quebro uma parte do vidro com o cotovelo e destranco-a por dentro, abrindo-a e entrando.

Encontro-me em uma sala escura e empoeirada, abarrotada de papéis gastos jogados pra todo lado.

Abrindo a porta saio para o corredor, tão escuro quanto. Olhando para os lados não vejo nada.

O grito de uma das crianças ecoa pela corredor.



♦ ♦ ♦



Após algumas pancadas a grade pouco resistente da passagem cai no assoalho vermelho do corredor.

A faca sai segura pela mão de pele clara e macia. Em seguida os braços torneados. Mechas de cabelo loiro vêm pouco antes do rosto com expressão urgente e assustada. Num impulso, Lizzy pendura-se na borda e se joga, passando as pernas por cima da cabeça e dando uma cambalhota no ar, caindo abaixada no carpete e levantando-se rápido.

Dando uma breve olhada para os lados, percebe que foi parar no andar de cima. Deve ter sido no momento em que subiu a parte inclinada do duto. Sendo perseguida, nem prestou atenção para onde ia ou de onde havia vindo.

Lizzy corre em direção à escadaria no exato momento em que as mãos infectadas saem pela passagem. Assim que desce os degraus, chamando por Pooh, um homem está já se levantando do assoalho enquanto outro sai pelo mesmo buraco, seguido de mais outro.

- Lizzy! – Pooh aparece no pé da escada, já com a arma empunhada. Tenso. – Como você...?

- Depois. Melhor se preparar.

E posta-se ao lado do companheiro. Os outros vêm logo atrás, alarmados.

- E aí? – pergunta LC, pouco a frente de Victor. – Achou mais deles?

A resposta não vem da boca de Elizabeth, mas sim do alto da escada, seguida dos berros roucos dos infectados. Três homens, caindo um por cima do outro, numa competição para ver quem consegue matar primeiro.

Ivan apenas ergue a arma e dispara duas vezes seguidas, acertando o primeiro em cheio na cabeça e o outro no peito, fazendo-os rolar abaixo num amontoado disforme. O último pula por cima dos dois e se arremessa na direção dos agentes, que saem do caminho, deixando-o rolar pelo chão.

- E esse voador aí? – brinca LC, assustado. – Quem pega?

O tiro de misericórdia é disparado por Victor. Faz o olho esquerdo e parte da orelha do indivíduo explodir, manchando a parede.

- Há mais? – pergunta o líder, olhando a loira.

- Não tive tempo de contá-los, mas espero que não.

Lizzy continua segurando firme sua faca. A mão discretamente trêmula. A testa brilhando devido ao suor. Por um breve momento Pooh desliza os dedos nas costas da mão da parceira, fechando os olhos por um rápido momento e abrindo-os logo após um quase imperceptível suspiro.

- Não me assusta de novo, gata. – sussurra.



♦ ♦ ♦



Após chegarmos à lavanderia e passar pela parte dos fundos, sem cobertura, a chuva fica mais grossa, abrigando-nos a quase gritar para que nos façamos ouvidos. A varredura não terminou.

- Não tem entradas de ar aqui. – Lizzy avisa, olhando para as paredes no alto.

O ambiente, ainda que com as luzes fracas acesas, continua quase que na penumbra. Pooh olha as portas ao redor que levam a outras saletas, abarrotadas de lençóis e utensílios de limpeza. Fechando mais uma delas, esfrega o nariz por um momento e espirra logo em seguida. Fora atacado por uma nuvem de pó.

- Saúde! – Oliver diz baixo.

Pooh nem deve ter ouvido, pois está do outro lado e a chuva gritando lá fora não permite que ninguém fale mais alto do que a própria.

Oliver é o mais próximo de mim.

“O que há de errado comigo?”, penso, assim que o momento em que fui acometido pela “coisa” pouco antes de descobrir Oliver por detrás dos lençóis me volta à mente.

