Capítulo 22 - Perspectiva alternativa


Olho ao redor, enquanto o telefone continua tocando. Todos permanecem atentos, desconfiados, procurando.

- É de alguém esse telefone? – pergunta Victor, impaciente.

Alguns balançam a cabeça, mas ninguém de fato responde.

- É de alguém? – repete ele, mais alto.

- Deve estar em outro lugar. – opino.

- Está bem aqui! Nessa cozinha. – grita Victor, alterado.

Não sou o único a me assustar com o tom de voz do grandalhão.

- Calma, Vic! – diz Lizzy, enxugando as mãos na roupa e indo até a porta do restaurante. Logo em seguida, o telefone para de tocar.

Dani e eu nos entreolhamos confusos.

- Talvez esteja mesmo em outro lugar. – dessa vez é Pablo quem dá a deixa. – Vamos ver nos cômodos mais próximos.

E sai pelo corredor seguido por Thor, que parou de brincar no momento em que o telefone tocou.

O pior de tudo é que, devido o barulho da chuva que não para nem por um decreto, ficou quase impossível distinguir de onde veio o toque. Parecia próximo, mas não posso ter certeza.

Victor fica muito estranho após o ocorrido, pois sai atrás de Pablo logo após dar uma breve encarada em todos no restaurante, inclusive em seus parceiros.

Lizzy cochicha algo com Pooh, que segue também pelo corredor.

- Encontrou, Victor? – sua voz ecoa.

No restaurante, Lizzy nos olha e simplesmente pergunta:

- Não está mesmo com nenhum de vocês o telefone?

- Não. – Oliver é o primeiro a responder.

- Não. – digo. – Nem tenho pra quem ligar. Por que teria um celular?

Lizzy balança os ombros.

- Por que ele ficou daquele jeito? – Dani aparece na porta da cozinha. – Tava esperando ligação de alguém?

Oliver ri da piada camuflada. Será que após esse tempo todo ela voltará a ser como antes? Daniela apenas o encara.



♦ ♦ ♦



Nas salas ao redor, Victor caminhava rapidamente, tirando os telefones do gancho, mesmo que não estivessem tocando. Pablo e Ivan o ajudavam na busca, procurando algum possível celular caído. Nada encontraram.



♦ ♦ ♦



Confinado no hotel, o que menos tenho vontade é de dormir. Há um ano, se alguém me dissesse que eu estaria em breve num hotel em São Paulo – sem pagar nada – podendo ficar o tempo que quisesse, eu explodiria de alegria. Isso se tal pessoa não mencionasse cada detalhe da estadia. Como, por exemplo, estar cercado por uma multidão de canibais sedentos que aumentaria a cada minuto. Eu dispensaria o convite.

Já a altas horas da madrugada, a maioria decidiu não dormir. Com as luzes apagadas, fizemos uma roda numa mesa maior e pegamos alguma comida e bebida. Melhor comer a vontade antes que estrague.

Puxamos alguns pufes escuros e sofás para ficar mais confortável.

Ao redor estão Yulia com seu inseparável Yerik, o qual permanece acordado após horas a fio. A ruiva veste um moletom nem muito largo nem muito justo, o qual não esconde em nada suas formas e beleza. Segura o bebê envolto em uma manta clara e felpuda. A noite está bem fria, mas acredito que o pequeno não esteja sentindo um pingo dele.

Dani está ao meu lado de pernas cruzadas sobre um sofá, de moletom preto, camiseta branca de algodão e meias rosa. Deixa o cabelo solto, a franja caída por sobre o olho direito. Bebe um copo de chocolate quente.

Pablo está deitado em outro sofá, com o cão deitado em suas pernas. Veste um blusão vermelho de toca e calça jeans.

Oliver está sentado no carpete, debruçado no braço do sofá, alisando Thor.

- Sempre joguei Handebol. Acho que jogo desde meus sete anos. Treinava Karatê e já fiz aulas de balé.

Dessa eu não sabia, o que entrego ao mostrar-me surpreso com a novidade sobre Daniela. Sentados para curtir a noite, ela se mostrou mais a vontade e começou a contar um pouco de sua vida.

- Já trabalhei como babá e monitora em uma escola. Confesso que cuidar das crianças era mais fácil do que aguentar aqueles marmanjos na escola. Crianças são muito mais fáceis de lidar.

- Eu já não posso dizer o mesmo. – respondo, pra sua surpresa. – Nunca me senti a vontade com crianças. Na verdade, nunca interagi muito com pessoas mais novas do que eu. Não tenho muita paciência pra conversa fiada.

- Mas com o Ricardo você se dava bem. – lembra ela.

Realmente. Pobre Ricardo.

- Mas era diferente, Dani. A situação, tudo. Éramos praticamente obrigados a convivermos juntos. E o Rick não era de brincadeiras também.

