[Terra Morta RPG] Capítulo 9 - Beatriz




Sentada em sua própria cama, abraçou os joelhos sem conseguir conter o choro. Não queria olhar para o lado, não queria voltar a vê-lo. Mesmo depois do que acabara de fazer. Bastava fechar os olhos, e as imagens voltavam a fervilhar em sua mente.


            Assim que abriu a porta do quarto suas suspeitas se confirmaram. Do outro lado do cômodo, recostado em seu antigo guarda-roupa, seu pai a encarava com olhos desprovidos do brilho que sempre carregaram em vida. Suas pernas praticamente não existiam, dilacerada como que por um animal feroz. O sangue maculava todo o cômodo, riscando desenhos abstratos pelo piso, desde a porta.

            Soltou um rosnado abafado e esticou os braços no momento em que Bia entrou no quarto, mas nem ao menos conseguia sair do lugar, o que tornava seus esforços para alcançá-la inúteis.

            A filha, mediante aquela cena, sentiu as primeiras lágrimas rolarem. Logo se ajoelhou, em pranto, encarando o chão para que não precisasse voltar a olhá-lo. Não sabia o que fazer, e a mínima sugestão de ideias quanto a como agir lhe concedia calafrios.Mas precisava fazer algo. Por ele. Não podia deixa-lo ali, transformado em algo que não fazia jus ao homem que fora em vida. Levantou-se, e correu até a cozinha.

            Com a faca em mãos, voltou a encará-lo mais uma vez. Ouviu uma trovoada do lado de fora, e logo em seguida a chuva se chocando contra a janela.

            – Me desculpa, pai – pediu, aproximando-se. O homem já não tentava alcança-la novamente. Limitava-se apenas a olhá-la nos olhos, como se soubesse o que estava por vir. – Me desculpa por qualquer coisa que eu tenha feito, algo que não tenha aprovado. Me desculpa se por alguma razão o fiz sentir mal. E principalmente, me desculpa pelo que estou prestes a fazer.

            Encarou a lâmina em suas mãos.

            – Pai – chamou, com a voz embargada. – Eu... Eu te amo.

            E antes que pudesse desistir e voltar atrás em sua decisão, desferiu o golpe de misericórdia.


            Voltou a encarar a fotografia. Fotografia a qual encontrara nas mãos de seu pai logo após ter dado cabo à sua subvida de condenação. A mesma exibia uma imagem dele, bem mais jovem, parado em um parque com uma garotinha no colo, de cabelos castanhos e lisos. Beatriz. Ainda uma criança de não mais que quatro anos de idade.

            A dobrou e guardou em um dos bolsos, para só então se levantar.

            Não queria, mas tinha que sair dali. Devia seguir em frente e escapar da cidade, encontrar um lugar seguro no qual pudesse se estabelecer. Nem ao menos sabia o quão longe aquela desgraça havia chegado, mas tinha esperança de que ainda houvessem mais sobreviventes, assim como ela.

            Aproveitando a trégua que a chuva havia dado após algumas horas, recolheu os mantimentos que ainda prestavam e os guardou em sua mochila, junto de uma nova faca a qual usaria como arma. Estava pronta para sair.


            Não viu nenhum sinal deles nas ruas.

            Perguntava-se para onde tinham ido os que a perseguiram durante a madrugada, antes que conseguisse chegar em casa. Seguiu a passos largos, sem saber exatamente para onde ir. Poderia tentar chegar à delegacia, não muito longe dali. Se tivesse sorte, quem sabe encontrasse algum armamento, o que poderia ser de grande utilidade. Nunca havia atirado antes mas, até aquele dia, também nunca havia matado alguém. Certamente não era a única a ter tido aquela ideia. A delegacia poderia ser um destino obvio para qualquer um que houvesse sobrevivido, mas resolveu se entregar, mais uma vez, nas mãos da sorte.

            Se não houvesse imprevistos, em menos de uma hora alcançaria seu destino. Tudo o que tinha que fazer era retornar à avenida na qual se encontrava a farmácia de seu pai, pela qual poderia chegar à delegacia. Refazer o caminho até onde sua batalha pela sobrevivência teve inicio.

            Viu-se novamente diante da desolação na qual a cidade havia sucumbido. Agora, à luz o dia, pôde constatar a grande proporção na qual a destruição se alastrara. O cheiro de morte dominou seu olfato no momento em que virou a esquina, e não conseguiu conter a ânsia, vomitando mediante a visão que se erguia frente a seus olhos.

            Em todo o asfalto, de um lado ao outro, na rua, dezenas de corpos em decomposição cobriam praticamente tudo o que conseguia ver, esquecidos em seu leito de morte.

