Capítulo 23 - Evolução



A quadra coberta é bem ampla.

Há várias bolas de tênis espalhadas por toda parte. O barulho da chuva batendo no teto produz um eco que nos obriga a gritar.

- Acha que serve, Tiago?

Enquanto tiramos as capas de chuva analiso tudo, desde as grades ao redor até as paredes com estruturas metálicas finas mas resistentes. Podemos colocar alguns obstáculos, como móveis do próprio hotel, por exemplo, e usá-los para os treinos.

- Nada que uma boa improvisada não resolva.

- Legal. – vibra ele, contido. Ainda não se recuperou de ter visto uma criança morta. Vai ver coisas muito piores, parceiro! – Eles vão adorar isso.

- Eles? – aponto com o polegar pra trás. – Acha mesmo que vão topar fazer isso? Quero dizer, pelo que entendi eles preferem confiar em suas armas. Não acredito que vão perder tempo com um cara ensinando-os a ficar pulando pra lá e pra cá.

- Parkour não é pular pra lá e pra cá.

- Eu sei que não é, cara! Mas eles não sabem. O esporte não é muito difundido aqui no Brasil. Poucos o conhecem.

- Difundido ou não, é assim que você sobreviveu. Isso ninguém pode discutir. E se forem inteligentes vão perceber que é uma grande idéia. Eu farei de qualquer maneira.

- Daquele jeito?

Pablo me encara e lembramos do tombo há pouco. Mesmo tentando não conseguimos segurar o riso.
O latido de Thor nos assusta.

O cão aparece correndo por onde entramos, encharcado. Vem de encontro a Pablo batendo as patas em sua barriga.

- Calma, garoto!

Pablo o afaga mas o ele não sossega, latindo sem parar.

- Achou que eu havia fugido? – Pablo faz uma careta enquanto abaixa e puxa as orelhas de Thor, olhando-o nos olhos.

O cão parece impaciente.

- O que ele tem? – pergunto.

Provavelmente devido o barulho da chuva no telhado ficou difícil escutar o porquê de Thor estar tão agitado, mas descobrimos assim que eles aparecem correndo pela mesma – e única - entrada.

- Caralho! – xingamos ao mesmo tempo.

Devem ser uns oito. Alguns vestem uniformes de tênis. Todos exibem algum ferimento. O que mais chama atenção é o primeiro. Enquanto corre, seu braço direito pende de um lado pro outro, deslocado do ombro. Nem demonstra sentir dor, apenas fúria. Os outros parecem tão raivosos quanto.

- Pablo, vem!

Ele me segue sem discutir após gritar pelo cão.

- Thor!

Corremos até o outro lado da quadra fugindo dos infectados. O som da correria misturado aos grunhidos e a chuva quase me deixam louco. Que ótimo começo de dia!

Lembrando de minhas últimas semanas em Jaboticabal sinto algo voltar. A impulsividade na hora das fugas. Não era permitido pensar, apenas agir. Um segundo perdido podia significar o último.

Pulando a grade com um monkey, caio direto na estrutura metálica projetada na parede e me seguro no degrau, usando-a como escada. Escalo sem olhar pra baixo. Chegando próximo ao teto, me certifico de que estou seguro e procuro por Pablo.

Alguns infectados estão aglomerados ao pé da estrutura, grunhindo em minha direção.

- Pablo!

Grito olhando ao redor, mas nada. O latido de Thor me indica sua posição. O cão está acuado num dos cantos da quadra, cercado por uma mulher de cabelo curto e loiro manchado de sangue. Veste um vestido social preto e calça apenas um sapato. O pé descalço deixa pegadas de sangue pelo caminho.

- Thor!

A voz de Pablo vem do alto. Procuro mas não o encontro.

- Pablo, cadê você?

- Aqui!

- Onde?

Notando uma agitação adiante, onde uma viga de aço barra minha visão, seguro firme na barra mais acima e estico o pescoço. Um deslize e já era.

Na mesma altura que eu, Pablo se mantém a salvo próximo ao teto. Ou viu o que eu fiz e seguiu meu plano ou agiu por instinto. Tanto faz.

- Thor, foge!

Ele grita para o cachorro que foge da mulher enlouquecida. Em certos momentos a morde na perna para logo em seguida se afastar. O sangue vai manchando cada vez mais o assoalho da quadra.

Numa investida a infectada se joga de joelhos na direção do animal, errando o alvo. Thor aproveita e ataca. Cravando os dentes em seu pescoço, puxa com força.

- Thor!