- Verdade... – Dani expressa um sorriso triste ao lembrar-se nosso companheiro abatido.

Aproveitando a mudança em seu humor, e não querendo vê-la cabisbaixa de novo, mudo rapidamente de assunto.

- E você, Pablo? Alguma coisa pra contar?

Pablo, que estava alisando uma orelha de Thor distraidamente, se mexe no sofá e pigarreia.

- Não tenho muito o que falar, amigo. Acho que nunca fiz nada que mereça comentários. Me formei em Publicidade, mas não posso dizer que a época da faculdade tenha me trazido somente coisas boas. Trouxe sim, duas paixões. Uma boa e uma ruim.

- Como assim? – questiona Daniela, interessada.

O olhar vago de Pablo me faz lembrar de seu momento no quarto, quando remexeu aquele saquinho em seu bolso. Aquela droga.

- Na faculdade conheci minha mulher. O amor da minha vida. – seus olhos brilham. – Ela era alguns anos mais velha do que eu e me pegou... Vocês não vão acreditar! – e gargalha.

Contagiados, nos interessamos, inclusive Yulia, que sorri em resposta, mesmo não entendendo bulhufas.

- Conta! – pede Daniela.

- Eu estava bebadaço, dirigindo pra casa depois da faculdade. Tinha ido a um bar com alguns amigos. Meu carro estava andando tão torto na pista que não sei como não bati. Pra minha sorte ela apareceu. Estava em uma moto e me parou. Assim que trocamos o primeiro olhar... Cara, foi paixão à primeira vista embaçada. Não me lembro bem o que disse, e ela nunca me disse o que eu falei, mas devo ter dado uma cantada mágica, pois assim que dois carros reforço chegaram, ela simplesmente disse que o motorista havia sumido e que eu era um amigo. Depois que foram embora, ela apenas me aconselhou a não dirigir mais bêbado e me deu uma multa. E foi embora.

- Que história... – Daniela não sabe o que dizer. – Estranha?

- Calma, não terminou, gatinha! – e continua. – Fui pra casa, feliz com a imagem daquela mulher linda em minha cabeça, mas puto pela multa. Não reclamei pois o errado era eu.

- Com certeza! – Oliver concorda.

- Enfim. Assim que acordei de manhã, com uma dor de cabeça dos diabos, tomei um banho quente e lembrei-me da multa. Morrendo de medo de ver quanto teria que pagar, desdobrei o papel. E lá estava o telefone dela.

Os olhos de Daniela brilham com o desfecho romântico. Argh!

- Depois foi só ligar, marcar um encontro, dessa vez sem bebida, e um ano depois estávamos casados.

- Que história linda, Pablo. – Daniela elogia.

- É. Tão linda quanto ela. – seu olhar vai longe, perdido em alguma lembrança além da narrada.

- Mas... – começa Oliver. – Você disse sobre duas paixões. Essa obviamente é a boa.

Pablo o encara.

- E a má?

Olhamos o homem estirado no sofá, encarando-nos com uma expressão desamparada.

- É complicado, cara. – ele tenta explicar. – Posso te dizer que minha mulher era um dos meus vícios, mas...

Havia um mais forte. Já entendi.

- Vamos parar de interrogar a intimidade do cara? – falo, tentando tirá-lo da parede.

Percebo seu olhar de gratidão. Mal sabe ele que eu conheço sua paixão má.

Nesse momento, um grunhido invade através da vidraça fechada. Olhamos todos ao mesmo tempo e só enxergamos o cetim negro da noite.

- Essas coisas me dão tanto calafrio quanto antes! – Daniela se encolhe no sofá.

- Em mim também, Dani. – confirmo.

- Afinal de contas, por que eles ficaram assim?

A pergunta de Pablo me pega em cheio. A causa sabemos; o motivo não.

- Quando me dei conta, minha cidade já estava infestada com isso. Foi rápido demais. Sobrevivi por sorte. Na verdade, sobrevivi porque soube me proteger. Poucas vezes parei pra pensar em porque isso estava acontecendo. Adiantaria alguma coisa? O negócio era correr. Pensar só depois.

- Então começou em sua cidade? Jaboticabal, não é?

- Isso. – confirmo a pergunta de Pablo. Jaboticabal.

A lembrança de minha pacata vida me vem à mente num relance. Prefiro não deixá-la me dominar e continuo.

- Bastava uma mordida deles. Vi muita gente sendo... – e me calo. O ambiente está aconchegante demais pra sujá-lo com mais dor. – Eu corri muito pra evitar que me levassem pro seu time.

E forço um sorrido. Daniela retribui. Oliver apenas olha curioso.

- Você deve ser muito rápido, Tiago. – Pablo debruça-se sobre o braço direito. – Tá certo que em sua cidade não deviam haver muitos, pelo menos não tantos quanto aqui, mas eu vi o quanto eles correm. E não parecem se cansar. Como você conseguiu?