Sinto-me cansado, os ânimos se esvaindo. Até quando terei que fugir? Quando descobrirei o que está acontecendo, na verdade? Minha esperança parece nunca morrer, mas em alguns momentos dá umas boas balançadas. No fundo, tenho vontade de desistir. Sabe, acabar com isso. Seria mais fácil? Mas... E a dor? Aqueles dentes todos rasgando minha carne, meus músculos. Arrebentando meus nervos. O sangue jorrando. A morte demora a vir? Ficaria consciente até que ela chegasse ou desmaiaria de dor antes?

- É aqui que nos conhecemos.

A voz de Oliver me chacoalha do louco devaneio. Não o deixo perceber meu momento longe.

- É.

Dou uma última olhada na sala e viro, indo em direção a qualquer lugar.

- Só uma pessoa.

O lembrete me pega de surpresa, como um tapa na nuca. Giro bruscamente e olho o garoto nos olhos. Ele apenas sorri discretamente.

- E aí, Lizzy? – grita Pooh, nos fundos.

Deixo-o sozinho e tento ouvir o que os agentes estão discutindo, encostado em uma máquina de lavar.

- Não há como eles entrarem por aqui. – diz a loira.

Rapidamente entrego-me novamente aos pensamentos. Vejo-os conversando e apontando ao redor, como duas manchas num quadro abstrato, emitindo sons abafados mesclados ao barulho da chuva. Meu cérebro gira de um lado pro outro, guiado pelas mãos de palavras que vão surgindo.

- LAQUARTZ. Maldita. Vírus. O exército bloqueou as entradas. Não há cura. Você é especial. O que há de errado com eles? O que há de errado comigo? Você mudou. Mamãe. O que tá acontecendo? Posso nos tirar daqui. Uma pessoa. Pense na proposta.

-TIAGO!

A última palavra explode mais alto do que as outras. É tão forte que me derruba num empurrão.

Após a pancada contra o chão frio, percebo o que aconteceu ao ver uma mulher em pé, dentro da máquina de lavar o qual eu me recostara. Parece perdida, olhando ao redor, até que focaliza em mim.

Num rosnado, ela sai aos berros da máquina e se joga. Tem o cabelo loiro curto e veste um uniforme preto manchado num brilho escuro na altura da cintura. Sangue. Com certeza era funcionária do hotel e se escondeu ali. Tarde demais.

Quando me dou conta, ela já está em cima de mim. Só tenho tempo de encarar a fúria vermelha em seus olhos antes de impedi-la de se aproximar mais com um empurrão. Acho que não uso de muita força pois ela investe sem nem se mover. Chutando-a no nariz, aproveito que ela caiu e arrasto-me pra longe. O que há comigo? Não sinto força alguma para me levantar.

Os rosnados se aproximam novamente assim que viro por trás de outra máquina. Encosto-me na parede e tento centrar as forças. Assim que ela surge, vejo-a abrir a boca, deixando escapar um fio de sangue, e a portinhola de ferro de outra máquina ir de encontro ao seu rosto violentamente.

Num estalo, desperto do transe.

No momento em que ela surgiu de dentro da máquina, Oliver estava alerta e me salvou. Em seguida, levantou-se e, ao me ver cambaleando, deu a volta na fileira de máquinas, aproveitando o foco da infectada em mim. Antes que ela pudesse investir outra vez, abriu a porta da máquina mais próxima com toda força e a derrubou. Foi o tempo exato de Pooh chegar, passando por cima das outras máquinas e mesas, e dar cabo da infeliz.

- Cara, cê tá bem?

Olhando pra cima, vejo o grandalhão estendendo-me a mão. Demoro alguns segundos pra responder.

- Eu... Eu tô bem. Só cansado. Mas tô bem.

Com a ajuda de Ivan, levanto-me, apoiando em uma mesa próxima. Lizzy se aproxima.

- Tiago, o que deu em você? – seu olhar é preocupado. – Que falta de atenção foi essa?

- Foi mal. – não me sinto forte o bastante para mandá-la à... – Me distrai por um momento.

- Essa foi por pouco. – Oliver diz, sério. Sou o único que consegue enxergar o sorriso por trás de sua máscara.

- Valeu. – agradeço.