Pablo assiste à cena tão assustado quanto eu. Thor não a solta em nenhum momento, fazendo-a se debater tentando desvencilhar-se da mandíbula do cachorro. Ele continua arrastando-a pelo pescoço. O sangue vai espirrando ao redor enquanto ele tenta alcançá-lo com as mãos e arranhando o chão ao mesmo tempo. Seus gritos de dor e raiva misturados são aterradores.

À medida que vai sendo arrastada a mulher deixa de lutar e, assim que Thor dá uma última e violenta sacudida, ela cai imóvel. A poça de sangue cresce ao redor.

- Thor, para! – Pablo grita. – Sai daqui! Agora!

O cão late olhando pra cima. Penso que vai sair correndo por onde veio, mas me engano. Investe novamente, agora contra os infectados que ameaçam seu dono.

- Thor, não!

Pablo por pouco não escorrega e cai enquanto grita. Se continuar assim vai ele mesmo matar o cão – esmagado.

- Pablo, se segura! – grito.

Mais próximo do teto é quase impossível ouvir até mesmo minha voz. A chuva não dá trégua.
Acho que seria muita sorte, mas Thor bem que podia estraçalhar todos eles. O cão foi fantástico com a infectada. Agora entendo como Yerik ainda está vivo. Thor é o perfeito cão de guarda. Lembro num repente de quando Pablo mencionou que ele pertencia à PM. Era cão farejador. Parece que sabe muito mais do que apenas farejar. E vai mostrar isso novamente pois agarra o infectado do braço deslocado – pelo braço.
Olhando pra baixo vejo os três que me cercaram. São dois homens e uma mulher. Grunhem feito bichos. Não mudaram em nada desde que os conheci em Jaboticabal. Na verdade pioraram. Estão mais medonhos, mais intimidadores. E estão escalando.

O quê?

Arregalo os olhos assim que vejo um deles escalar a estrutura, não tão habilidosamente quanto eu, mas ainda assim escalando-a. Mas que...!

Não me lembro de tê-los visto escalando qualquer coisa antes. Pelo menos não os muros em que me mantinha a salvo em minha cidade. Enfim, não importa! O que importa é sair daqui antes que esse filho da mãe me alcance e eu seja obrigado a pular. Morrer de queda ou de mordida? O que é pior?

Prefiro não descobrir.

♦ ♦ ♦

Alguns minutos atrás.

Com a testa encostada contra a vidraça, Daniela assistia a chuva caindo lá fora, dando sinais de que não terminaria tão rápido. Queria continuar sua pesquisa, mas achou melhor deixar pra outra hora. Queria evitar que alguém – Oliver – se intrometesse novamente. Não que fosse segredo de estado, mas preferia descobrir ela mesma o que quer que fosse sobre a LAQUARTZ. Sentia em seu âmago que havia algo por trás da empresa além da ganância financeira. Precisava saber o que era não importa o que custasse.

Seus pensamentos fugiram no momento em que viu uma figura escura disparar rápido para a área além da piscina. Não havia prestado atenção naquela parte do hotel. Era bem maior do que notara. Forçando a vista percebeu ser Thor.

Ao longe pode ver uma quadra coberta e ligou os pontos prontamente. Então era isso que Pablo e Tiago foram fazer. Lembrou da conversa à noite passada sobre os treinos de parkour.

Achou que era uma mancha no vidro, algum pássaro ao longe sob a chuva, até mesmo Tiago e Pablo. Tudo, menos o que realmente era. Mais infectados surgindo de algumas partes atrás de Thor. Foram direto pra quadra coberta. Foram direto para onde Tiago estava.

♦ ♦ ♦

- Bom dia.

LC entrou na cozinha coçando a cabeça, a cara amassada de sono.

Lá estavam Lizzy e Pooh – juntos como sempre – tomando o café da manhã e conversando. Nem se deram ao trabalho de responder, focados na discussão.

LC abriu a geladeira e pegou uma jarra de suco. Enchendo um copo alto, virou a limonada goela abaixo. Estava muito gelada, o que arrancou uma careta de dor prazerosa do rosto do rapaz. Arrotando baixo, se aproximou dos companheiros.

- Quais são as novas?

Pooh o encarou com uma expressão nada amigável. Lizzy suspirou.

- As mesmas de ontem. Velhas.

LC não entendeu.

- A munição, Luiz. – explicou. – Não vai durar.

- Saímos pra buscar mais, se for o caso.

A dupla o encarou, perplexos.

- O quê?

- ‘Cê é louco? – perguntou Lizzy. – Não tem como sair.

- Deve haver um jeito, Li. O hotel é grande. – explicou o loiro, bocejando. - A entrada que usamos não deve ser a única.

Lizzy e Pooh se olharam. Será?

A conversa foi interrompida com a porta escancarando.