- Bom, além da vontade de continuar vivo (e medo de sentir aqueles dentes na minha bunda), eu pratiquei Parkour por algum tempo. Isso me ajudou a fugir com mais facilidade.

- Parkour? – Pablo senta-se no sofá.

- Isso. Le Parkour. Alguns chamam de esporte, outros de estilo de vida, filosofia. Trata-se de um esporte, vamos assim dizer, onde você usa determinadas técnicas para ultrapassar obstáculos em seu caminho, assim como faria em uma situação de emergência. Você tem que se mover de tal maneira que te ajude a ganhar mais terreno sobre alguém ou algo como se estivesse perseguindo ou fugindo de alguém ou algo. Exatamente meu caso. Exige demais da musculatura e de seu praticante, mas qualquer um pode fazer.

- Eu sei o que é Parkour. – responde Pablo, discretamente animado. – Só não sabia que você era profissional.

- Calma aí! Não sou profissional coisa nenhuma. Só sei o básico.

- Que foi o bastante para que permanecesse vivo até agora. – Pablo dá um sorrido largo.

- É, e daí? – não entendo aonde ele quer chegar.

- Tiago, e se você treinasse essa galera toda?

- QUÊ?

Quase pulo sentado. Daniela treme de susto à minha reação.

- Como assim, treinar? – pergunto incrédulo.

- Treinar, cacete! Do lado de fora daqui, perto da piscina, tem uns lugares que seriam perfeitos. Tem árvores no jardim, as paredes do hotel possuem grades onde podemos treinar escalada. Nada que uma boa improvisação não resolva.

Olho ao redor, e percebo que Dani concorda com ele, aguardando minha resposta com um olhar ansioso.

Peso os prós e os contras. Não sairei daqui tão cedo, se tudo continuar como está. Terei que conviver com essa gente um bom tempo. Treiná-los pode, além de possivelmente dar-lhes uma chance – isso se conseguirem pegar as manobras -, ajudar-me a melhorar, a passar o tempo. Que distração tenho nesses dias? Dormir. Comer. Dormir. Pensar. Dormir. Sobreviver.

- Ok, eu posso tentar.

- É isso aí, amigo! – vibra Pablo. – Podemos começar amanhã mesmo!

- Calma, calma! Eu topei, mas nem todos vão querer aprender Parkour.

- Eu topo! – Dani levanta a mão, sorrindo. – Por que não?

Pablo olha para Oliver, sentado no carpete, apenas escutando.

- É, pode ser... – diz ele, sem firmeza.

- Enfim! Treina quem quiser treinar. O importante é que você se disponibiliza a nos ensinar.

Pablo vira o rosto de repente, como se tivesse lembrado de algo – ou alguém – e encara Yulia. A russa nos assiste conversando distraidamente, até que percebe ser o foco de nossos olhares.

- Chto?

- Saúde. – diz Dani, brincando, e ri.

Yulia a encara, confusa. Depois, ri. Desinibidos, todos rimos como velhos amigos. Nem eu consigo segurar a gargalhada, sentindo as lágrimas descendo. Thor levanta no sofá e ergue-se sobre a coxa de Pablo, olhando-nos com a língua de fora. Por sorte, não late, senão os outros acordariam correndo de susto.

- Ai, ai... – Pablo enxuga o rosto. – Não vou conseguir fazer mímica agora pra Yulia entender o que é Parkour. Acho melhor ela ver com os próprios olhos quando começarmos. Talvez se interesse.

- Ela é jovem. – diz Dani. – Parece tão nova quanto eu. Não deve ser difícil pra ela um pouco de exercício.

- E é muito difícil? – pergunta Oliver. Tava demorando.

- Não é questão de dificuldade, e sim de concentração. – respondo. – Requer muita atenção. A força você adquire com o tempo.

- Hum. – não parece muito interessado.

- Outra coisa em que precisamos pensar. – começa Pablo, deitando novamente no sofá. – Yulia e seu ótimo português!

A ruiva olha Pablo à menção de seu nome. Ele dispara uma piscadela.

- Ela precisa aprender nossa língua. Essas onomatopeias que ela faz às vezes não são nada inteligíveis. Pelo menos, não pra mim.

- Podemos procurar algo na Internet que possa ajudar. Aulas virtuais, tradutores online. A Internet é um mundo alternativo nesses casos. – responde Oliver.

Daniela arregala os olhos, pegando meu braço.

- O que foi, Dani?

Após um segundo pensando, como se estivesse fazendo algum cálculo, responde.

- Tiago, você lembra do que aquele repórter disse na TV? Sobre esse vírus ou sei lá o que ter começado no Chile.

- Humpf. – respondo. – Não acredito em nada que digam sobre isso. Ninguém sabe de nada. São só suposições apressadas que fazem aos tropeços ao sair correndo dessas coisas.