♦ ♦ ♦



No restaurante, estamos jantando. O silêncio domina o ambiente.

Duas horas depois de vasculharmos a lavanderia e constatarmos que não havia mais ninguém escondido, a chuva deu uma trégua, mas por pouco tempo, voltando logo em seguida. Mais fraca, mas ainda incessante.

Dani quase teve um infarto quando contaram o ocorrido, fulminando-me com o olhar. Como se fosse minha culpa. Tá certo, eu me distrai, mas como poderia saber? Deve ter sido a fraqueza – psicológica – que me fez perder o chão por um minuto e viajar em um turbilhão de pensamentos. Um minuto. Tempo suficiente pra chegar ao fim.

Os outros continuam os mesmos. Não mudaram desde que os conheci. Afinal, faz tão pouco tempo. Mas eu sei que mudarão. Ah, mudarão! Se sobreviverem.

A busca por mais possíveis esconderijos de infectados continuou pelo resto do dia, até a exaustão. Vasculhamos o prédio de cima a baixo. Os infelizes que atacaram Yulia estavam mesmo no duto. Tive o privilégio de encontrar o restante. Mas, por mais que vasculhemos cada canto possível desse – e qualquer outro – lugar, não há mais segurança.

Mastigando um pedaço de carne assada – e esquentada no micro-ondas – com feijão e salada murcha, continuo perdido em meus pensamentos, mas um pouco mais alerta dessa vez. Preferi sentar sozinho. Dani mudou também e sentou com Lizzy, Pooh, Victor, Pablo e até Oliver. Ela, acredito, para descobrir mais detalhes sobre o que aconteceu na lavanderia, e Oliver, para fazer suas costumeiras perguntas. Tenho dó deles. He he he! Consigo até rir em minha mente, sem expressar por fora.

LC e Carla estão próximos dos outros, mas em outra mesa. Parecem conversar com os olhos, presos ao silêncio a que se entregam sempre que estão juntos.

Yulia alimenta Yerik na mesa ao lado de Lizzy. Parece feliz. Parece mais firme, menos indefesa que antes. Não mantém mais a cabeça baixa.

Conrado sumiu. Deve estar em seu quarto, sozinho. Que fique por lá.

Mantemos a TV ligada o tempo todo agora. Achamos melhor saber quais outras mentiras estão sendo lançadas ao público – o pouco que resta vivo – do que não saber de nada. Não que descobriremos algo concreto pela TV, mas melhor do que ficar no vácuo total.

Deve ser oito da noite quando o logo da RECORD aparece na telona, anunciando mais notícias. Um murmúrio coletivo toma conta do local, extinto pela voz de Victor que surge como um trovão.

- Silêncio!

A legenda exibe o nome do repórter, Joel Silveira, que deve ter sido nomeado porta-voz da emissora ou encarregado das notícias que envolvam o caos – como se houvessem outras notícias mais importantes no momento – e a frase “São Paulo tomada pelo terror”.

- Voltamos com mais notícias aqui da fronteira. As barreiras do exército não devem suportar por mais tempo. Em poucas horas, o vírus se alastrou por praticamente toda São Paulo e os sobreviventes se aglomeram nas saídas do estado. Há pânico por toda parte, sem contar a chuva que não para de jeito nenhum. O que acreditávamos ser contido em pouco tempo saiu do controle e ninguém sabe dizer a que nível isso nos levará. Ninguém do exército, nenhum coronel, sargento ou soldado dá qualquer esclarecimento após o último do Coronel Peter.

Olho de relance pra trás e encontro o olhar de Daniela. Parece prestes a chorar, forçando um controle imenso. Volto-me à TV.

- Um grupo de homens veio em direção à barreira. Uma parede humana. Estavam de mãos dadas, gritando que salvariam suas mulheres e filhos. No começo os soldados não sabiam o que fazer, o que podemos ver nas imagens gravadas (a imagem mostra exatamente o que o repórter narra), mas após tempo, atiraram contra os homens. Apenas um sobreviveu, pois jogou-se no chão e rastejou de volta à multidão. Os treze homens que formavam a parede foram mortos. Outras trinta e oito pessoas foram atingidas fatalmente, e esse não é um número oficial. É de acordo com os corpos que podemos contar daqui. Várias pessoas foram atingidas mas não morreram.