- O que foi? – perguntou Lizzy assim que viu Daniela entrando desesperada na cozinha.

- Eles entraram!

- O quê? – gritou Pooh, empunhando a arma. – Por onde?

- Não sei. O Tiago ta lá fora! Cercaram ele e o Pablo! Temos que ajudá-lo!

- O quê? – dessa vez foi Lizzy quem gritou, disparando pelo corredor. – Onde ele está?

- Na quadra!

- Qual quadra? – Pooh perguntou já irritado.

- Depois da piscina!

- Eles não viram a porta bloqueada? – LC questionou.

- Pelo jeito não. Vamos, Ivan!

- Agora, gata!

A dupla disparou até a porta que levava à piscina. Continuava bloqueada.

- Por onde eles saíram?

- Por uma janela no segundo andar. Venham!

Daniela disparou escadaria acima, seguida pelo trio.

- Não vamos avisar o Victor? – perguntou LC, se esforçando para manter o mesmo ritmo.

- Não dá tempo!

Pooh continuou correndo atrás de Lizzy, a arma já preparada.

Dani se segurava pra não chorar.

♦ ♦ ♦

- Cara, sai daí!

Pablo grita ao ver o infectado escalando até mim. Não sei se ele percebeu mas eu não tenho asas. A única maneira de escapar é pulando. Não! Deve haver...

- Ali!

Pablo aponta algo no alto. No momento de desespero penso ser outro infectado grudado no teto. Me controlando, procuro e vejo. Uma clarabóia. Pequena, mas larga o suficiente para que eu possa passar. O único problema é como chegar lá.

- Rápido, Tiago!

O jeito vai ser incorporar um trapezista e rezar. Melhor deixar a oração pra depois. Noto que a estrutura continua pelo teto, trançando barras finas de aço até o outro lado. Pra minha sorte passa bem próximo à clarabóia. E agora ou nunca!

Enxugando as mãos na roupa, seguro firme na estrutura e, mantendo o peso controlado, me penduro. Os músculos do braço doem instantaneamente. Há algum tempo que não pratico nenhum exercício.

O rosnado próximo faz minha força dobrar. O infectado conseguiu chegar bem perto e tenta me alcançar enquanto se segura com a outra mão. Filho da...!

Me impulsiono e seguro na próxima e na seguinte, afastando-me o bastante pra evitar que o infeliz me alcance.

- Isso!

Pablo vibra enquanto luto por minha vida. Parece ter esquecido Thor. Deve ter notado que o cão consegue se virar melhor do que nós dois juntos. Conseguiu dar conta de três infectados usando a mesma técnica de agarra-rasga-chacoalha-mata. Assim que surgiram mais alguns vindos dos fundos da quadra – o banheiro, talvez – o cão se viu obrigado a limitar-se em se defender. Esses malditos podem ser rápidos, mas Thor é mais.

Com uma dor dos diabos vou me lançando de barra a barra. Sinto os tendões e músculos prestes a explodir. Falta um bocado ainda. Estou a salvo dos infectados, mas sem dúvida não estou a salvo.

Por um momento solto uma das mãos. A dor é insuportável.

- Droga! – praguejo, pendurado com a mão direita.

- Força, moleque!

Pablo não faz idéia do que estou sentindo. Outro já teria soltado há muito. Não posso desistir agora. Respirando fundo, firmo a mão e puxo, segurando com a outra.

- Isso!

- Cala boca, droga. – sussurro entre dentes, me concentrando.

Seguro na barra adiante. Respiro. Pego a próxima. Contraio o bíceps. Mais uma. E outra e mais outra. Inspiro com raiva. Outra. Estou quase lá. A chuva bate logo acima, o barulho intensificado comigo tão próximo do teto. Só mais um pouco, Tiago. Vamos!

Em segundos que parecem horas consigo alcançar a clarabóia. Fazendo mais força, puxo com um braço e soco a portinhola com o outro. Por sorte ela abre facilmente, o que me permite segurar na borda molhada enquanto a chuva invade e, num repente, me impulsionar pra cima.

Caio de costas na telha bufando de dor. Meus dedos estão em carne viva. Nem me importo com a chuva me golpeando sem dó. Sentindo a inconsciência chegar, viro de bruços a fim de evitar morrer afogado – que conveniente – e me permito desmaiar.

♦ ♦ ♦

Desperto assustado.

Sentado, olho ao redor respirando fundo. Onde estou?

Esfregando os olhos consigo ver com mais clareza. E me lembro.

- Quando você apaga, apaga mesmo, hein!

Me viro bruscamente em busca da voz já conhecida. Pooh. Está em pé na ponta do telhado me encarando.
- O quê...? – nem consigo formular uma frase.