Silêncio.

- Por quê?

- Por nada. Depois falamos. – e encosta no sofá, cruzando novamente as pernas e mexendo com os dedos na meia.

Oliver a observa por alguns instantes. Vejo desconfiança em seu olhar. Por um momento penso que vai insistir no assunto com ela, mas se cala, voltando a brincar com a cauda de Thor, que fica mordendo-a, incomodado.

Yulia brinca com a mãozinha de Yerik, que deve estar cego aos olhos do sono.

Pablo fecha os olhos e, com as mãos por trás da cabeça, tira um cochilo mental, acordado.

Um relâmpago risca a noite.



♦ ♦ ♦



Já deitado em minha cama, não consigo pregar os olhos apesar dos enormes bocejos que não me deixaram em paz pouco antes de deixarmos a conversa de lado e decidirmos dormir.

Dani nem fez questão de me importunar pra ficar conversando mais, pois estava com muito sono. Oliver ainda me olhou por um tempo no caminho para os quartos. Entendi exatamente o que quis dizer com o olhar centrado em mim, mas não sei aonde quer chegar. Talvez ele seja uma esperança, afinal. Mas e os outros?

Apesar da noite fria, sinto o suor de minhas costas grudar no lençol. Parando pra pensar, percebo há quanto tempo estou nessa. Foi mais ou menos um mês preso em Jaboticabal – que eu consigo lembrar -, depois uma semana foragidos em São Paulo. Se não me engano, pegaram Ricardo no domingo passado. Isso mesmo, domingo. É tanta correria que às vezes perco a noção de tempo. Estamos nesse hotel há quantos dias? Dois? Três? O mesmo tempo que eles invadiram a cidade. Quanto tempo mais durará? Quanto tempo mais duraremos?

E meus pais? Minha mãe, terá conseguido fugir a tempo? Meu pai... Estava fora da cidade na hora certa. Onde estará agora? Onde quer que esteja, já ouviu o que aconteceu com toda São Paulo. Deve ter pensado que morremos.

E Abigail? Morreu, merecidamente, mas me deixou com essa dúvida que não abandona meus pensamentos. O que ela queria comigo afinal? O que eu tinha de tão especial? Será o fato de eu ter sido um dos únicos sobreviventes de Jaboticabal? Mas e Daniela e Ricardo? Sobreviveram também. Passaram por menos apuros do que eu, pelo que sei. Ricardo ficou o tempo todo trancado em sua casa; Dani, no Ginásio. Não percorreram praticamente a cidade toda com os canibais em seu percalço. Em tantos anos em Jaboticabal não vi metade do que vi em tão pouco tempo após o incidente.

E Lizzy? Pooh? Victor? Todos eles. Serão mesmo de confiança assim como se mostraram até agora? O que estavam fazendo na LAQUARTZ naquele dia? Invadiram, isso é certo. Mas por quê? O que queriam? Por que nos ajudaram? Pareciam saber lidar perfeitamente com os infectados. Se assustaram, claro, mas não tanto quanto os outros. Já sabiam de algo? Sabiam sobre o acontecido em minha cidade? Acho improvável.

E Oliver? Nossa conversa ecoa em minha mente quase o tempo todo. Preciso me concentrar para não deixar suas palavras me dominarem. Ainda é um moleque, mas parece mais esperto do que qualquer um aqui. Me olha de um jeito, como se já me conhecesse, como se soubesse de algo que não sei. Devo estar imaginando coisas.

Será o sono me fazendo delirar? A situação em que me vejo é exatamente como naquele freezer. Cercado, com medo, sem saber de nada. Não posso parar para pensar. Não adianta olhar pra trás. Não há o que fazer, exceto continuar.

Vou desligar a luz agora.



♦ ♦ ♦



Acordo assustado. Vejo Pablo ao meu lado.

- Pronto? – diz ele, quase num sussurro.

Esfrego os olhos e pergunto, num bocejo.

- Pronto pra quê?

- Esqueceu o que combinamos ontem? – e faz uma careta.

Sim, esqueci.

- Combinamos o quê, cara? – e bocejo novamente.

- Os treinos, Tiago!

- Ah, tá! Os treinos. – lembro vagamente de nossa conversa na noite passada. Não estou totalmente desperto. – O que têm eles?

Pablo ri, achando graça de algo que eu disse.

- Vamos à área de lazer do hotel e ver se há lugares adequados pra treinar.

Olho de lado pra janela e vislumbro o péssimo tempo. A chuva continua fraca.

- Você quer sair nesse pé d’água? – pergunto, sem um pingo de vontade de deixar a cama e passar frio tão cedo.

- Não seja por isso!

Pablo sorri e aponta. Aos meus pés, sobre o lençol, encontra-se uma capa de chuva preta e vermelha. O encaro com cara de poucos amigos.

- E então? – ele continua. – Pronto?