Questão de tempo, meu caro.

- A situação está insuportável. Não vejo mais esperança para qualquer um dos infelizes que estão esperando um deslize de compaixão por parte do exército. Ou do governo. Ninguém os deixará passar. E não tardará até que os infectados cheguem aqui.

Nomearam-lhes corretamente, afinal.

- Brasileiros, garanto cobrir isso até o final. Mostrarei-lhes tudo o que essa porcaria de exército é capaz. Mostrarei-lhes o quão são incapazes. Não há esperança, e não serei hipócrita para dizer o contrário. Não estou aqui para enganá-los. Estou trazendo a verdade, mostrando o que mais ninguém tem coragem. Estão vendo outros repórteres ao redor? Outra emissora?

A câmera gira e, realmente, não há absolutamente câmera ou repórter algum além do próprio Joel. Está definitivamente sozinho.

- Meu Câmera Man fugiu, e não o culpo. Ele tem mulher e filhos no Rio e aconselhei-o a ir mesmo. Eu sou o suficiente para trazer a tona tudo que está acontecendo. Isso até eu entrar na mira de alguma bala desse tão bem treinado exército brasileiro. Ou até eles chegarem aqui.

Disse tudo, Joel.

Olhando pra trás, vejo os olhares sem esperança de todos. Um silêncio, quebrado apenas pelo som da chuva lá fora, nos envolve.



♦ ♦ ♦



Descendo degrau a degrau, evito fazer qualquer barulho. O breu me faz ser mais cauteloso, a fim de evitar também rolar escada abaixo. Os degraus parecem curtos demais. O medo, grande.

Chegando ao térreo, olho ao redor e nada vejo. Apenas a fraca luminosidade invadindo pelas janelas e vazando pelas frestas de algumas portas entreabertas me dá uma vaga ideia de como é o ambiente. Nos fachos de luz a poeira dança aleatoriamente.

Um gemido.

Redobro a atenção, paralisado contra a parede. Ouço passos em algum cômodo adiante.

Chegando ao corredor, olho com cuidado. Uma porta no fim chama minha atenção, devido à movimentação que passa em forma de sombras por baixo dela.

Caminho lentamente em sua direção. Pra fora não poderei ir, pois a multidão foi atraída pela barulheira e já deve ter cercado a delegacia. Então por que não saciar a curiosidade?

- Mamãe.

A voz de Pâmela chama. Parece assustada. Foram cercados, mãe e filhos? Havia alguém aqui dentro?

Antes de verificar, preciso de algo com que possa me defender. Em um lugar como esse, deve ter alguma arma. O difícil vai ser encontrar a tempo. O negócio é improvisar.

Num canto, encontro uma vassoura e mantenho-a pronta para – matar? – “vassourar” alguém. É quase cômico, se não fosse tão aterrorizante o silêncio que veio após o chamado da menina. Preciso mantê-los vivos pois são minha mais nova esperança de sair desse inferno. Isso que dá não saber dirigir; caso contrário, já teria dado o fora daqui há tempo. Espero sinceramente que a mãe saiba dirigir, pois pelo visto o pai já era.

Segurando a maçaneta, me preparo para abrir, a vassoura no alto. Empurrando-a num repente, deparo-me com algo, digamos, inusitado.

A sala exibe uma parede de vidro com uma porta de metal na lateral. Trancada. Do lado de dentro, vejo Carlinhos encostado contra o vidro, de costas. Chegando mais perto, a mãe está debruçada na parede do outro lado tendo espasmos. De costas, vejo-a vomitando sangue enquanto crava as unhas na parede. Pâmela está próxima a ela, chamando.

Não acredito nisso!