- Sua sorte é que não está trovejando, senão teria ficado aqui sozinho.

Olho pra cima e tento vislumbrar o céu, mas as gotas estão fortes demais. Realmente não há relâmpagos. Se sorte for a palavra mais apropriada, então que seja.

- Por que não me acordou? – pergunto, tentando levantar. Meus dedos ardem.

- Acha que não tentei? – caçoa ele. – Você morre quando dorme, garoto!

- Então por que não me desceu?

Ivan me encara com deboche.

- Eu sou forte mas não sou um macaco. Não tem como descer com você nas costas. Cada um desce por sua conta e risco.

- Hum...

De pé observo o hotel ao longe. É possível ver apenas do segundo andar pra cima.

- E o Pablo? – pergunto alarmado. Me esqueci completamente dele.

O grandalhão me encara por poucos segundos.

- Melhor pensar em você agora, Tiago!

Engulo em seco.

- Como você chegou aqui? Como sabia que eu estava aqui?

Pooh se mantém calado olhando ao redor.

- E os outros? Alguém se machucou?

- Preparado pra correr?

♦ ♦ ♦

A área está livre de infectados.

Me mantenho calado pois já percebi que o grandalhão não tá afim de papo. Por que ficou então? Seria menos trabalhoso me deixar aqui sozinho.

Olhando da borda a altura é bem considerável. Uma queda seria o menos apropriado então é melhor prestar atenção aos movimentos de Pooh e segui-lo.

Assim que ele desce um poste de luz - nem fino nem grosso -, observo novamente. Essas pragas surgem de repente. É melhor prevenir.

Pego no metal molhado e paro.

- Ivan, minhas mãos!

Ele se limita a me ignorar. Não vai ser nada agradável deslizar pelo poste com as mãos em carne viva. Olho ao redor em busca de outro meio de descer, mas esse provavelmente é o único. Droga!

Como esqueci a capa de chuva na quadra, tiro a camisa. O frio me faz tremer no mesmo instante. A sensação dos pingos fortes cortando a quentura de minha pele é muito desconfortável.

- Que porra! – reclamo, em vão.

Enrolando a camisa no poste e segurando suas pontas, enrosco uma perna cuidadosamente e depois a outra. Fico imóvel por um momento. Respiro. E desço. Deslizo com dificuldade. Embora esteja molhado, o poste não é tão liso quanto parecia ser. Após alguns segundos consigo chegar à grama. As mãos pegando fogo. Chacoalhando-as – como se fossem curar – procuro Pooh.

Tudo que ouço é a chuva. Nada mais.

- Ivan? – chamo baixo. Não estou interessado em atrair mais ninguém além.

Colocar a camisa está fora de cogitação. O pano frio e molhado grudando na pele é pior do que a própria água.

Percebendo um movimento estranho por trás de algumas árvores, me preparo pra correr. Assim que meus olhos se acostumam sob a chuva, percebo se tratar de Pooh escondido. Está me chamando. Olho pra trás e não vejo uma viv’alma.

Correndo sorrateiro chego ao agente.

- Quer atrair aquelas coisas? – repreende ele. – Olhos abertos, Tiago.

Apontando os próprios olhos, consigo enxergar algo além de cuidado no fundo deles. Algo que até um homem forte e aparentemente intocável como ele sente. Medo.

- Como vamos chegar ao hotel? – pergunto, me incomodando com meus dentes começando a bater de frio.
- Veremos isso depois. Antes temos de fazer uma coisa.

Ele percebe a interrogação em minha expressão.

- Precisamos ver se há outra entrada por onde eles possam invadir.

- Mas... – começo, indignado. - Isso aqui é enorme!

- Exatamente. Quantos infectados acha que caberiam aqui?

Fico sem resposta.

- Primeiro as coisas primeiras, Tiago. Vamos cortar o mal pela raiz. Ou pelo menos evitar que as ervas daninhas destruam mais. Se não houver outra entrada, ótimo. Senão, a trancamos e voltamos pro hotel.

- Droga! – ele está certo. Melhor fazer o trabalho direito do que pela metade.

Antes que seja tarde me preparo o melhor que posso. Rasgo a camisa em dois pedaços e os enrolo nas mãos, o que evita que a mão doa tanto. Ainda assim dói bastante.

- Por onde quer começar? – pergunto já conformado.

Pooh observa ao redor em silêncio. Parece nem respirar.

- Vamos nessa direção. Posso ver o muro daqui. Percorremos em volta dele e encontramos a entrada, caso exista.

- Ok. Vam’bora então!

Cautelosos, seguimos até o muro. É alto o bastante para evitar que eles entrem. Me viro, olhando de uma ponta a outra. Somos os únicos com duas pernas andando aqui. Espero não encontrarmos outros.