♦ ♦ ♦



Após escovar os dentes – não é porque o mundo está acabando que vou relaxar – e beber um copo d’água, acompanho Pablo pelo corredor, onde encontramos Daniela. Parece acordada há horas.

- Bom dia, gatinha! – diz Pablo.

- Bom dia, meninos. – e sorri estranhamente. Parece estar escondendo algo. – O que fazem acordados tão cedo?

- Vamos ajeitar as coisas para os treinos. – explica ele.

- De Parkour? – pergunta ela.

- Exatamente. Vamos procurar algum lugar onde possamos treinar sem perigo. Quer vir?

- Bom... – Dani pensa um pouco antes de responder. – Tenho que fazer uma coisa. Mais tarde, quem sabe.

- Ok. – responde Pablo.

Dani nos lança um discreto sorriso antes de seguir. Pablo não deve ter notado, mas eu a conheço bem, apesar do pouco tempo. Ela está com ar de quem vai aprontar algo. Antes de sumir na esquina do corredor, me lança um último olhar.



♦ ♦ ♦



Protegidos pelas capas de plástico – o que não afasta em nada o frio – saímos pelo corredor que leva ao restaurante e seguimos por outro mais largo, chegando a um hall espaçoso. Possui algumas poltronas vermelhas e mesas com xícaras e jarros derrubados. A porta dupla encontra-se lacrada com ripas de madeira.

- Acha seguro abrir essa porta? – pergunto.

Pablo se aproxima e olha através da vidraça grossa. Algumas partes estão trincadas. Não vemos nada de anormal do lado de fora.

- Qualquer coisa a gente corre. – ideia brilhante, Pablo.

Observo atentamente todos os lados e suspiro. Ele não vai desistir tão cedo. Assim que tenta puxar a primeira ripa, o impeço.

- Espera! Nós não sabemos como está aí fora. Tá certo que vasculhamos o hotel todo, mas nunca se sabe. Se quer sair, vamos sair de outro jeito. Aliás, você já aprende uma das técnicas do parkour.



♦ ♦ ♦



- Escalada.

Pablo se debruça no parapeito da janela do segundo andar e olha pra baixo, soltando um assobio.

- Não acha meio... Escorregadio?

- Você que pediu, cara. Agora não arrega. – respondo, mal humorado. Agora que posso dormir em paz, me derrubam da cama.

Me alongo rapidamente, no que Pablo segue meus movimentos, e, num vault, me penduro na borda da janela. Ele estica o braço em minha direção, assustado.

- Pablo, relaxa!

- Foi mal, Tiago. Achei que fosse cair.

- Eu sei o que tô fazendo, ok? Não sou profissional, mas também não sou iniciante. Esse é um dos movimentos mais usados. Chama-se vault. Muito mais fácil do que sentar no parapeito da janela, procurar um apoio, firmar o pé e, delicadamente, pendurar-se, não acha?

- E mais perigoso também.

- Eles são mais.

Olho pra baixo e não encontro apoio. Dos lados, o mesmo. O jeito vai ser encarar a altura. Me concentrando, focalizo um ponto na grama e pulo. No impacto, dobro os joelhos, golpeio o chão com a mão e executo um rolamento rápido, o que amortece a queda. Já de pé olho pra cima.

- Isso foi muito bom! – Pablo elogia.

- Tá. Sua vez agora.

- Igual o que você fez? – pergunta ele, se divertindo com a situação.

- Exatamente igual.

Percebo sua surpresa diante do desafio ao ver suas sobrancelhas erguidas. Medindo cada centímetro da janela, tenta fazer o vault mas suas mãos escorregam. Saio de baixo e vejo-o se esborrachar de costas no gramado.

Olhando pra cima, com os pingos da chuva molhando seu rosto, faz uma careta de dor.

- Fiz certo?



♦ ♦ ♦



Daniela assistiu pela janela do terceiro andar o tombo de Pablo, dando uma risadinha baixa após vê-lo se levantando. Em seguida virou-se e, averiguando que não havia ninguém no corredor, encostou a porta e pegou o notebook sobre a mesinha de centro. Sentou na cama e o ligou.

Assim que conseguiu acessar a internet, entrou no Google e digitou LAQUARTZ. A lista que surgiu era extensa. Todos os links falavam sobre a indústria. Laboratório de Quântica Aplicada Rosabela Tzao. Quântica aplicada? Mas não era uma indústria farmacêutica? Melhor continuar a pesquisa. Dani sabia que qualquer coisa ligada à LAQUARTZ não era o que parecia ser.

Se acomodando em meio aos travesseiros, deu início à pesquisa.



♦ ♦ ♦



Algumas balas rolavam sobre a mesa de mogno. Outras permaneciam em pé, douradas.

- Isso não vai durar muito.

Victor encarava os projéteis como se fossem multiplicar num passe de mágica. Na verdade era essa sua vontade.