            Estavam mutilados, em sua grande maioria. Deformados à base de dentadas e cobertos pelo próprio sangue, já seco. Enxames de moscas grandes e gordas pairavam sobre a carnificina, e seu zumbido interminável soava como uma canção fúnebre que acompanhava a sina macabra de todas aquelas vidas perdidas.

            Decidida a sair dali o quanto antes, Bia optou por um caminho diferente.

            Estranhou a ausência de mortos-vivos, mesmo no campo de morte pelo qual acabara de passar. Porém, não alimentava a possibilidade de conseguir chegar à delegacia sem enfrentar nenhum obstáculo, ou de encontrar outro sobrevivente. Pelo menos, não tão cedo. Seria pedir demais. Sonhar demais. E a realidade na qual tudo havia se submetido era cruel demais para que deixasse espaço para sonhos.

           

            Só quando chegou à avenida na qual ficava a antiga farmácia de seu pai é que viu o primeiro inimigo. Cambaleava em meio aos carros, no decorrer da rua. Acompanhou-o com o olhar até que se perdesse na destruição, mas não demorou em constatar um segundo morto-vivo.

            Seguiu pelo meio-fio, usufruindo de tudo que pudesse ser usado como camuflagem. Quanto mais avançava, mais deles se mostravam visíveis em meio a toda aquela desgraça. Já havia contado seis deles, mas tudo ia aparentemente bem, até o sétimo se esgueirar para o passeio, bem diante de si.

            Antes que pudesse ser vista, porém, deu a volta em um dos carros, atenta ao restante dos inimigos que vagavam pela rua. Observou-o através dos vidros do automóvel; um chiado rouco e abafado escapava por uma grande fenda aberta onde antes houvera seu maxilar. Movimentava-se de maneira descoordenada, mas os olhos sem vida corriam de um lado para o outro, acompanhando o ritmo de suas narinas que pareciam farejar o ar ao redor sem cessar num único instante.

            Pé-ante-pé, Beatriz tomou distancia até que o morto se afastasse. Voltou a seguir em frente assim que julgou estar segura. Então ouviu mais uma vez o chiado do morto e mal teve tempo de se esquivar quando o inimigo se jogou contra ela, chocando-se contra um carro.

            Sentiu o suor escorrer frio no momento em que o alarme do automóvel zuniu em seu ouvido, atraindo a atenção de todos no decorrer da avenida para aquele ponto. Diversos urros fizeram-se ouvir quando ela começou a correr, o morto-vivo desbocado em seu encalço.

            Tinha que sair dali o quanto antes, ou seria encontrada por mais deles. Não sabia se poderia lidar com mais de um dos filhos da mãe, portanto continuou correndo. Podia ouvir os passos rápidos de seu perseguidor, e sabia que um único descuido podia significar seu fim.

            Olhou para trás uma única vez e vislumbrou o carro sendo cercado no momento em que o alarme voltava a se silenciar, trazendo à tona a quietude a pouco quebrada. Havia diversos bares e clubes noturnos por ali, se bem se lembrava, e poderia se esconder em um deles assim que despistasse seu perseguidor.

            – Por aqui! – ouviu alguém gritar.

            Como se tudo não bastasse, agora ouvia vozes?

            – Rápido, por aqui! – Não, alguém realmente chamava por ela.

            Sem cessar a corrida, procurou em todos os lados até que seu olhar se fixou em uma silhueta parada na cobertura de um velho bar, dois quarteirões à frente de onde estava. Aumentou o ritmo dos passos no momento em que o viu acenar, para logo em seguida desaparecer para dentro da construção.

            Socou a porta com os punhos assim que alcançou o bar, desesperada.

            – Abre essa porta! – pediu aos berros.

            Viu o morto-vivo se aproximando, o maldito chiado rouco cada vez mais próximo e audível. Desferiu um novo soco na superfície de madeira que a separava da salvação.

            – Rápido! – gritou.

            Não podia ficar esperando a boa vontade de seu suposto salvador. Mais alguns minutos parada e seria alcançada. No momento em que se virou para retomar a fuga, ouviu um som metálico do lado de dentro, a maçaneta girou, e quando a porta se escancarou, jogou-se para o interior do bar sem hesitar num único segundo.



O texto acima não tem qualquer vínculo com a história original de Terra Morta e nem foi escrito por Tiago Toy. É uma adaptação do RPG mestrado no Orkut por Luan Matheus, escrita pelo próprio.

2 mordidas:

Jefferson disse...

Parabéns pelo trabalho Luan Matheus

Sempre Deixando o Leito Com o Gostinho de Quero mas seus textos estão a cada vez melhores continue assim e Parabéns Mesmo.

5 de novembro de 2012 20:26
felippe disse...

nossa, muito bom!

só imaginando se ela se encontrou com algum dos outros personagens!!

5 de novembro de 2012 21:14

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