Por falar em duas pernas, lembro de Thor – ele tem quatro, eu sei, mas tudo bem – e em como o cão soube se defender dos infectados. Atacou aqueles na quadra com muita inteligência. Percebi que ele usava de certa estratégia para evitar ser pego. Com certeza o animal foi muito bem treinado na PM. Poderá nos ser útil em breve. Quer dizer, isso se ele conseguiu sair vivo daqui.

Penso em perguntar sobre o cachorro, mas Pooh faz sinal para que fique quieto. Olho na mesma direção que ele.

Um homem vaga sem rumo próximo a um latão de lixo tombado. Não procura nada nem ninguém. Apenas vaga.

- Mata ele!

Pooh ignora novamente meu comentário. Sorrateiro, encosta no muro e – não acredito – vai em direção ao infectado. Meus olhos se arregalam instantaneamente, o que mantém minha boca fechada. Esse cara é doido! O que você vai fazer?, penso.

O canibal não percebe a aproximação e continua andando. Noto o sangue escorrendo de sua boca, manchando a camisa branca.

Pooh vai na ponta dos pés até bem próximo. Acredito que ele ainda não tenha reagido devido não ter escutado. O barulho da chuva está bem alto. Mais próximo do que consigo acreditar, Pooh dispara e, em algo que consigo descrever como uma fração de segundos, pega a cabeça do homem que nem tem tempo de reagir. Com o pescoço quebrado, cai.

Leio os lábios de Pooh me chamando. Com esforço saio de meu transe particular – nunca vi ninguém tão próximo de um deles, desarmado, e saindo vivo – e o sigo.

Na quebra do muro encontramos outro corredor. É estreito e leva a outra área. Vendo Ivan seguir adiante, me oponho.

- Eu não vou por aí!

Ele para e me encara, sem entender.

- Você não tá vendo esse portão? – aponto pro lado. Há um portão vermelho que parece bem resistente. Pode muito bem fechar essa passagem. – Não seria mais fácil considerar essa a entrada e fechá-la? Quem sabe o que vamos encontrar lá?

Meu medo é ser cercado novamente. E o hotel está bem longe, se ele não percebeu. Haja fôlego pra correr até lá.

- Tiago, nós vamos continuar, você querendo ou não. Se voltar, vai encontrar um porre deles em volta do hotel. Já nos cercaram por dentro também. Temos que evitar que o número aumente. Seja inteligente.
- Mas... – balbucio. – E a arma?

Aponto a submetralhadora em sua cintura.

- O que tem ela?

- Você não derrubou aqueles na quadra?

- Alguns. Mas surgiram mais. E a munição que temos não é infinita. Aliás, está nas últimas. Não posso sair despejando bala a torto e a direito.

- E quer procurar mais deles? Sem munição? – não sei se é a dor em minhas mãos, o frio, a fome ou o medo, mas não estou conseguindo seguir seu raciocínio.

- Tiago, confia em mim! Eu sei o que tô fazendo.

Me encarando com ar sério, sinto firmeza. Mas não coragem. Ainda assim não tenho escolha.
Vou até o portão e o puxo, fechando o trinco grosso. Vai suportar bastante se necessário. Pooh me assiste curioso do outro lado.

- Vai fugir? – pergunta.

Após um humpf, escalo o portão com dificuldade. Do alto tento ver o que nos aguarda além, em vão. Pulo para o lado de Pooh com um landing mal feito. Sob seu olhar ignoro e sigo até o extremo do corredor, me preparando para o pior.

♦ ♦ ♦

Yulia ninava o pequeno Yerik enquanto alisava seus sedosos cabelinhos claros.

Cantava algo em sua língua. O efeito de sua doce voz era atordoante, levando o bebê ao mais profundo sono rapidamente.

Colocando-o na cama, o envolveu com grossos lençóis. Fazia beicinho enquanto dormia, arrancando um sorriso carinhoso da ruiva.

Sentando na poltrona, Yulia levantou a barra da calça jeans e puxou uma faca vazada do cano da bota. No reflexo da lâmina encarou os próprios olhos. Penetrantes.

Levantando, escondeu a arma na cintura e amarrou o cabelo em um rabo de cavalo.

Indo até a janela assistiu a cena que acontecia lá embaixo. Nada mudara, só piorara. Os malditos continuavam cercando o hotel, infestando a Paulista. Não conseguia entender o que eram e o que queriam. Não conseguia entender porque era tão azarada por estar neste lugar bem agora. Por Yerik, talvez. Azar de um, sorte de outro. E vice-versa.