- Quanto tempo?

Pooh o olhava já sabendo a resposta. A preocupação em seu rosto dizia isso.

- Se permanecer quieto, sem surpresas, podemos economizar. Não é problema se um ou outro entrar. O caldo vai entornar se muitos conseguirem invadir esse lugar. Você viu como tá lá fora?

Ivan respondeu com uma careta desanimada. Todos já viram como está lá fora. Parecia que todos os habitantes de São Paulo estavam aglomerados ao redor do hotel. E a cada hora só fazia aumentar.

- Podemos reforçar mais as entradas.

- Ivan, você sabe que essa falsa segurança não é pra sempre. É questão de tempo até que consigam entrar, por mais que reforcemos as portas. Você já viu o que eles podem fazer.

Num suspiro, Ivan olhou pro lado e encarou Elizabeth. Estava tão preocupada quanto seus dois companheiros.

- Não podemos nem cogitar a possibilidade de sair e conseguir mais munição. Não há como passar por eles. – falou Victor, cada vez menos esperançoso.

- Deve haver um jeito. – Lizzy tentou encontrar uma saída.

- Há, mas ainda não consegui contato. Já tentei todos os telefones desse hotel. Nenhum dá sinal.

- Todos perceberam sua reação na cozinha. – comentou a loira. – Devia ter sido mais sutil.

- Eu sei. Não consegui me controlar. – explicou Victor. – Mas temos que encontrar aquele telefone.

- E por que não diz a eles o motivo de precisá-lo? – perguntou Lizzy. – Acha que quem quer que esteja com o tal telefone se negaria a entregá-lo?

- Não é tão simples, minha garota. Há coisas que não podemos dizer aqui e você sabe disso.

Emburrada, Lizzy balançou a cabeça negativamente.

- Isso já devia ter acabado há muito tempo.

- Nunca vai ter fim, Lizzy.

Pooh a olhou. A tristeza e fúria em seus olhares trouxeram dolorosas lembranças. Lembranças que nunca seriam esquecidas.

Se certificando de que não havia ninguém por perto, Lizzy removeu a pulseira de couro e espetou a agulha da seringa no pulso.



♦ ♦ ♦



Deslizando o indicador no painel do notebook, Dani permanecia com os olhos cravados na tela. Sua pesquisa continuava firme.

“LAQUARTZ foi criada no Chile por um casal de físicos nos anos 50. Inicialmente a empresa era especializada em física quântica, mas ampliou seus horizontes combinando também a genética. Começaram a criar medicamentos desenvolvidos a partir de tal combinação. Se tornaram um marco na época, trazendo grandes novidades à indústria farmacêutica.

Porém, nos anos 80, um horrível incidente destruiu parte de suas conquistas após o ataque de uma organização terrorista às dependências da empresa. Visavam o roubo e comércio no mercado negro de medicamentos ainda em fase de testes. Em uma investida mal sucedida provocaram a destruição da empresa. Muitos morreram. Embora as autoridades tenham trabalhado arduamente no caso durante anos, os criminosos nunca foram encontrados.

Havia uma filial da LAQUARTZ no Brasil, a qual se tornou a sede após a tragédia. Todos seus projetos foram transferidos e as pesquisas foram retomadas graças à cientista-chefe e uma das poucas pessoas que sobreviveram, Abigail Küsen.”

- Abigail... – Dani sentiu as mãos tremerem.

“A renomada doutora continuou seu belo trabalho por anos com a melhor equipe do país. Recrutou ótimos cientistas, nacional e internacionalmente. Reergueu a empresa com a criação e distribuição de vários medicamentos considerados os melhores e mais indicados pela Secretária da Saúde e pelo governo.”

Daniela tentava encontrar algo além do normal mas tudo que descobria falava bem da empresa. Todos os sites, blogues e fóruns de discussão relacionados à LAQUARTZ a mencionavam como o que havia de melhor na indústria farmacêutica. Nenhuma crítica. Nada.

- Tem que haver alguma coisa. – sussurrou a garota, dançando o olhar de página a página.

- Sabia que você não devia acreditar em tudo que vê na internet?

Daniela deu um pulo, quase derrubando o notebook. Na porta Oliver a observava com um sorriso enigmático.

- Que susto, garoto!

- Desculpe, garota. – retrucou Oliver.

Enquanto ele entrava no quarto, Daniela fechou as páginas numa combinação rápida de botões. Não confiava em ninguém, tampouco nesse pivete metido.

Já próximo da cama, Oliver olhou a tela do aparelho.

- O que estava fazendo? – perguntou, curioso.

- Nada de mais. – começou ela, ajeitando-se do outro lado e fechando o note. – Apenas tentando saber o que tá acontecendo.

- Hum. – Oliver encarou-a. Não parecia acreditar. – Posso ver também?