A feição da mulher se transforma em algo parecido com um demônio faminto e zangado quando se vira. A garotinha grita no mesmo instante, o que posso ouvir por um fone no alto, abafado. Num segundo agarra a filha e a morde na bochecha, arrancando-lhe a carne sem esforço. É possível ouvi-la se rasgando através do microfone. Uma veia salta em minha têmpora e a garganta engole em seco.

Em seguida, joga-a no chão e começa a esmurrá-la com as mãos espalmadas. O sangue inunda o chão.

Só percebo o medo estampado no rosto do menino quando ele se vira, socando o vidro. Ao me perceber, grita por socorro.

- Cadê a chave? – pergunto.

- Tá com ela! Socorro! – continua investindo contra a porta, enquanto a mãe alimenta sua fúria no sangue da menina.

Caralho, e agora? Não posso deixar esse moleque aí! Mas o que posso fazer?

- Socorro!

- Para de gritar senão ela vai te ouvir! – grito entre dentes, pensando em algo. – Armas! Sabe onde tem alguma arma aqui?

- Na minha casa!

- Não dá tempo! Tem que ser aqui.

- Não sei. Não sei. Socorro! – ele está desesperado. – Já sei! No escritório do papai. Tem uma lá!

- Onde fica? Rápido!

A mulher continua esmurrando a garota. Seus bracinhos pendem de um lado pro outro.

- É a sala número três. Virando lá. – e aponta pro fim do corredor.

Viro-me bruscamente e corro até a tal sala. Adentrando-a, reviro as gavetas e armários. Nada de arma. Droga! O jeito é improvisar novamente, e desta vez com algo mais forte do que uma vassoura podre. Há uma caixa de ferro – um tanto pesada – que pode servir para quebrar o vidro da sala. Teremos que ser rápidos. Não posso deixá-lo lá.

Volto rápido ao corredor. Já no meio do caminho, os pés fraquejam.

A mancha de sangue que consigo enxergar no vidro me alerta ser tarde demais. A mãe infectada levanta e se debate contra o vidro, cuspindo sangue inocente. Com as mãos trêmulas, deixo a caixa cair no assoalho, provocando um eco ensurdecedor.

Do lado de fora, os infectados debatem-se contra a porta principal.



♦ ♦ ♦



Sentado sobre a bancada, mexo em um utensílio de cozinha que não consigo descobrir para que serve. Dani e Lizzy lavam a louça que usaram. Conrado apareceu, comeu e deixou a sua suja na mesa – e lá ficou. Dani pegou a de Yulia e dos que estavam na mesa. Conversam pouco enquanto fazem o trabalho.

Pela porta aberta, vejo a russa sentada ninando o bebê. Não parece disposta a ficar sozinha novamente tão cedo, embora não aparente medo.

Victor, Pooh e LC contam a munição em outra mesa e conversam, preocupados. Não deverá durar por mais tempo do que previam.

Pablo brinca com Thor perto da ruiva, dando comandos ao cão, como deitar, rolar e fingir de morto, que os executa sem dificuldade. É um cão muito inteligente. Se não fosse por ele, nem quero pensar o que teria acontecido a Yerik. O mesmo que acontecera àquelas crianças em Jaboticabal. Nem gosto de lembrar...

Carla foi tomar banho. Tenho até medo de vê-la andando sozinha no mesmo local que Conrado. Depois do incidente com a garrafa, espero o instante em que ela revidará. Não tardará muito.

Oliver assiste as peripécias de Thor, rindo.

- Você tá melhor, Ti?

Virando-me, vejo Daniela em minha frente, enxugando as mãos numa toalha rosa. Parece preocupada, mesmo que tente disfarçar.

- Tô sim, Dani. Aquilo foi de momento. – passo a mão no cabelo, tirando-o do olho. Preciso cortá-lo urgentemente. – Deve ser o cansaço. Vou dormir bastante hoje.

Dani sorri mais abertamente.

- Na verdade, acho que vou dormir agora. A comida me deu sono...

Mal termino a frase, o som de um telefone invade a cozinha.

Todos olham ao redor. Todos encaram uns aos outros, desconfiados.

- De quem é esse telefone? – pergunta Lizzy.