Algo chamou sua atenção do outro lado. Mais precisamente em uma das janelas no prédio em frente.
Alguém a olhava.

A chuva impedia que distinguisse qualquer característica da pessoa, mas com certeza era uma pessoa. E não era um deles. Era alguém como ela.

Forçando a vista tentou ver mais, mas o som da porta escancarando a assustou.

- Yulia!

Era Daniela, a menina bonita.

- Você tem que vir, Yulia! – Dani tentava chamar a russa, e nem sequer percebeu a mão direita da garota deslizando pela cintura. – É o Pablo!

Ao som do nome Yulia entendeu. Havia algo de errado.

♦ ♦ ♦

- O que vocês estavam fazendo aqui fora?

A pergunta de Pooh me pega de surpresa. O grandalhão permaneceu calado durante todo o trajeto.
- Viemos procurar um lugar bom pra treinar.

- Treinar o quê?

- Parkour.

- O quê?

- Depois eu explico.

Não é a hora nem o lugar.

Escondidos atrás de uma mureta tentamos nos esconder de dois infectados que vagam como o anterior. Se olham algumas vezes, mas não fazem nada além. Tenho certeza de que se reconhecem por algum motivo, alguma particularidade. Cheiro, quem sabe. Mas está chovendo. Não é possível sentir cheiro algum, por mais forte que seja. Outra hora tento decifrar esse mistério. Agora é hora de mais um show de Pooh.
Nada discreto, dessa vez ele pula detrás do esconderijo exibindo-se aos inimigos.

- Você é doido? – pergunto incrédulo.

Não espero que responda pois, ao ouvir os berros dos infectados prontos para atacar, corre na direção dos dois. Ainda escondido assisto à cena.

Ivan é simplesmente e inacreditavelmente habilidoso.

Com uma rasteira derruba o primeiro, virando e arrebentando a testa do segundo com uma violenta cotovelada. Consigo ouvir o som do osso quebrando. Do crânio do infectado ou do braço de Pooh?
Tenho a resposta quando o canibal cai. E não levanta mais. Diferente do outro, que levanta desnorteado, mas furioso.

Pooh tem medo, é óbvio, mas isso não parece impedir que enfrente essas coisas cara-a-cara. O infectado investe apenas para levar um soco no nariz. O sangue jorra sem parar. Recuando um pouco pela dor, o monstro balança a cabeça e berra, investindo novamente. Pooh o pega pelo braço e o gira, agarrando seu pescoço por trás. Correndo, mantém o braço do outro preso e, num movimento rápido – tão rápido que nem percebo que vem para minha direção -, enfia a cabeça do adversário contra a mureta. Muito próximo de mim. O sangue espirra junto com os dentes, que voam pra todo lado.

Em seguida dá outra pancada com a cabeça do infeliz. E outra. E mais outra. Assisto a luta imóvel e só percebo ter terminado após a cabeça sumir e dar lugar a uma massa disforme.
Encaro Pooh limpando as mãos ensangüentadas numa poça d’água.

- Você precisava mesmo de mim? – pergunto.

♦ ♦ ♦

Seguindo Daniela, Yulia segurava Yerik nos braços, tentando balançá-lo tão pouco fosse possível. Nunca mais o deixaria sozinho, isso era certeza.

- Pablo? – perguntava, enquanto tentava acompanhar o ritmo de Daniela.

- Pablo! – era o pouco que Dani dizia. – Vamos!

Chegando ao térreo seguiu pelo corredor que levava aos sofás onde haviam passado a noite passada conversando. No seu caso não seria bem uma conversa, mas foi bem agradável. De repente parou. Se pôs a escutar atentamente. Dani sumira no corredor. Caminhando rapidamente em direção ao barulho, encontrou.

A porta que levava à piscina balançava. Na verdade tremia violentamente. O som da chuva misturava-se a outro mais medonho.

Dani voltou.

- Yulia, por aqui! – pegou o braço da ruiva. – Por ali não.

Havia terror em seus olhos.

E havia muitos deles lá fora.

♦ ♦ ♦

Mais uns minutos de caminhada sob a chuva não nos trouxeram mais problemas. Retificando: não me trouxeram. Para Pooh não parece ser problema algum. Ele parece saber se defender muito bem. E atacar melhor ainda. Conseguiu me deixar de boca aberta, literalmente.

Um movimento seu me faz parar, sobressaltado.

- O quê? – sussurro.

Com um gesto de cabeça, aponta. Olho.

Há um portão enorme do outro lado. Uma entrada alternativa, afinal. Por favor, não diga que me avisou.
- Eu avisei. – diz ele.

Valeu!

O que mais me chama atenção não é haver o tal portão. É estar aberto. Me olhando de lado com as sobrancelhas cerradas Pooh trinca os dentes.