- Acho melhor não. Além do mais não encontrei muita coisa que não saibamos. A conexão aqui também não ajuda muito.

- Entendo.

Os dois se encararam durante longos segundos. Só se ouvia o som da chuva batendo na vidraça. A tensão começou a tomar conta do quarto.

- Vou comer alguma coisa.
Daniela desviou o olhar e se dirigiu à porta com o aparelho sob o braço. Mesmo não olhando, sentiu o olhar de Oliver cravado em suas costas.



♦ ♦ ♦



- E você treina desde quando?

- Não muito tempo.

Pablo me enche de perguntas relacionadas às minhas habilidades no parkour. Vamos andando por uma via logo depois da piscina, já transbordando devido à chuva incessante, procurando por um possível ponto de treino.

- Na verdade – continuo – treinei durante algum tempo há um ano. Uns meses, não sei. Depois que consegui aprender o básico com uns colegas, comecei a treinar sozinho. Peguei pesado, mas depois parei. Não via mais utilidade para todo aquele esforço. Hoje em dia a história é outra.

Enquanto conversamos observo todos os locais. Encontramos uma quadra de tênis que poderia ser ideal para aquecimentos e alguns dos movimentos – exceto pela chuva. É necessário um lugar coberto. Seco, no mínimo. Os corrimãos e grades disponíveis também seriam ótimos. Mas, provavelmente, não será possível começar os treinos devido ao tempo ruim.

Há muito mais do que pensava. A área de lazer do hotel é imensamente ampla. Há quadras, outra piscina além da principal, um aglomerado de árvores num espaço aberto onde podemos ver algumas toalhas com petiscos derramados, roupas e outras bugigangas para piqueniques espalhadas.

Mais adiante encontramos um parquinho onde algo nos chama atenção. Algo caído na areia molhada sob a gangorra.

- O que é aquilo? – Pablo pergunta, indo em sua direção.

Desconfiado, fico parado olhando-o. Quando se aproxima, para por um momento.

- O que é? – grito.

Sem responder, ele se abaixa e mexe na coisa. Espero, tentando ver do que se trata. O vejo se levantando e voltando.

- O que era, cara? – pergunto assim que se aproxima.

De cara fechada, Pablo continua o passo limpando as mãos na água da chuva.

- Era uma criança.

Em silêncio, continuamos o percurso onde podemos ver uma quadra coberta logo adiante.



♦ ♦ ♦


No último andar do hotel, Conrado estava sentado com uma garrafa de vodka sobre a mesa enquanto verificava seu email em um computador de mesa. Ao lado da garrafa, seu revólver. Vestia apenas calça preta de linho e sapato social. Clicava de mensagem em mensagem, passando rapidamente os olhos procurando algo.

Na cama logo atrás, dois corpos jaziam sem vida. Um casal. Uma poça de sangue encharcava completamente o lençol. Sangue recente.

Vasculhando os emails, Conrado dava uma golada ou outra na bebida. Descia como água.

- Onde está você, vadia? – sussurrava ele.

De repente encontrou o que tanto procurava. Um link. Exibindo um sorriso molhado de álcool, clicou e se recostou nas costas da cadeira, esperando o arquivo carregar.

O som de aviso indicava o download concluído, que abriu automaticamente.

- Te achei, docinho!

Mais um gole.

- Agora o que resta saber é o que você faz aqui.

Na tela, a foto mostrava Yulia sorrindo.


.

21 mordidas:

Lαяy รωαy disse...

Maravilhoso *----------*

19 de março de 2010 23:39
Vinícius Ávila Eichenberg disse...

Muito, mas muito bom ;D

20 de março de 2010 00:29
Gabriel Anunziato disse...

Muuito mesmo cara, louco pra ver ql eh a surpresa haha, grande abraço ! ;D

20 de março de 2010 16:49
Mauricio disse...

Yulia: A prostituta Russa.

Mas sem querer criticar, se tem internet, TEM SKYPE !!!

Os caras estão se matando para achar um telefone , se funciona a internet, não é possível que não resolva o problema deles !

21 de março de 2010 05:31
Samir disse...

Putz bixo vc é inteligente!
mas se fosse vc lá será que ia pensar em SKYPE?
será que os personagens comnhecem SKYPE?
será que existe tal programa disponivel se tratando de FICÇãO e nao "Baseado em fatos reais"???
To adorando a narrativa e se tudo fosse facil acabava no segundo capitulo...

26 de março de 2010 19:49
Samir disse...

Putz bixo vc é inteligente!
mas se fosse vc lá será que ia pensar em SKYPE?
será que os personagens comnhecem SKYPE?
será que existe tal programa disponivel se tratando de FICÇãO e nao "Baseado em fatos reais"???
To adorando a narrativa e se tudo fosse facil acabava no segundo capitulo...