.

16 mordidas:

Elioth disse...

Será uma chance de salvação? O telefone toca, só não quero ouvir "Atenção, você está no paredão" ou " Sete dias". Capítulo 21 ficou muito bom ^.^

2 de março de 2010 00:37
100% RBD disse...

Dah nem li mas tou muito ancioso .... esperando mas continuações..
Tiago maior apoio pra vc publicar esse livro!
Abraços!!!

2 de março de 2010 02:02
Tácia disse...

Poxa, estava tão ansiosa que devorei o capítulo 21 tão rápido quanto uma infectada! srsrsr! Agora é esperar o 22! Bom trabalho, Thiago!

2 de março de 2010 20:43
Anônimo disse...

Cara, muito bom, li os 21 capítulos em 2 dias!!
tomara q publiquem TM logo!

2 de março de 2010 23:24
Biel disse...

Caraa tah perfeito, TM é vicio haha, tava entrando todo dia umas 3x pra ver se vc jah tinha posto o cap 21, transforme em livro msm, eu seria um dos milhares que compraria, historia involvente, sem pecar em nd, me fez viajar aqui, parece que entrei em transe, qnd vi havia lido o cap 21 todo haha, grande abraço e go go post cap 22 ;D

3 de março de 2010 01:15
STANLEY - UM SOBREVIVENTE disse...

cara sou simplesmente fã!!!!!!!

des d que bati os olhos no primeiro cap de TM.
tudo d bom pra vc tiago, vai na fé q vc consegue fazer com q esse livro vire um best seller xD

ha o 21 tah muito foda

4 de março de 2010 03:30
nicholas disse...

manomanomanomanomanomanoveyveyveyveyveyveyvevyevyevyevey!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
caraaaaaaaaaaaaaaaaaaaayyyyyyyyyy....
fiko foda o 21 louco pra ver o 22 bom trabalho toy!

4 de março de 2010 16:36
Anônimo disse...

coitadas das crianças! :o
deve ser uma coisa horrivel de se ver oww.. :~


mas muito fóda esse cap. esperando o proximo

4 de março de 2010 22:00
alvaro disse...

Cara... continua escrevendo fiquei viciado.abração

5 de março de 2010 02:02
Cami disse...

meu tá muito bom, aposto que é o celular do oliver :D to muito anciosa pro próximo capítulo!

6 de março de 2010 06:33
Hero disse...

Ti, ficou fodão! Da prazer ler uma estória com tanto conteúdo.

As perguntas tem de começarem a serem respondidas! *.*

Sobreviva, Ti, e poste o Capítulo 22

6 de março de 2010 19:05
Mauricio disse...

Está muito legal, mas precisa matar alguns personagens, já está dificil entender a narração de tanta coisa simultânea.

7 de março de 2010 05:11
Anônimo disse...

MUITO bom, aguardo ansiosamente o próximo cap. Parabéns!

13 de março de 2010 21:56
Anônimo disse...

meus parabens pelo conto
muito legal
te degejo boa sorte para lançar um livro,se n engano
o Toy enviou um e-mail para os caras do RE,pra ve se consegue realmente escreve um livro
n sei se to certo,mais se tiver,boa sorte cara
vc tem um dom de escrever
vc coloca as emoções,raivas,paixoens,os sentimentos nos lugares certos,da a sensação de o leitor estar dentro da historia
outra coisa q me surpreendeu
é o fato de vc colocar coisas q até mesmo pessoas poderiam fazer,na vida real (como se um dia para o outro um vírus fissese todo mundo vira zumbis,bem,mais ninguem sabe né?)
e mais uma vez,MEUS PARABENS CARA PELO CONTO,MUITO FODAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

17 de março de 2010 00:31
Tiago Toy disse...

Sejam bem-vindos novos infectados, e aos antigos, espero que continuem sobrevivendo.

Grande abraço!

7 de julho de 2012 18:56
Anônimo disse...

Fã clube da russa comentando :espero que esse telefone traga boas noticias

21 de novembro de 2012 01:48

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