- Porra!

- Vamos fechar e pronto...

Um shh irritado me cala.

Apontando o ouvido, Ivan dá um passo cuidadoso como se estivesse pisando descalço em vidro. Segue até o portão nesse ritmo. O acompanho sem tanto drama. Fazendo ou não barulho a chuva o abafa.
Ivan se posta ao lado do portão, encostado no muro. Me chama com um aceno.

- Nem um pio. – é tudo o que diz educadamente.

Com mais cuidado do que em qualquer momento anterior olhamos pela fresta entre o portão e o muro.
Há no mínimo uns cinqüenta infectados vagando pela rua. Encharcados. Ensangüentados. Famintos.
Balanço a cabeça tentando dizer a Pooh que não vamos conseguir. Ele contrai o cenho. Bela resposta.
Voltando a olhar pela fresta dou de cara com um par de olhos curiosos. E furiosos.

O berro vem logo em seguida.

21 mordidas:

Elsa Cruz disse...

gostei mas confesso que tou um pouco decepcionada com o tiago, em jaboticabal era tão corajoso recusava-se a ficar num só sitio mesmo que isso implicasse fugir correndo dos infectados fosse por quanto tempo fosse, trepando e saltando o que tivesse que ser.
O QUE ACONTECEU AO PABLO? (a morrer de curiosidade)

24 de fevereiro de 2011 21:44
Luan disse...

Muuito bom! *-*
Que diabos aconteceu com o Thor e com o Pablo, afinal???!
Aaah D:

24 de fevereiro de 2011 22:15
daniela santos disse...

Meu Deus , o Pooh e o Thor são os meus heróis, hehehe.
Eu gostei, o Tiago evoluiu como pessoa, e isso é bom, ele já não está tão traumatizado ( numa coisa destas dá mesmo para deixar de ficar traumatizado?) , estou a gostar de ver este lado mais humano nele.
... mas fiquei preocupada com... os zumbis a virem em direcção deles...
Já agora porque é que publicaste o capitulo 23 ? Não era para sair no livro?

24 de fevereiro de 2011 22:44
Segredos Obscuros disse...

E ae cara, td bem?
Que bom que voltou a postar, já estava desestindo do seu blog, apropósito, os cães não se infectam?
Aguardo ansioso o próximo capitulo.

25 de fevereiro de 2011 01:16
EvertonRoberto disse...

implesmente surtei lendo. Que saudade!
Fiquei morrendo de pena do Thor, super fiel *--*
Zumbis escalando?! COOOORRE NEGAAAADS!!! Essa parte me lembrou "Resident Evil - Extinction", a parte que os super-zumbis escalam a Torre Eiffel de Las Vegas :P

"- Não sei. O Tiago ta lá fora! Cercaram ele e o Pablo! Temos que ajudá-lo!"
Adoro a exclusividade que o Tiago tem com a Dani =D

Acho que uma certeza podemos ter: Pablo de alguma forma foi infectado :(
Me pergunto se cachorros ficam infectados, se ficarem o Thor foi infectado pelas mordidas que deu nos zumbis, mas acho que não pelos animais - os leões - do zoologico não terem se infectado.


Realmente o Tiago não ta mais tão fechado, tão preocupado com ele mesmo. Tudo bem que ele se safou primeiro, mas depois se mostrou preocupado com o Pablo e o Thor rs

25 de fevereiro de 2011 04:31
Elsa Cruz disse...

eu concordo que ele evolui a nivel de se relacionar com pessoas e de se preocupar so acho q em jaboticabal ele correria o q fosse preciso para se manter a salvo por mais tempo e n se preocuparia a q distancia estava a ficar do seu esconderijo se isso fosse para tornar o esconderijo mais seguro.
gostei da daniela se preocupar tanto com ele quando e q vai rolar alguma coisa entre eles?

25 de fevereiro de 2011 21:39
Anônimo disse...

uai, e o livrro?
naum vai lançar mais?

6 de março de 2011 22:18
Dan Forneris disse...

Nossa, muito bom. Tem algo diferente e não é só com o personagem Tiago, provavelmente com o autor também né? Muitas coisas acontecendo e evoluindo, boas e ruins [Porque nem tudo é sempre flores] Obviamente Tiago tinha que mudar ao menos um pouquinho, embora ainda ache que a essencia nunca muda. Tiago é Tiago, fato. Juro que as vezes fico mais preocupada com o Thor do que com o Tiago HUEAHUHUEUAHU, e ainda acho cedo pra acontecer alguma coisa com o Pablo... Se tiver que acontecer que seja beem mais pra frente [espero que não, eu gosto do Pablo '-' ]E sei que muita gente ainda quer ver a Dani em ação, isso também é fato. Mew que saudade eu estava de TM! *-*

11 de março de 2011 14:12
DJoONaTTa disse...