26 de março de 2010 19:52
Willer disse...

realmente maravilhoso
vc n colocou muita ação nesse cap
mais uma hora ou outra eu acho q um cap tinha q se mais calmo
a pergunta q n quer calar na minha mente é oq o Conrado tem haver com a Yulia (provalvemente como ele trabalha com modelos,deve ter ouvido falar dela)

30 de março de 2010 00:39
Pablo Ramón disse...

Muito massa
comecei a ler hoje, me deu uma boa dor de cabeça(não por causa da historia mas sim por causa da tela do pc), mas valeu a pena, vou dormir agora porque não aguento mais meus olhos abertos, mas vou esperar pelo próximo ansiosamente
abraços
continue assim

9 de abril de 2010 01:03
Anônimo disse...

OMG!!!!!!!!!!! This history is just fucking awesome!!!!!
Mas esse cap realmente foi muito lentinho... Tem que ter mais ação nos próximos capítulos... e please, ve se faz a Dani voltar a ser a "badass tough chick" do começo! Ela ta andando muito água com açúcar pro meu gosto.
DEMAIS!!!!

23 de abril de 2010 23:07
Nato disse...

wol gostei muiito da história vou acompanhar!!
adoro filmes de zombies, resident, madrugada dos mortos, exterminio, principalmente os classicos do george a. romero!!
te segui se der passa la!!

CAOS MUNDIAL - CLICA AQUI

27 de abril de 2010 17:57
ॐ ƒΣLiÞΣ ®Åм♀§ disse...

Cara! To ficando com Raiva do Tiago! kkkkkkk Assume logo qe ama a Dani! =@
(ansioso para o 23)

2 de maio de 2010 18:12
Anônimo disse...

Que nada!! Capítulos lentos, com um ar psicológico é o que há!!

Muito bom Tiago!!!

18 de maio de 2010 15:35
Roberta disse...

Puxa vida hein demorou mas voltou e em grande estilo, tava com saudades de ler Terra Morta, espero q agora onegocio ande amil por hora
ta d+++++++ mesmo continue assim!!!!!!!!!!!!!

19 de maio de 2010 14:55
Hatred disse...

Não esperem pelo capítulo 23, ele lançará o livro.
E assim que lançar o livro, alguém disponibiliza pra download, aí é só ir lá e baixar. :D
*Sem vergonha.*
Não, não tenho dinheiro pra comprar um livro.

24 de julho de 2010 11:26
Morgana torta disse...

noooossa otemo!
mas o lance do telefone é estranho memso ja que eles tem internet e tudo o mais.
se pa o conrado sabe quem é a yulia pq ele fica vendo aqueles cartazes de prostitutas, aposto que é ele quem fala a lingua dela, safado!

15 de setembro de 2010 04:40
Diego disse...

so me responda uma coisa: vai ter continuação nun vai?
por favor, q tenha (merece) \o/!!!!!!!

1 de outubro de 2010 19:04
Diego disse...

Cara (Tiago não é?) vc foi um gênio com essa história!!! tanto q me inspirou a começar uma também (se bem q eu já vinha planejando começar uma). Só q a minha um pouco diferente, ela se passa nos Estados Unidos (óóóóóó) e os personagens são baseados em pessoas q conheço. Sempre fui viciado em histórias e filmes de terror/horror (principalmente em jogos como Left 4 Dead 1 e 2, já jogou?). Seus infectados foram são semelhantes aos da obra-prima Madrugada dos Mortos, o que chamou mais ainda minha atenção (aquele papo de infectados lentos e lesados de Resident Evil ñ cola mais, se bem q ezajeraram feio em Resident Evil 4 e 5 com aqeles "zumbis" inteligentes e que se comunicavam entre si). bom, por enquanto é isso. Espero me sair bem assim como vc na criação da minha história (sei q ñ vai ficar tão boa quanto a sua, mas vale a pena tentar rsrsr) folow, fui.

1 de outubro de 2010 19:28
Cedric Sigaud disse...

Tem outros relatos de sobreviventes:
http://osmortosandam.blogspot.com/
http://osmortosvivosestaoaqui.blogspot.com/

22 de outubro de 2010 07:22
Ana Carolina disse...

Meu, quando sai esse livro? To tão curiosa, sinto falta de tm :/

22 de outubro de 2010 13:39
Tiago Toy disse...

Ana Carolina, o livro foi lançado pela editora Draco, e já está a venda no site da editora e em livrarias como Cultura, Saraiva e Martins Fontes, entre outras. Caso queira autografado, pode adquiri-lo comigo pelo tiago.toy@hotmail.com


Sejam bem-vindos novos infectados, e aos antigos, espero que continuem sobrevivendo.

Grande abraço!

7 de julho de 2012 18:57
Anônimo disse...

Fã clube da yulia :espero que alguem mate o corado o mais rapido possivel

21 de novembro de 2012 02:39

Postar um comentário