Muito loko esse cap quero saber qq acontece com thor e pablo!!!


URRRU CONTINUE ASSIM ESPERANDO PROXIMO CAP!!!!!!!

21 de março de 2011 00:42
Mulher Atômica disse...

Parabéns pelo blog!
Demorei, mas linkei... =D

23 de março de 2011 17:46
Anônimo disse...

Ahhhhhhhhhhhhhhh super ansioso pra ler o proximo capitulo.
To super preocupado com o Thor e Pablo mas eu sei que vc naum vai matar eles, eu queria ver a Dani em ação matando alguns zumbis para salvar a vida do Tiago, eu tenho umas ideias de um personagem(putz que intrometido)se vc se interesar e so deixar um post e quando vc menos esperar eu falo com vc HAHAHAHAHAHA
ASS:Jadson

10 de abril de 2011 00:32
Anônimo disse...

Quando sai o próximo???
Acabei de ler todos os capítulos e não me aguento de curiosidade...
Seu texto é primoroso! Realmente merece uma publicação! Parabéns... conseguiu algo totalmente novo e envolvente com um assunto que parecia saturado!!!
Não pare... rs

11 de maio de 2011 14:31
Anônimo disse...

de quanto em quanto tempo saem novos capítulos? meu deus, será que aguento esperar?

12 de maio de 2011 14:06
L℮øŋ℮яd disse...

Incrível como sempre.
Também escrevo sobre zumbis, mas gosto de investir num lado um pouco mais escrachado quanto à violência D:

21 de maio de 2011 22:59
Anônimo disse...

Fabuloso! Assim como foi dito, estava com saudades dessa história. Seria bom que vc tivesse um período fixo: quinzenal ou mensal. Eu prefiro semanal! :-) Assim agradaria mais ainda. E não cancele o projeto do livro! Mesmo lendo por aqui, comprarei ele. Abrs e parabéns. Amon

29 de maio de 2011 05:58
Anônimo disse...

Ainda bem que o Tiago deixou de ser tão idiota e egocéntrico... Se bem que num lugar assim, as pessoas mudam muito. Mas eu gostei bastante do capítulo, principalmente do thor "agarra-rasga-chacoalha-mata", e do que provavemente aconteceu ao Pablo. Não entendi o título do cap. "Evolução", mas ficou foda assim mesmo.

19 de junho de 2011 19:26
Tiago Toy disse...

daniela santos disse...
"Eu gostei, o Tiago evoluiu como pessoa, e isso é bom, ele já não está tão traumatizado ( numa coisa destas dá mesmo para deixar de ficar traumatizado?) , estou a gostar de ver este lado mais humano nele."

EvertonRoberto disse...
"Realmente o Tiago não ta mais tão fechado, tão preocupado com ele mesmo. Tudo bem que ele se safou primeiro, mas depois se mostrou preocupado com o Pablo e o Thor rs"

Dan Forneris disse...
"Tem algo diferente e não é só com o personagem Tiago, provavelmente com o autor também né? Muitas coisas acontecendo e evoluindo, boas e ruins [Porque nem tudo é sempre flores] Obviamente Tiago tinha que mudar ao menos um pouquinho, embora ainda ache que a essencia nunca muda."

Anônimo disse...
"Ainda bem que o Tiago deixou de ser tão idiota e egocéntrico... Se bem que num lugar assim, as pessoas mudam muito."

O título é auto-explicativo, haha.

19 de junho de 2011 19:36
Anônimo disse...

Fã clube de yulia falando : Quero saber quem é o cara misterioso da janela

21 de novembro de 2012 04:35
Anônimo disse...

Gente eu quero seber quem é o cara da janela do predio em frente ao hotel , e tambem quero seber qual é o cara que fala russo ,e tambemde quem é o telefone. Esses assuntos foram esquecidos no meio da historia, e n foi resolvido

21 de novembro de 2012 16:50
@euguilhermee disse...

Também estava escrevendo um livro, e quando vi sua história me deu inspiração para continuar. Se puder, me ajude a divulgar se Chama Toque de recolher

6 de fevereiro de 2013 21:26
Guilherme Nascimento disse...

O LIVRO ONLINE ESTÁ DE VOLTA. EMBARQUE NESTA AVENTURA!
(baseado na série de Tv 'Resident Evil' e 'The Walking Dead')
AGORA O TERROR É NO RIO ---> http://toquederecolherlivro.blogspot.com.br/

26 de abril de 2014 02:41

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